Capítulo 4
Jesus cura o infeliz possesso que, segundo o pai, era possuído por um Espírito mudo, que se apoderava dele em qualquer lugar, derrubava-o ao solo, fazia-o espumar, ranger os dentes, e o deixava rígido, provavelmente desacordado. Os discípulos nada puderam fazer, e, depois de curá- lo, o Cristo insiste em que tudo é possível àquele que crê, e ainda mais: que aquela classe de espíritos não poderia ser tratada senão com a prece. Ao comentar a passagem, em O EVANGELHO SEGUNDO O ESPIRITISMO, Kardec escreve que “a confiança nas suas próprias forças torna o homem capaz de executar coisas materiais, que não consegue fazer quem duvida de si”. No contexto, porém, as palavras devem ser entendidas em seu sentido moral. Não se trata, é certo, de remover montanhas de terra e pedra, imagem usada pelo Cristo para fixar o seu pensamento na memória dos ouvintes. “Da fé vacilante 3 O texto citado é da Bíblia de Jerusalém. — diz Kardec, pouco depois — resultam a incerteza e a hesitação, de que se aproveitam os adversários que se tem de combater; essa fé não procura os meios de vencer, porque não acredita que possa vencer.” (Destaque meu.) O comentário de Kardec é de transcendental importância. Para não transcrevê-lo por inteiro, aqui, é preferível recomendar que o leitor não deixe de estudá-lo e de meditar pausadamente acerca de todas as suas implicações, pois ele ocupa todo o capítulo 19 de O EVANGELHO SEGUNDO O ESPIRITISMO, páginas 284 a 293, da 57ª edição da FEB. É também aí que o Codificador escreveu sua famosa sentença: — Fé inabalável só é a que pode encarar de frente a razão, em todas as épocas da Humanidade. Dificilmente se poderia dizer melhor, com tão poucas palavras. A conceituação de fé tornou-se, com Kardec, definitiva. Precisa ser inabalável, tem que “encarar a razão” destemidamente, confiante-mente, sempre, em todas as épocas. Somente assim será inabalável. Fora disso, pode ser crença, suspeita, opinião, parecer, conjetura, presunção, mas não será fé. Sem ela, o doutrinador estará desarmado, despreparado para a sua tarefa, por mais bem-dotado que seja, com relação aos demais atributos necessários à sua função. Ele precisa estar confiante nos poderes espirituais que sustentam o seu trabalho, sem os quais nenhuma tarefa de desobsessão é possível, e todos os riscos são iminentes e inevitáveis. Ele tem de saber que, ao levantar-se para dar um passe, a fé lhe trará os recursos de que necessita para servir. Ele deve saber que, ao formular sua prece, vai encontrar a resposta ao que implora, em benefício do companheiro que sofre. Além disso, é a fé que lhe dá o apoio da confiança de que ele precisa para aventurar-se pelas ásperas e tenebrosas regiões do mais terrível sofrimento, do mais angustioso desespero, da mais violenta revolta. Se não tem fé, não estará em condições de realizar o trabalho a que se propõe. Outro ingrediente necessário, na psicologia do doutrinador, é o amor. Não é por acaso que nos textos evangélicos caridade e amor são tratados como sinônimos. Impossível seria considerar a caridade sem o amor, tanto quanto o amor descaridoso. Por isso, traduções modernas do Evangelho substituíram por amor a expressão caridade, que aparecia nos textos mais antigos, do belíssimo capítulo 13, da Primeira Epístola de Paulo aos Coríntios: — Ainda que eu fale a linguagem dos homens e dos anjos, se não tenho amor, sou como o bronze que soa e o címbalo que retine... Se não tenho amor, nada me aproveita... O amor é paciente e serviçal... O amor não é invejoso, nem presunçoso, não é temerário, nem precipitado, não tem orgulho, não é interesseiro, não se irrita, não se alegra com a injustiça e sim com a verdade. O amor tudo crê, tudo espera, tudo suporta. O amor não se acaba nunca. Se tudo se acabasse, restariam a fé, a esperança e o amor. A Bíblia de Jerusalém lembra, em nota de rodapé, que a expressão do original grego agapô, caracteriza bem a gradação cuidadosa do sentimento que Paulo desejou transmitir aos seus amigos de Corinto. Agapô é o amor-benevolência , que se dirige, como força construtiva do bem, em favor do próximo, diferente, portanto, do amor passional e egoísta. É desse amor-doação que precisa o doutrinador. Do amor que, segundo o Cristo, devemos sentir, com relação aos nossos próprios inimigos. É isto bem verdadeiro, no caso da doutrinação de Espíritos conturbados, porque, ao se apresentarem diante de nós, vêm com a força e a agressividade de inimigos implacáveis. Se respondermos à sua agressividade com a nossa, o trabalho se perde e desencadeamos contra nós a reação sustentada da cólera, do rancor, do ódio. Sem nenhuma figura de retórica, é preciso ter, no trabalho de desobsessão, a capacidade de amar os inimigos. — “É preciso — escrevia eu em REFORMADOR de fevereiro de 1975 — ter muito amor a dar, para distribuí-lo assim, indiscriminadamente, a qualquer companheiro espiritual que se manifeste. Muitas vezes, o médium doutrinador não se encontra, na sua vida de encarnado, cercado pelo sentimento de afeição de familiares e companheiros. Tem seus parentes, vive rodeado de conhecidos, no ambiente de trabalho, mas não conta com grandes afeições e dedicações. A sustentação do seu teor vibratório, no campo do amor, deverá vir de Cima, e, para isso, precisa estar ligado aos Planos Superiores, que o ajudam e assistem a distância. Sem amor profundo, pronto na doação, incondicional, legítimo, sincero, é impraticável o trabalho mediúnico realmente produtivo e libertador. É claro que estas observações são válidas para todos os componentes do grupo, mas particularmente se dirigem ao doutrinador, porque é ele o seu porta-voz, é nele que os Espíritos desequilibrados identificam a petulante intenção de interferir com seus planos pessoais, é ele, usualmente, o responsável pela direção dos aspectos, por assim dizer, terrenos, do trabalho. É lógico e natural, portanto, para os irmãos desorientados, que se concentre no doutrinador grande parte do esforço de envolvimento, bem como suas cóleras e suas ameaças. O médium doutrinador tem que devolver todo esse concentrado ataque vibratório, transformado em compreensão, tolerância e, principalmente, amor fraterno. * Isto não esgota, ainda, o rol das aptidões que devem integrar a personalidade do doutrinador. Nem pretendemos esgotá-lo aqui, ou afirmar que somente pode investir-se na função de doutrinador aquele que possuir cumulativamente todas essas virtudes. Não estamos ainda nesse estado evolutivo. Prossigamos, no entanto, ainda no exame dos componentes morais e psicológicos da personalidade de um bom doutrinador. Se não dispuser de um mínimo de aptidões, o candidato a tal função deve procurar desenvolvê-las, ou assumir outra tarefa, para a qual, seus recursos pessoais sejam mais adequados. Uma dessas virtudes é a paciência. Não pode ele, sem prejuízo sério para o seu trabalho, atirar-se sofregamente ao interrogatório do Espírito manifestante. Tem que ouvir, aturar desaforos e impropérios, agressões verbais e impertinências. Tem que aguardar o momento de falar. Para isso, necessita de outra qualidade pessoal, não particularmente rara, mas que precisa ser cultivada, quando não despertada: a sensibilidade, que o levará a sentir pacientemente o terreno estranho, difícil e desconhecido em que pisa, as reações do Espírito, procurando localizar os pontos em que o manifestante, por sua vez, seja mais sensível e acessível. Isto se faz com uma qualidade pessoal chamada tato, segundo a qual, vamos, pela observação cuidadosa, serena, nos informando de determinada situação ou acontecimento, até que estejamos seguros de poder tomar uma posição ou uma decisão sobre o assunto. A paciência, a sensibilidade e o tato nos facultam as informações que buscamos, mas não disparam, por si mesmos, os mecanismos da ação, ou seja, não nos indicam a providência a tomar, nem nos sustentam no que fizermos. Para isso, se pede outra disposição que poderíamos chamar de energia, que deve ser controlada e oportuna. Há de chegar-se a um ponto, na doutrinação, em que se torna imperiosa a tomada de uma atitude firme, enérgica, que não pode ser contundente, nem agressiva. É a hora da energia, e o momento tem que ser o certo. Nem antes, nem depois da oportunidade. Veremos isto, quando cuidarmos do trabalho propriamente dito. Há mais ainda. O doutrinador deve estar em permanente estado de vigilância, na mais ampla acepção do termo. Vigilância quanto aos seus próprios sentimentos e pensamentos, quanto às suas suposições e intuições, quanto ao que se contém nas entrelinhas do que diz o manifestante, quanto ao que ocorre à sua volta, com os demais componentes do grupo, quanto à sua própria conduta, não apenas durante o trabalho mediúnico, propriamente dito, mas no seu proceder diário. Convém repetir: não precisa ser um santo, e não o será mesmo. Vigilância e boa intenção não são santidade. O doutrinador precisa servir em estado de alertamento constante.
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Nome do Capítulo O doutrinador
Parte Segunda