Capítulo 9
Isto, porém, ainda não é tudo: “Deus permite que eles ocupem lugar nesta criação, nas relações que deviam ter com os homens e das quais abusam da maneira mais perniciosa.” Deus podia ignorar o abuso que fariam da liberdade que Ele próprio lhes daria? Então, por que a concedeu? Mas nesse caso é com conhecimento de causa que Deus abandona suas criaturas à mercê delas mesmas, sabendo, já que é onipotente, que vão sucumbir e que terão a sorte dos demônios. Não serão elas por si mesmas bastante fracas para falirem, sem a provocação de um inimigo tanto mais perigoso porque invisível? Se ao menos o castigo fosse temporário e o culpado pudesse remir-se pela reparação!... Mas não: a condenação é irrevogável, eterna! Arrependimento, regeneração, lamentos, tudo supérfluo! Os demônios não passam, portanto, de agentes provocadores, predestinados a recrutar almas para o inferno, e isto com a permissão de Deus, que antevia, ao criar essas almas, a sorte que lhes estava reservada. Que se diria na Terra de um juiz que recorresse a tal expediente para lotar as prisões? Estranha ideia que nos dão da Divindade, de um Deus cujos atributos essenciais são: justiça e bondade soberanas! E dizer-se que é em nome de Jesus, daquele que só pregou amor, perdão e caridade, que tais doutrinas são ensinadas! Houve um tempo em que essas anomalias passavam despercebidas, porque não eram compreendidas nem sentidas; o homem, curvado ao jugo do despotismo, submetia-se à fé cega, abdicava da razão. Hoje, porém, que a hora da emancipação já soou, esse homem compreende a justiça e a deseja tanto na vida quanto na morte. É por isso que exclama: “Não é, não pode ser assim, ou Deus não é Deus!”
TAG Valor
Parte Primeira
Nome do Capítulo Os demônios
Tema Os demônios segundo a Igreja
Item 15