Capítulo 9
O castigo segue por toda parte os seres decaídos: o inferno está neles e com eles; nem paz nem repouso. As próprias doçuras da esperança foram transformadas para eles em amarguras. A esperança lhes é odiosa. A mão de Deus os feriu no ato mesmo de pecarem, e sua vontade obstinou-se no mal. Tornados perversos, teimam em o ser e sê-lo-ão para sempre. Esses seres decaídos são, depois do pecado, o que é o homem depois da morte. A reabilitação deles torna-se também impossível; a sua perda é, a partir de então, irreparável, mantendo-se eles no seu orgulho perante Deus, no seu ódio contra o Cristo, na sua inveja contra a humanidade. Não tendo podido conquistar a glória celeste, pela ambição desmedida, esforçam-se por implantar seu império na Terra, banindo dela o reino de Deus. O Verbo encarnado cumpriu, apesar disso, os seus desígnios para salvação e glória da Humanidade. Também por isso procuram por todos os meios promover a perda das almas resgatadas pelo Cristo: a astúcia e a importunação, a mentira e a sedução, tudo põem em jogo para arrastá-las ao mal e à ruína completa. Com tais inimigos, a vida do homem é uma luta sem tréguas, desde o berço até o túmulo, visto que são poderosos e infatigáveis. Efetivamente, esses inimigos são os mesmos que, depois de terem introduzido o mal no mundo, chegaram a cobri-lo com as espessas trevas do erro e do vício; os mesmos que, por longos séculos, se fizeram adorar como deuses e que reinaram em absoluto sobre os povos da Antiguidade; os mesmos, enfim, que ainda hoje exercem influência tirânica nas regiões idólatras, fomentando a desordem e o escândalo até no seio das sociedades cristãs. Para compreender todos os recursos de que dispõem a serviço da malvadez, basta notar que nada perderam das prodigiosas faculdades que são o apanágio da natureza angélica. Por certo, o futuro e sobretudo a ordem natural têm mistérios que Deus reservou para si e que eles não podem penetrar; mas a sua inteligência é bem superior à nossa, porque percebem, num simples piscar de olhos, os efeitos nas causas e vice-versa. Essa percepção lhes permite predizer acontecimentos futuros que escapam às nossas conjeturas. A distância e a variedade dos lugares desaparecem ante a sua agilidade. Mais rápidos que o raio e o pensamento, acham-se quase instantaneamente sobre diversos pontos do globo, e são capazes de descrever, a distância, os acontecimentos na mesma hora em que ocorrem. As leis gerais pelas quais Deus rege e governa o universo não lhes são acessíveis, razão por que não podem derrogá-las e, por conseguinte, predizer ou operar verdadeiros milagres; possuem, no entanto, a arte de imitar e falsificar, dentro de certos limites, as obras divinas; sabem quais os fenômenos resultantes da combinação dos elementos, predizendo com maior ou menor êxito os que sobrevêm naturalmente, assim como os que eles mesmos podem produzir. Daí os numerosos oráculos, as extraordinárias profecias que os livros sagrados e profanos recolheram, e que têm servido de base e de alimento para todas as superstições. A substância simples e imaterial que os compõe escapa às nossas vistas; permanecem ao nosso lado sem que os vejamos; tocam a nossa alma sem nos tocar o ouvido. Acreditamos obedecer aos nossos pensamentos, quando, na verdade, sofremos as suas tentações e a sua funesta influência. As nossas disposições, ao contrário, lhes são conhecidas pelas impressões que delas transparecem em nós, e nos atacam geralmente pelo lado mais fraco. Para nos seduzirem com mais segurança costumam apresentar-nos ideias e sugestões de acordo com as nossas inclinações. Modificam a ação segundo as circunstâncias e os traços característicos de cada temperamento. Contudo, suas armas favoritas são a hipocrisia e a mentira.
TAG Valor
Parte Primeira
Nome do Capítulo Os demônios
Tema Os demônios segundo a Igreja
Item 16