Capítulo 9
Conforme esta doutrina, apenas uma parte dos demônios está no inferno; a outra vagueia em liberdade, envolvendo-se em tudo o que aqui se passa, dando-se ao prazer de praticar o mal e isso até o fim do mundo, cuja época indeterminada não chegará tão cedo. Por que, pois, essa diferença? Serão os últimos menos culpados? Certo que não, a menos que se revezem nos seus papéis, como se pode deduzir desta passagem: “Enquanto uns ficam na tenebrosa morada, servindo de instrumento da Justiça divina contra as almas infelizes que seduziram.” Suas ocupações consistem, pois, em atormentar as almas que seduziram. Assim, não se encarregam de punir as que são culpadas de faltas livres e voluntariamente cometidas, mas das que eles próprios provocaram. São ao mesmo tempo a causa do erro e o instrumento do castigo. O que causa mais admiração, contudo, e que a justiça humana, por mais imperfeita que seja, jamais admitiria, é o fato de a vítima, ao sucumbir por fraqueza e em circunstâncias alheias à sua vontade, ser punida tão severamente quanto o agente provocador, que emprega astúcia e artifício, e até com mais severidade, porque vai ao inferno ao deixar a Terra para daí não sair nunca mais, sofrendo eternamente, sem trégua nem compaixão, enquanto o causador da sua primeira falta, o agente provocador, permanece em liberdade até o fim do mundo! Ora, porventura a Justiça de Deus seria menos perfeita que a dos homens?
TAG Valor
Parte Primeira
Nome do Capítulo Os demônios
Tema Os demônios segundo a Igreja
Item 14