Rememorando as palavras ouvidas dos lábios maternos, acolheu-se a jovem num divã, em pranto convulsivo. Torturantes pensamentos se lhe entrechocavam no cérebro enfermo. Vibrações pesadas, caracterizando-se pela cor muito escura, desciam-lhe da fronte e fixavam-se no aparelho respiratório. Represavam-se na pleura, invadiam os alvéolos e daí passavam ao coração, influenciando as trocas sanguíneas, momento em que a substância fluídica das emissões mentais se esvanecia, absorvida pelas artérias. Notei, porém, que esse material oriundo da mente perturbada, imprimindo-se no mecanismo fisiológico, era assimilado pelo sangue, que, a seu turno, o restituía ao cérebro físico, acumulando-se em todas as zonas deste, mais próximas da substância cinzenta. Reparava, por isso, na jovem, não somente os olhos rubros e túrgidos de chorar, mas também os pródromos dos mais sérios distúrbios orgânicos. Identificando as manifestas perturbações no cérebro e no bulbo raqueano, encarei o meu orientador e perguntei:
— Não estaremos aqui ante a misteriosa origem da encefalite letárgica?
— Muito mais do que isto, — respondeu Calderaro, sorrindo; — a mente desvairada emite forças destrutivas, que, se podem atingir os outros, alcançam, em primeiro lugar, o cosmo orgânico do emissor. Decidindo-se Julieta por um gênero de vida que lhe provoca violentos e contínuos conflitos na mente, passou a despedir energias fatais para ela mesma. Dotada de distinta educação, haurida ao contato materno que lhe aprimorou as concepções e lhe enobreceu os sentimentos, incompatibilizou-se com uma existência de nível mais baixo na Crosta Planetária: a preparação do espírito ilumina invariavelmente. Possuindo, destarte, sublime claridade interior para a jornada humana, colheria naturalmente paz, alegria e edificação no exercício de suas faculdades femininas, desde que se lhe oferecesse um campo de luta em que sentisse a sadia manifestação dos poderes de sua alma. O casamento digno é o campo indicável ao seu caso de mulher nobilitada pelo conhecimento e pela virtude. Cedendo, no entanto, às tentações de que foi alvo, sente-se intimamente precipitada escada abaixo. Todos os dias é constrangida, no silêncio, a recordar a exemplificação da genitora, a reconsiderar a própria atitude diante da vida e a reconhecer que se encontra desajustada. Nesse atrito incessante, agravado pelas péssimas emissões fluídicas do ambiente de que se tornou frequentadora habitual, sua mente desce à região dos impulsos instintivos, experimentando extrema dificuldade em subir ao castelo das noções superiores, de onde a luz da consciência lhe dirige vigorosos apelos para que retorne à simplicidade e à harmonia. Tal situação impede-lhe a prece fervorosa, santificante e regeneradora, e daí o caos em que a pobrezinha tateia. É suficientemente educada para colher qualquer benefício do meio onde levianamente se projetou, e, dominada pela permanente angústia, faz demasiada pressão sobre a matéria cinzenta, dando causa a lamentáveis desequilíbrios orgânicos. Calderaro interrompeu-se por alguns instantes, à maneira do professor que abre caminho à reflexão do aprendiz, e acrescentou, sereno:
— Não está ela, pois, simplesmente ameaçada pela encefalite letárgica: avizinha-se da loucura com estádios por distúrbios vários, provocados pela disfunção celular. Não somente isto. Julieta, nas circunstâncias em que a observamos, pode ser atingida noutros centros vitais. É capaz de apanhar uma pleurisia como antecâmara para a tuberculose. Com facilidade será vítima de deploráveis intoxicações do sangue, que se caracterizarão por moléstias indefiníveis dos vasos ou da epiderme, sem incluir as desarmonias fatais do fígado, prováveis portadoras da ruína e morte para o veículo denso. Chegados a este ponto das elucidações, o orientador ergueu os olhos e considerou:
— Mas… a justiça divina jamais desconhece a compaixão. Às vezes, nossa queda precipitada constitui mero desastre parcial a que nos arrasta o desespero. A Eterna Sabedoria examina o móvel de nossas ações e, sempre que possível, pronto nos reergue. Somente quando nos mergulhamos no total eclipse do amor e da razão, deliberadamente fugindo aos processos do socorro divino, mantendo-nos nas trevas completas do ódio e da negação, defrontamos com absoluta dificuldade de receber influências salvadoras; então, deveremos esperar os atritos cruéis do tempo, aliados às forças, de caráter compulsivo, das leis universais. Se a jovem não pode elevar-se a Plano superior, como ave ferida pelo tiro de caçador impiedoso, a mãezinha doente permanece em poderosas orações transformadoras. Caiu a filha para socorrer-lhe o corpo, mas Cândida alcandorou-se mais por salvar-lhe a alma. Em vista disto, o amoroso poder de Cipriana agirá esta noite. Calou-se o meu interlocutor, submetendo a lacrimosa menina ao auxílio magnético de nosso Plano, subtraindo-lhe certa quantidade de material escuro, segregado pela própria mente e acumulado ao longo do cérebro, o que levou a efeito sem obstáculos dignos de menção. Todavia, como deixasse um tanto de tal substância na câmara cerebral, indaguei a causa dessa deliberação. O amigo tomou significativa expressão fisionômica e esclareceu:
— Tenho instruções relativas ao caso. Julieta não deve receber hoje nosso concurso integral. Precisa manter-se enferma do corpo, de modo a ausentar-se das noitadas que costuma praticar. Em breves horas será conduzida, junto de Paulino, em Espírito, ao quarto de Cândida, onde a irmã Cipriana pretende dirigir-se a ele, valendo-se das breves horas de desprendimento parcial pelo sono. Compreendi tudo e, mais uma vez, admirei a ordem imanente na Esfera do Espírito. Em seguida, conduziu-me Calderaro ao serviço de assistência a um irmão sofredor, cujo caso examinaremos no próximo capítulo, a fim de não perdermos o fio do processo de auxílio a Julieta. Por volta das duas horas, em plena madrugada, regressou comigo o instrutor ao modesto aposento de Cândida; esta, fora do mirrado invólucro material, repousava nos braços de Cipriana, que lhe afagava a fronte com ternura de mãe. A doente, gozando extrema lucidez, fora do campo fisiológico, respondeu-nos às saudações, tranquila e feliz. Outros amigos conservavam-se ao lado dela, reconfortando-a para o transe definitivo. Permutávamos impressões, prazerosamente, quando dois irmãos de nosso Plano penetraram o quarto, conduzindo Julieta e um cavalheiro que identifiquei por intuição. Confirmou Calderaro, esclarecendo:
— É Paulino, que vem ouvir-nos. Diante de Cipriana, que sustentava a enferma nos braços carinhosos, ajoelharam-se ambos instintivamente, chorando comovidos. Ajudados pela assistência magnética dos mensageiros que os traziam até nós, contemplavam-nos a todos, sob forte admiração, relevando, porém, notar que a luz de nossa benemérita instrutora lhes reclamava atenção maior. Sentiam-se humilhados e aflitos. Reconheciam, ali, a presença de alguma coisa do poder celestial. Mantinham-se confundidos e em lágrimas, quando Cipriana se dirigiu ao moço, de maneira particular:
— Paulino, falo-te em nome da Divina Justiça. Que o Senhor te abençoe, a fim de que me ouças com os ouvidos da razão! Escuta! Não supões Julieta digna de teu braço vigoroso e trabalhador para a jornada terrestre? Que fazes da mocidade? Uma simples aventura dos sentidos? Não interpretas a experiência humana como estrada preparatória da eternidade? Que juízo fazes da vida e dos seus sublimes dons? Não partilhes o ingrato labor dos nossos irmãos menos esclarecidos, que pretendem converter a mulher numa cobaia infeliz para o jogo dos sentidos. Dignifica a tua existência de homem, honrando o sacerdócio feminino. Renasceste na Terra, guardado por seu devotamento cresceste sob os cuidados maternos, e encontrarás, ainda, na mulher, o vaso dileto para os teus sonhos de paternidade criadora. Porque persistir no vaidoso domínio de uma criança pobre, por mero impulso de egoísmo e de ostentação? Não te confrange contemplar a prolongada aflição de Cândida, atormentada por atroz pesadelo, ante a incerteza dolorosa do porvir da filha? Desperta para os teus compromissos de natureza superior. Não vieste ao mundo simplesmente para gozar. A existência terrestre, meu amigo, é abençoado colégio de iluminação renovadora. Que motivos te impelem a um condenável procedimento? És bom e útil, inteligente e nobre. Porque te furtas à responsabilidade santificante? Nesse momento, Paulino, que chorava sob insopitável comoção, não falou, mas emitiu pensamentos que se fizeram claros para nós. Não hesitaria quanto ao casamento, — ponderava, raciocinando; — todavia, encontrara Julieta fora do santuário doméstico. Conhecera-a num círculo de pessoas menos responsáveis, em clima de sugestões que não convidavam à elevação espiritual. Não seria prudente defender-se? Não lhe constituía obrigação organizar o matrimônio em bases mais sólidas? Aproximara-se da jovem num clube noturno. Encontrara-a sem lar. A Irmã Cipriana alcançou-lhe as ponderações, porque tornou, firme, após ligeira pausa:
— Perante o teu critério de homem de bem, as aflições de Julieta a tornam credora de maior amparo. A pobrezinha não procurou uma casa de entretenimentos menos dignos, alimentando segundas intenções. Não lhe conheces, porventura, as preocupações absorventes de filha dedicada? Não sabes que seus pés ali buscavam trabalho e arrimo, proteção e recurso?