Capítulo 6
Enquanto diligenciavas mera distração para a mente ociosa, Julieta vivia humilhações, tentando ganhar o remédio necessário à mãezinha enferma… Como absolver a ti mesmo e condená-la? Com que direito chasqueaste a respeitabilidade de uma jovem que visava a tão sagrados objetivos? Haverá vileza no sol quando seus raios incidem no pântano? Será culpado o lírio que adereça um cadáver? Paulino, sacode a consciência adormentada pelas facilidades humanas! Ainda não sofreste quanto devias, para santificar e amar a vida. Não desprezes o ensejo que se te oferece! Coopera no resgate de jovem mulher que te não surgiu no caminho por mero acaso. O amor e a confiança não constituem obras de improviso: nascem sob a bênção divina, crescem com a luta e consolidam-se nos séculos. A simpatia, no mais das vezes, é a realização de milênios. Não te aproximarias de Julieta, com tamanho apego, se ela já não figurasse em teu pretérito espiritual. Dedica-te a ela, salva-a da loucura e da inutilidade. Oferece-lhe o braço de esposo, honrando a vida, antes que a morte te despedace o vaso físico nas mãos invencíveis. É mais nobre dar que receber, mais belo amar que ser amado, mais divino sacrificar-se que extorquir alheios sacrifícios. Não te cause mossa a crítica do mundo. A sociedade humana é venerável em seus fundamentos, mas injusta quando extermina os germes de regeneração espiritual para a vida superior, a pretexto de preservar-se. Vem a nós, Paulino! O Senhor abençoar-te-á o gesto digno. Amanhã Cândida viverá as horas derradeiras da atual existência. Dá-lhe a paz, restitui-lhe o bem-estar, pelo muito que se mortificou para conservar a filha em posição respeitável. Não permitas que o amor se perverta em tua alma. Santifica-o com a responsabilidade, fortifica-o com os teus dotes naturais, e a Providência estará ao teu lado por todo o sempre. Calou-se a instrutora, mas de seu coração partiam raios de safirina luz, envolvendo o rapaz integralmente. O cavalheiro ergueu os olhos lacrimosos, contemplando-a, reconhecido, e declarou: — Recebo a vossa palavra como se fora a de minha Mãe Celestial. Fazei de mim o que vos aprouver. Estou pronto… Cipriana depositou Cândida no invólucro físico, afetuosamente, e dirigiu-se ao jovem par, acrescentando: — Que o Pai nos abençoe a todos. Julieta e Paulinho foram reconduzidos ao aposento do qual tinham vindo, e nós, de nossa parte, dilatamos a permanência no quarto da enferma, em auxílio ao “processo desencarnatório”. Às oito horas da manhã, Cipriana suprimiu-lhe a maior parte das forças. Chamado pela enfermeira vigilante, o médico prognosticou a morte próxima. Reclamada a presença da filha, compareceu a jovem depois do meio-dia, seguindo-se-lhe Paulino, visivelmente comovido. Que belo que é verificar a influência indireta do Plano superior sobre os companheiros terrestres. Como haviam procedido nas horas de sono carnal, assim, ao observarem a venerável senhora em plena agonia, ajoelharam-se ambos, lacrimosos, quase na mesma posição de horas antes. Cândida fixou o rapaz em atitude suplicante, e falou-lhe, com dificuldade, embora Cipriana, lhe não deixasse fugir as energias, mantendo a destra luminosa sobre a sua cabeça. A agonizante comentou, comovedoramente, a angústia que lhe torturava o espírito. Receava deixar a filha inexperiente no mundo, à mercê das tentações. Apelava para o cavalheirismo de Paulino, que a não deixou terminar. De olhos rasos d’água, colocou o indicador nos lábios da respeitável moribunda, confortando-a. — Dona Cândida, — disse, atencioso, — não fale mais nisso. Amanheci hoje com um propósito irremovível: Julieta e eu nos casaremos, dentro em poucos dias. Amanhã mesmo iniciaremos o processo de legalização do nosso compromisso, antes que qualquer circunstância interfira por empecer nossos desejos. Fique, pois, descansada. A partir de agora, sou também seu filho. A agonizante, chorando copiosamente, fez um sinal. Julieta aproximou-se, enquanto Paulino colava o rosto aos seus cabelos prematuramente encanecidos. Foi então que Cândida, amparada por Cipriana, lhes uniu as mãos, num gesto simbólico, osculando-as enternecidamente. Foi seu derradeiro movimento no corpo exausto. Em breves minutos, as pálpebras físicas cerraram-se para sempre, enquanto os olhos espirituais se abririam entre nós, para a contemplação dos trilhos refulgentes da Eternidade.
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Nome do Capítulo Amparo fraternal