Noite fechada, encontramo-nos à porta de aposento modesto, em sanatório humilde. Gentil irmã de nossa Esfera nos aguardava no limiar, saudando-nos, atenciosa. Avançou Calderaro, perguntando:
— E Cândida? Como passa?
— Muito bem. Deve estar conosco, em definitivo, amanhã à noite. Irmã Cipriana recomendou-me vigiá-la para que o desenlace se realize placidamente. Creio que nossa desvelada amiga já poderia ter vindo; no entanto, ao que me parece, a filhinha, que deixará na Crosta, reclama certas providências. Entramos. No leito, uma senhora, prematuramente envelhecida, aguardava a morte. Na fisionomia, os fenômenos de extinção do tônus vital eram visíveis. Cândida, a irmã que nos merecia tanto carinho, prendia-se ainda ao corpo através de fios muito frágeis. Pela doce luz que lhe nimbava a fronte, emitida por sua própria mente, eu lhe observava a grandeza dalma, o sereno heroísmo. Junto dela, uma jovem, de rosto pálido e corpo alquebrado, acariciava-lhe os cabelos grisalhos, enxugando, de momento a momento, as lágrimas em contínuo fluxo. O Assistente indicou-ma, explicando:
— É a filha a despedir-se. Ouçamo-las. Cândida, amimando-a com dificuldade, falava, comovida:
— Julieta, minha filha, tenha cuidado consigo. Você sabe que, provavelmente, não mais me levantarei. Receio deixá-la entregue aos embates do mundo, sem mãos amigas… A moça trazia a garganta comprimida. O pranto copioso testemunhava-lhe a extrema angústia. A mãezinha, porém, refreando a custo a comoção, prosseguia, generosa:
— Meus filhos abandonaram-nos. Estamos sozinhas e precisamos pensar. Noto-a perturbada e mais aflita nestes últimos dias. Tenho a impressão de que o dinheiro não dá para nossas despesas. Que estará acontecendo? Tenho sido tão pesada à sua juventude! Entretanto, permaneço confiante em Jesus. Diariamente rogo ao Senhor não nos desampare. Temo que seu destino se desvie do caminho reto por minha causa… De outras vezes, filhinha, receio que você acabe enlouquecendo… E depois de ligeira pausa, em que apertou mais carinhosamente a destra da mocinha, que não aparentava mais de vinte anos, a enferma continuou:
— Ouça: Você não ignora que nos últimos meses a despesa tem sido enorme. As intervenções que sofri foram melindrosas e longas. As contas são gigantescas. E o dinheiro? Tranquilize-me, querida! A moça enxugou as lágrimas abundantes e informou:
— Não se aflija, mamãe! Temos o necessário. Estou trabalhando.
— Mas a costura rende tão pouco! — Acentuou a enferma em tom desalentado.
— Oh! Não se vexe tanto! Além dos nossos recursos naturais, tomei pequeno empréstimo. Dentro de alguns meses tudo retomará o ritmo normal.
— Permita-o Deus. Findo intervalo mais longo, indagou a doente:
— Onde está o Paulino? A filha ruborizou-se e respondeu, acanhada:
— Não sei, mamãe.
— Não se veem há muito?
— Não, — tornou a moça, tímida.
— Desejaria vê-lo. Temo partir de um momento para outro… e não vejo pessoa a quem solicitar assistência para a sua mocidade. Que será de você, sozinha, ao sabor das circunstâncias? O mundo está referto de homens maus, que espreitam o ensejo de flagiciar… Nesse instante, dos olhos lúcidos de Cândida escaparam algumas lágrimas, que me abrasaram o coração.
— Se eu morrer, minha filha, — prosseguiu com tocante acento, — não se deixe arrastar pelas tentações. Procure recursos no trabalho digno, não se impressione com as promessas de vida fácil. Você sabe que a minha viuvez nos deparou dificuldades angustiosas; seu pai, contudo, nos deixou uma pobreza honesta e cheia de bênçãos. Em verdade, seus irmãos, fascinados pelo ganho material, relegaram-nos ao abandono, ao esquecimento, mas nunca me arrependi da humildade e do trabalho… Cedo perdi a saúde, e mui breve os desenganos me lancinaram o coração; todavia, neste grabato de silêncio e de dor, a paz é a coroa de minha alma e reconheço que não há fortuna maior que a consciência tranquila… Sabe o Senhor os motivos de nossos sofrimentos e privações, e só nos cabem razões para louvá-Lo… De tudo quanto padeci remanesce-me um tesouro: seu devotamento, minha filha. Seu carinho enriquece-me. Morrerei feliz, sabendo que um coração de filha me lembrará na Terra com as preces do amor que nunca morre… Entretanto, Julieta, não desejo que você seja boa e dócil tão somente para comigo; obedeça igualmente a Deus, consagre-Lhe amor e confiança. Ele é nosso Pai de Infinita Bondade e de nós pede apenas um coração singelo e uma vida pura. Conforme-se, filhinha, com os desígnios divinos, no turbilhão das provas humanas, e não descoroçoe!
— Ó mamãe! Não prossiga, — soluçou a jovem, desabafando-se, — não prossiga! Estaremos sempre juntas. A senhora não morrerá. Viveremos uma para a outra, jamais nos separaremos… Acalme-se! Não quero vê-la aflita… Tudo passará. O médico prometeu-me iniciar tratamento mais enérgico. Tenhamos fé! Cândida esboçou triste sorriso, acariciou as mãos da jovem e falou:
— Obrigada, minha filha! Estou calma e feliz… Olhou, em seguida, os ponteiros do relógio próximo e acrescentou:
— Vá sossegada! O horário de nossa palestra terminou. Beijaram-se, comovidamente. E Julieta, após carinhoso adeus, afastou-se.
— Sigamo-la, — disse Calderaro, atento; — devemos assisti-la com recursos magnéticos. Tenho instruções de Cipriana a respeito. Em caminho, o instrutor esclareceu-me a história da agonizante: “Enviuvara Cândida muito moça, com três filhos: dois rapazes e Julieta, cuja educação lhe impusera amarga renúncia dos bens da vida. Lutara, trabalhara e sofrera, com resignação e coragem. Os filhos varões, a quem revoltava a pobreza do lar materno, abandonaram-na, buscando centros distantes, por atender a impulsos menos edificantes da mocidade. Perseverou a viúva na existência singela, consagrada à preparação do futuro da filha. Iniciou-a nos trabalhos de agulha, em que a menina se revelou, de pronto, excelente profissional, mas, depois de alguns anos de provações mais rudes, a nobre genitora caiu, extenuada. Hospitalizada, sofreu diversas intervenções no campo orgânico, sem resultados apreciáveis. Tão aflitiva se lhe tornou a situação, que o recolhimento à casa de saúde já se alongava por dez arrastados meses. A princípio, por si só, Julieta conseguiu satisfazer às exigências financeiras. Com o escoar do tempo, viveu, porém, a pobrezinha duelo tremendo entre a necessidade e o esgotamento. Exaustas as possibilidades de que dispunha, recorreu a parentes que se esquivaram, cautelosos; apelou para amigos, que se mostraram indiferentes. “As despesas, no entanto, cresciam sempre, implacáveis. A costura não lhe oferecia a compensação necessária. Visitava a mãezinha diariamente, ao crepúsculo, pondo-se a par da situação cada vez mais grave. Louca de angústia, bateu a todas as portas, e todas as portas permaneceram seladas. Incapaz de perscrutar aquela situação, em toda a sua profundeza, com a genitora, que naturalmente não lhe desejava o sacrifício, cedeu Julieta a insidioso convite. Passou a valer-se da noite, a fim de trabalhar numa casa de diversões, com o intuito exclusivo de agenciar mais dinheiro; cantaria e dançaria, melhorando a receita. “Desde então, passou a representar o papel de uma ovelha assediada por feras, e, por mais que resistisse às solicitações dos sentidos, em dada circunstância não logrou furtar-se ao império das sensações. Atraída pelas propostas de um homem, aquele mesmo Paulino a quem a mãe se referira, não teve forças para resistir: aceitou-lhe a proteção prematura. Abandonou a máquina de costura e mudou-se do modesto quarto em que penosamente vivia. Fixou-se, então, no centro de diversões noturnas, e, se comparecia a outros lugares, era sempre acompanhada por ele, interessado em tirar-lhe proveito da mocidade e beleza, qual cavalheiro vaidoso a ostentar uma joia. Julieta, no entanto, ocultava a realidade aos olhos maternos. Vestia-se com singeleza para a visita diária, e, quando se fez acompanhar de Paulino, pela primeira vez, no hospital, apresentou-o a Cândida na qualidade de simples amigo. As aflições sucessivas da menina alteraram-lhe, porém, a saúde. Achava-se extenuada, doente. Recordando os exemplos maternos, experimentava atrozes perturbações conscienciais. Os prazeres fáceis não lhe amainavam o coração sensível e afetuoso. O dinheiro abundante não lograva atenuar-lhe o desalento. À maneira que conquistava alheia admiração para os dotes físicos, parecia perder a paz de si mesma. Presa de incoercível abatimento, passava os dias e as noites sob os fortes atritos da própria razão. Porque não persistira na vida modesta até ao fim? Como não se confessar à mãezinha, obtendo-lhe a precisa orientação? Por outro lado, sentia-se desculpada: precisava da cooperação financeira de Paulino para socorrer aquela que lhe dera o ser; buscara recursos em todas as fontes que lhe pareceram limpas e acessíveis, e todas as mãos permaneciam cerradas aos seus rogos… Mas, estaria procedendo com acerto? Não sentia coragem para tornar à oração de outros tempos. Debatia-se-lhe a mente, angustiada, entre as exigências do mundo material e as imperiosas postulações do espírito. “No entanto, — concluiu Calderaro, atencioso, — as preces maternas acompanhavam-na, através do escabroso caminho. E Cândida não tem sofrido em vão. Colaboradora fiel de muitos serviços, é credora de muitas bênçãos…” Depois de inteirar-me daquele drama comum a várias mulheres jovens dos nossos dias, segui o orientador até o aposento em que Julieta lhe receberia o socorro à organização psíquica em desvario.