Nova Cura de uma Jovem Obsedada de Marmande
Observação – Este último raciocínio do Espírito é resultado da superexcitação em que se acha, mas acaba de levantar uma questão importante. “Por que, no mundo onde estou, não me falaram como vós?” Em razão de a ignorância do futuro fazer parte momentaneamente do castigo de certos culpados. Somente quando vencido o seu endurecimento é que lhes fazem entrever um raio de esperança, como alívio às suas penas; é preciso que voluntariamente voltem os olhos para Deus. Mas os Espíritos bons não os abandonam; esforçam-se por lhes inspirar bons pensamentos; espreitam os menores sinais de progresso e, desde que vêem neles brotar o germe do arrependimento, provocam instruções que, esclarecendo-os, podem conduzi-los ao bem. Essas instruções lhes são dadas pelos Espíritos em tempo oportuno; também podem sê-lo pelos encarnados, a fim de mostrar a solidariedade que existe entre o mundo visível e o mundo invisível. No caso de que se trata, era útil à reabilitação de Germaine que o perdão lhe viesse da parte dos que se queixavam dela, o que era, ao mesmo tempo, um mérito para estes últimos. Esta a razão pela qual a intervenção dos homens é requisitada para a melhora e o alívio dos Espíritos sofredores, sobretudo nos casos de obsessão. Seguramente a dos Espíritos bons lhes poderia bastar, mas a caridade dos homens para com seus irmãos da erraticidade é para eles próprios um meio de avanço que Deus lhes reservou. P. – O Espírito Jules, que vedes perto de nós, era também um criminoso, sofredor e infeliz?... Resp. – Minha posição foi pior para mim. Citai tudo quanto pode afligir a alma; dizei quanto o veneno queima as entranhas: eu experimentei tudo; e o mais cruel para mim era estar só, abandonada, maldita. Não inspirei piedade a ninguém. Compreendeis a raiva que transborda de meu coração? Sofri muito! eu não podia morrer; o suicídio não me era possível; e sempre à minha frente o mais sombrio futuro! Jamais vi despontar um clarão; nenhuma voz me disse: Espera! Então gritei: “Raiva, vingança! A mim as vítimas! ao menos terei companheiras de sofrimento. Não é a primeira vez que a menina sente a minha opressão.”3. Observação – Se se perguntasse por que Deus permite que Espíritos maus saciem sua raiva nos inocentes, diremos que não há sofrimento imerecido, e aquele que hoje é inocente e sofre, por certo ainda tem alguma dívida a pagar. Esses Espíritos maus servem, neste caso, de instrumento à expiação. Além disso, sua malevolência é uma provação para a paciência, a resignação e a caridade. P. – Agradecei a Deus por vos ter feito sofrer tanto; esses sofrimentos são a expiação que vos purificou. Resp. – Agradecer a Deus! pedis muito; sofri demais! Era preferível o inferno àquilo que eu suportava. Como me ensinaram, os danados sofrem, choram e gritam juntos; eles podem debater-se e lutar entre si; eu estava só. Oh! é horrível! Descrevendo estas coisas, fico com vontade de blasfemar e de me lançar sobre a presa. Não creiais entravar-me, pondo entre mim e ela um anjo sorridente. Lutarei com todos, seja quem for. P. – Seja qual for o sentimento que vos agita, só vos oporemos a calma, a prece e o amor. Resp. – O que mais me agrada é que me falais sem me injuriar, sem me repelir e quereis fazer-me esperar. Oh! não espereis que me entregue imediatamente; tenho medo da decepção. Depois de ter feito tão belas promessas, tão belas que ainda não posso acreditar, iríeis abandonar-me? Oh! o que seria de mim, então? E refleti: Por que essa consolação tão tardia? e por que vós? Seria uma cilada oculta? Olha! não sei o que crer, o que fazer. Na verdade isto me parece estranho, surpreendente. Observação – Prova a experiência, realmente, que as palavras duras e malévolas são um meio inadequado para se desembaraçar dos Espíritos maus; elas os irritam, o que os levam a obstinar-se ainda mais. P. – Germaine, escutai-me. Vou explicar o que vos surpreende. Desde alguns anos, a imortalidade, a individualidade e a relação das almas com os que ainda estão na Terra nos têm sido demonstradas de maneira a não deixar margem a nenhuma dúvida. O Espiritismo – eis o nome desta nova doutrina – prescreve a seus adeptos que amem e socorram seus irmãos. Somos espíritas e, por amor a duas irmãs que sofrem, vós e a menina vossa vítima, viemos a vós para vos oferecer nosso coração e o socorro de nossas preces. Compreendeis agora? Resp. – Não muito. Raciocinais como jamais ouvi. Deveis, pois, vos ocupar com os que vivem como vós e em vosso meio, e com os Espíritos que sofrem como eu? É um trabalho que deve ter o seu mérito. P. – Se tendes ocasião para nos julgar sinceros, quereis prometer que serão boas as vossas disposições para com a mocinha? Resp. – Boas na medida em que tereis sido bons comigo. Eu vos julgo todos sinceros; vossa linguagem me leva a acreditar; mas ainda duvido. Tirai-me esta dúvida e sou vossa. Esforçar-me-ei por fazer o que vos vou prometer; à medida que se apagar a dúvida, o mal enfraquecerá e, partida a dúvida, terá cessado o mal na menina. Infeliz de quem brincar comigo! ela morrerá estrangulada. Uma vítima espera a sua graça, que depende de vós, ou o golpe que lhe desferirei na cabeça. Não é uma ameaça para vos intimidar, mas uma advertência de que o ódio e a raiva me cegariam. Chegastes a tempo; talvez ela já estivesse morta. Já que nem sempre podemos conversar juntos, dizei aos vossos amigos que vivem onde vivo, que continuem a conversa; que não me repilam, embora minhas maldades não tenham cessado. Porque não me empenhei absolutamente e não podeis exigir mais do que prometi. Pedimos aos nossos guias que dispensassem boa acolhida a Germaine. Eles responderam: “Antes de tudo ela é nossa irmã muito amada, tanto mais que tem sofrido muito. Vinde, Germaine. Se jamais uma mão amiga apertou a vossa, aproximai-vos: nós vos estenderemos as nossas. Só a vossa felicidade nos preocupa. Em nós sempre encontrareis irmãos, a despeito da fraqueza de que ainda vos sentis capaz. Nós vos lamentaremos e não vos condenaremos. Entrai em vossa família, a felicidade nos sorri. Entre nós não correm as lágrimas amargas; a alegria substitui a dor; e o amor, o ódio. Irmã, vossas mãos!” Vossos Guias Não houve crise no dia 23, como a da véspera. À noite a mocinha foi com seu pai à sessão, para ouvir Germaine, pela qual já mostrava muito interesse. Nossos guias nos disseram: “Começai vossos trabalhos pela evocação de Germaine; ela o deseja muito. Deveis provar-lhe que ela vos preocupa especialmente. Evitai tudo quanto possa parecer esquecimento e indiferença, a fim de afastar todas as suas dúvidas. Lembrai que seus ataques apenas se interromperam temporariamente. Sede prudentes; sede felizes sem amor-próprio e sem orgulho; sobretudo, sede fervorosos em vossas preces. Se ela manifestar o desejo de conversar demoradamente, mesmo que toda a noite, não regateeis o tempo.” Vossos Guias Evocação de Germaine. Resp. – Eis-me aqui, muito mais calma. Quero ser justa; creio ser um dever para convosco. Também vedes que agi como o havia dito. As boas relações fazem os bons amigos. Falai-me, pois, já que sois vozes amigas. É tão estranho e tão novo para mim que me permitireis deliciar-me com uma conversa onde o ódio será substituído pelo... ia dizer amor, e não o conheço! Dizei-me o que devo fazer para amar e ser amada, eu, a pobre miserável Germaine, envelhecida pela desgraça, pelo opróbrio e pelo crime!... Entre vós batizam? Eis uma neófita.” – O batismo que pedis, Jeanne4, já o recebestes, respondi-lhe; está no vosso arrependimento, em vossa resolução de marchar por um novo caminho. O dia 24 de setembro foi tão calmo quanto o precedente. Na reunião da noite chamamos Germaine. P. – Germaine, nós vos agradecemos... Resp. – “Não faleis disto, porque me deixais envergo-nhada. Eu é que me devo inclinar e pedir graça. Devo-te uma grande reparação, pobre menina! A vida de que gozam os Espíritos é eterna. Deus pôs à minha frente os meios e o tempo para reparar os danos causados pela cegueira da paixão. Tranqüiliza-te; ora algumas vezes pela infeliz Germaine, a criminosa que, hoje arrependida, te pede perdão. Esquece, pobre menina, tuas dores e quem as causou. Lembra-te apenas de que agora ela deseja ser tua amiga. Não é mais a mesma Germaine; a prece que fizeram em minha intenção tornou-me a alma mais limpa; extinguiu-se minha sede de vingança. A lembrança de meu infame passado será minha expiação. Minha prece, junto à vossa, suavizará o remorso que me tortura. Obrigado a vós todos, que me chamastes à senda da verdade e do bem, quando eu estava perdida nas profundezas do vício e da impenitência. “Agora acredito em vós; a dúvida desapareceu. Amo-vos e vos agradeço por me haverdes salvo e curado; também vos agradeço por esta pobre menina, a quem restituístes a saúde e a vida. “Posso dizer-me feliz, por estar entre os Espíritos bons, que consolam e fortalecem por sua moral doce e persuasiva. Não mais estou só; a despeito de toda a perversidade de minha alma, eles me admitiram em sua bem-aventurada família. Sou a doente, eles são meus guardiães. Faltam-me expressões para vos dizer tudo o que sinto. “Dizei-me todos, sobretudo tu, pobre filha, que me perdoais. Preciso ouvir esta palavra sair de teu coração. Por favor, dai-me esta consolação.” A jovem Valentine lhe disse: “Sim, Germaine, eu vos perdôo; mais ainda: eu vos amo!” – “E nós também, disse eu logo, nós vos amamos como a uma irmã.”
TAG Valor
Mês Janeiro
Ano 1865