Germaine continuou: “E eu também começo a amar. A quem devo esta transformação? Àqueles a quem injuriei e que, malgrado todo o horror que eu lhes devia inspirar, tiveram piedade de mim e me chamaram sua irmã, provando que não me enganavam.
“Sim, abris-me o caminho do futuro feliz. Estava pobre a abandonada e agora vivo entre os que têm muito; não posso mais me lastimar. Os Espíritos bons dizem que vão preparar-me para as provações que sofrerei infalivelmente; e, munida desta força, descerei ao meio das criaturas terrenas. Já não será para semear a morte ao meu redor, mas para amar e merecer sua benevolência e amizade.
“Terei muito a dizer, mas não quero ser importuna.
Oremos; parece que isto me fará bem.
“Deus, Todo-Poderoso, eterno, misericordioso, ouve minha prece. Perdoa minhas blasfêmias, perdoa meus desvios. Eu não conhecia o caminho que leva ao reino do justo. Meus irmãos da Terra me fizeram conhecê-lo; meus irmãos Espíritos para ele me conduzem. Que a justiça infinita siga seu curso para a pobre Germaine; agora ela sofrerá sem se lastimar; nem um só murmúrio sairá de sua boca. Reconheço tua grandeza e tua bondade de pai para os teus bem-aventurados servos, que vieram me tirar do caminho do vício. Que minha prece suba a ti; que os anjos que te servem e cercam teu trono possam um dia acolher-me em seu meio, como o fizeram estes Espíritos bons. Hoje o compreendo: só a virtude conduz à felicidade. Fazei graça, ó meu Deus, aos que, como eu, ainda sofrem. Concedei à menina que torturei as doçuras e as virtudes que fazem a felicidade na Terra.”
Germaine “Foi-vos dito: Ajuda-te, e o céu te ajudará; Os Espíritos que vos guiam não farão o trabalho que o dever vos impõe; mas, conforme houverdes trabalhado, eles abreviarão, tanto quanto puderem, a tarefa encetada sob a bandeira da caridade imortal. Agi, pois, sem desfalecimento e sem fraqueza; que vossa fé se fortaleça, e um dia, talvez, vos pergunteis donde vos vem essa força.
Trabalhai pela moralização de vossos irmãos encarnados e a dos Espíritos atrasados; não vos contenteis em pregar as consolações do Espiritismo; mostrai-lhe a grandeza e o poder por vossos atos; é a melhor refutação que podereis opor aos vossos adversários. As palavras voam e os atos fortificam e levantam. Que a felicidade que entrar na família em companhia da jovem doutrina seja devida aos cuidados e à caridade dos sinceros adeptos. Sede confiantes, mas sem orgulho, do que vos acontecer, sem o que os frutos que daí deveis retirar serão perdidos para vós.”
Vossos Guias Observação – Como se vê, os Espíritos não são inativos nem indiferentes em relação aos Espíritos sofredores, que é preciso trazer ao bem.
Mas quando a intervenção dos homens pode ser útil, eles lhes deixam a iniciativa e o mérito, salvo para secundá-los com seus conselhos e seus encorajamentos.
A partir de 25 de setembro, seguindo os conselhos de nossos guias, adormeci a jovem Valentina todos os dias pelo sono magnético, para expurgá-la completamente da ação dos maus fluidos que a tinham envolvido e fortalecer o seu organismo. Desde sua libertação, ela experimentava mal-estar, distúrbios gástricos, pequenos espasmos nervosos, conseqüência inevitável da obsessão.
Observação – Para que teria servido o magnetismo, se a causa tivesse subsistido? Primeiramente, teria sido preciso destruir a causa, antes de atacar os efeitos, ou, pelo menos, agir sobre ambos simultaneamente.
Um tanto mimada pelos cuidados e carícias que lhe tinham prodigalizado, a menina tornara-se caprichosa e voluntariosa, e só com repugnância consentia em ser adormecida.
Um dia até se recusou e fui-me embora. Ao chegar em casa, vieram avisar-me que ela tivera uma crise. “Bem, exclamei, é uma punição de Germaine.” Voltei imediatamente e encontrei a menina agitando-se na cama. Essa crise não era tão violenta quanto as precedentes, mas apresentava as mesmas características. Acalmei-a como nas outras. Algumas horas depois teve uma segunda, que eu mesmo interrompi.
À noite nós nos reunimos. Germaine veio sem ser chamada; disse que tinha querido dar uma lição à menina e adverti-la de que, quando não fosse razoável, far-lhe-ia sentir a sua presença. Além disso, lhe deu conselhos muito bons e fez sentir aos pais os inconvenientes de ceder aos caprichos dos filhos.
À fase da cura e da conversão do Espírito, sucedeu a das revelações tocantes ao drama, do qual a obsessão violenta da jovem Valentine era o desenlace. Por mais interessante e comovedora que seja esta parte do relato, suprimimos alguns detalhes, estranhos, até certo ponto, ao nosso tema, além de tratarem de assuntos contemporâneos, cuja lembrança penosa ainda está presente e tiveram por testemunhas interessadas pessoas ainda vivas. Nós os resumimos para as conclusões que deles devemos tirar. Pelos mesmos motivos, dissimulamos os nomes próprios, que nada acrescentariam à instrução que ressalta desta história.
Dessas revelações feitas na intimidade, fora do grupo, e por meio de um outro médium, resulta que Germaine é a avó do Sr. Laurent, o pai da jovem obsedada Valentine. Ela tinha uma filha, que teve dois filhos, dos quais um é o próprio Sr. Laurent; o outro foi assassinado por sua avó, que o lançou num barranco, em baixo dos rochedos de... Por esse homicídio, foi condenada a dez anos de reclusão, que sofreu na prisão de C... Dá as mais minuciosas indicações sobre todos esses fatos, precisando com exatidão os nomes, lugares e datas, de modo a não deixar qualquer dúvida quanto à sua identidade. Esses detalhes íntimos, só conhecidos pelo Sr. Laurent e sua mulher, foram por eles confirmados. Para melhor deixar-se reconhecer pelo neto, designou-o por seu apelido, ignorado pelo médium e só lhe falou em dialeto, como o fazia em vida.
Não havia, pois, como se enganar: Germaine era mesmo a avó de Laurent, a condenada por infanticídio. Quanto à sua filha, cujo filho foi assassinado, é hoje a filha de Laurent, a jovem Valentine, que vem ainda atormentar por uma cruel obsessão. Ela explicou a causa do ódio que lhe votara. Tinha havido luta entre elas como Espíritos, e essa luta continuou quando uma delas reencarnou. Um fato veio confirmar esta asserção: são as palavras que a mocinha pronunciou durante o sono. Como é compreensível, seus pais a tinham deixado sempre ignorar o que se passara na família. As palavras: A criança! a criança! nos rochedos! nos rochedos! evidentemente resultavam da lembrança que seu Espírito conservava no estado de desprendimento.
“Muito bem! disse eu ao pai de Valentine, estais bem convencido de que é o Espírito de vossa avó? – Oh! senhor, respondeu ele, já me havia convencido disto antes desta conversa.
O nome de Germaine e as palavras de Valentine, durante suas crises, não me deixavam a menor dúvida a respeito; eu o disse logo à minha mulher. Ainda mais, quando me falastes do Espiritismo e das reencarnações, acorreu-me a idéia de que minha mãe estava encarnada em Valentine.”
Assim se explicam as repetidas exclamações de Laurent: “É engraçado!” e as de sua mulher: “Aí há mistério!”