Nova Cura de uma Jovem Obsedada de Marmande
Estendida no leito, vi uma jovem magnífica, robusta para a sua idade, e contida por oito ou dez braços vigorosos, como descrevi acima. Só a cabeça estava livre, agitando-se e açoitando o ar, em todos os sentidos, com sua cabeleira solta. A boca entreaberta deixava ver duas fileiras de dentes brancos e, sobretudo, ameaçadores. O olhar estava completamente perdido, e as duas pupilas, das quais só se viam os bordos, estavam alojadas no ângulo do lado do nariz. Acrescente-se a isto uma espécie de grito selvagem, e imaginai o quadro. Observei um instante a força das sacudidelas e, inclinando-me sobre o rosto da mocinha, pus a mão direita sobre sua fronte e a esquerda sobre o peito; cessaram imediatamente os movimentos e os esforços convulsivos e a cabeça pousou, calma, sobre o travesseiro. Dirigi os dedos da mão direita à boca, que se entreabriu e logo um sorriso se esboçou em seus lábios; as duas grandes pupilas negras retomaram seu lugar no meio do olho; àquela figura satânica sucedeu o mais gracioso semblante. A jovem manifestou seu espanto ao ver tanta gente à sua volta, dizendo que não estava doente; eram sempre suas primeiras palavras depois das crises. Elevei minha alma a Deus e senti sob as pálpebras duas lágrimas de entusiasmo e reconhecimento. Isto acabava de se passar na manhã do dia 17. Como as crises se sucedessem com mais freqüência à tarde, por volta das cinco horas, voltei; os ataques, porém, tinham ocorrido antes da hora habitual e já haviam terminado. Às sete horas retornei à minha casa para jantar. Mal cheguei, vieram avisar-me que a menina estava numa crise terrível. Fui para lá imediatamente. Depois de segurar com uma mão os dois braços dela, perto dos punhos, disse aos homens que a seguravam: Soltai-a. Depois, com a outra mão sobre o seu peito, viram que se acalmava de repente; a seguir, levando a mão ao seu rosto, fiz lhe voltasse o sorriso e seus olhos retomaram o estado normal. Havia-se produzido o mesmo efeito da manhã. Fiquei junto à jovem uma parte da noite; ela não teve crises, mas dormia agitada; sua fisionomia tinha algo de convulsivo; via-se-lhe o branco dos olhos e ela parecia sofrer moralmente. Gesticulava, falava distintamente e exclamava em tom enérgico e comovido: Vai-te! vai-te!... Oh! a vilã!... E a criança... e a criança... nos rochedos... nos rochedos. A essa agitação sucedia uma espécie de êxtase: chorava e retomava com acento plangente: Ah! tu sofres os tormentos do inferno!... e eu, queres fazer-me sofrer sempre!... sempre! sempre!... E estendendo os braços no ar e tentando erguer-se: Pois bem! leva-me, leva-me! A cada instante o pai soltava uma exclamação: Oh! é engraçado! E a mãe acrescentava: Aí há mistério. A partir de uma hora da madrugada, a menina dormiu calmamente até o dia raiar. Essas agitações, essas censuras, esses êxtases, esse choro se repetiam diariamente após os ataques violentos do Espírito e duraram até muito tarde nas noites de 18, 19 e 20 de setembro. Todos os dias eu me dirigia para junto da doente, instalando-me, por assim dizer, em sua casa. Em minha presença nada se manifestava; mas, tão logo eu partia, produzia-se nova crise; então, eu voltava e a acalmava. Isto durou vários dias. Certamente era um fenômeno digno de atenção que tais crises fossem mitigadas de súbito apenas com a imposição das mãos. Havia rumores na cidade e matéria para estudo sério. Entretanto, lamentei não ter visto nenhum dos quatro médicos, que haviam tratado a menina, vir observá-la. Durante todo esse tempo, notei na garota, ora uma alegria um tanto exagerada, ora uma espécie de parvoíce. O pai e a mãe não achavam esses ares naturais, o que justificava a previsão de nossos guias. No dia 21 de setembro, o pai e a mocinha foram comigo à sessão. No começo, nossos guias nos disseram: Chamai Germaine; pedi-lhe que fique junto de vós, e dizei-lhe isto: “Germaine, sois nossa irmã; essa jovem é também nossa e vossa irmã. Se outrora alguma ação funesta vos ligou e fez pesar sobre ambas a justiça divina, podeis comover o juiz supremo. Apelai à sua infinita misericórdia; pedi-lhe vossa graça, como a pedimos por vós; tocai o Senhor por vossa prece fervorosa e vosso arrependimento. É em vão que buscais calma aos vossos remorsos e um refúgio na vingança; é em vão que procurais vossa justificação, acabrunhando-a ao peso de vossa acusação. Voltai, pois, à nossa voz; perdoai e sereis perdoadas, não busqueis enganar-nos; não creias que apenas a aparência da franqueza possa seduzir-nos; sejam quais forem os meios que empregardes, nós os conhecemos e vos oporemos nossa força e nossa vontade. Que vosso coração, enceguecido pelo sofrimento e pelo ódio, se abra à piedade e ao perdão. Não deixaremos de orar ao Eterno e aos Espíritos bons, seus mensageiros fiéis, que derramem sobre vós a consolação e o benefício. O que queremos, Germaine, é vos livrar de vossos sofrimentos. Sempre sereis acolhida por nós como uma irmã; sereis socorrida. Assim, não nos considereis como inimigos, pois queremos a vossa felicidade; não sejais surda às nossas palavras; ouvi nossos conselhos e em pouco conhecereis a paz da consciência. O remorso terá fugido para longe de vós, o arrependimento terá tomado o seu lugar. Os Espíritos bons vos acolherão como a uma ovelha perdida que terão encontrado; os maus imitarão vosso exemplo. Nesta família onde provocais a maldição, só falarão bem de vós; haverá reconhecimento; essa mocinha também orará por vós e, se o ódio vos desune, um dia o amor vos reunirá. “Sempre se é infeliz quando se está sedento de vingança; não mais repouso para o que odeia. O que perdoa está perto de amar; a felicidade e a tranqüilidade substituem o sofrimento e a inquietação. Vinde, Germaine, vinde unir-vos a nós por vossas preces. Queremos que, a exemplo de Jules1 e de outros Espíritos que, como vós, viviam no mal, ficai perto de nós, sob feliz proteção de nossos guias. Estais só; sede a filha adotiva desta família que ora ao Eterno pelos que sofrem e ensina a todos a amá-lo para serem felizes. Se vos obstinardes na crueldade para com esta menina, prolongareis e agravareis os vossos sofrimentos, e ouvireis a maldição da mocinha e dos que a cercam. “Merecei, pois, dos vossos irmãos a amizade que vos oferecem do fundo do coração; cessai essas torturas, donde vos retirais semimorta. Crede em nossa palavra; crede, sobretudo, nos conselhos dos Espíritos bons que nos guiam e, particularmente, nos da Pequena Cárita. Não sereis surda a essa prece. Dai-nos por prova que acolheis a nossa oferta, a paz e o sono tranqüilo à menina durante alguns dias. Vamos orar por vós e não cessaremos de pedir o fim de todos os vossos males.” Chamamos Germaine e lemos o que acabava de ser ditado. P. – Ouvistes bem e compreendestes os votos que acabamos de exprimir? Resp. – Sim. Estou mesmo admirada de todas essas pro-messas; não mereço tanto. Mas sou um Espírito desconfiado e não ouso nelas crer. Veremos se vossas preces me darão a calma de que estou privada há tanto tempo. É verdade, estou só e não conheço senão aquela que procura estraçalhar-me2. Veremos. P. – Não vedes Espíritos bons ao vosso lado? Resp. – Sim; mas nada espero, a não ser de vós. P. – Pois bem! em troca do bem que vos queremos fazer, não poderíeis cessar de fazer o mal, de atormentar?... Resp. – E eu sou a única causa desse mal? Ela contribui tanto quanto eu. Dizeis atormentar? Nós lutamos, nós nos atracamos; a culpabilidade é partilhada. Ela foi minha cúmplice. Não vejo por que faríeis pesar apenas sobre mim a responsabilidade por esses atos violentos, pelos quais também sou vítima. P. – Entretanto, a mocinha não vos vai procurar; e se a atormentais, é porque quereis. Tendes o vosso livre-arbítrio. Resp. – Quem vos disse? Estais equivocados. Uma fatalidade nos liga. P. – Muito bem! contai-nos tudo. Resp. – Não posso. Aqui não se goza de inteira liberdade... Sou franca. P. – Vamos, Germaine! Vamos orar por vós. Até outra vez! Terminando, nossos guias nos disseram: “Durante estes dias, reuni-vos tão numerosos quanto possível. Ocupai-vos mais particularmente dela. Vossa franqueza e vosso zelo a seu respeito a tocarão, e os resultados que buscamos, assim o esperamos, serão rápidos, graças a esta medida. O dia 22 passou sem crise. Reunimo-nos à noite, como de costume. Evocação de Germaine – P. – Muito bem, Germaine! Acreditais em nossa afeição por vós? Resp. – Tenho direito de duvidar; dificilmente o pária acredita no ósculo fraterno, que lhe dão de passagem. Estou habituada a ver o desdém e o desprezo me perseguindo. P. – Deus quer que nos amemos uns aos outros. Resp. – Não conheço isto. Aqui, aquele a quem o remorso persegue ou oprime é um inimigo, uma serpente da qual se foge atirando-lhe pedra. Credes que isto não seja revoltante para o maldito? Ele se torna, por instinto, inimigo de todos; a paixão e o ódio o cegam. Infeliz do que cai nas garras desse abutre. P. – Nós, Germaine, vos queremos amar e vos estendemos a mão. Resp. – Por que não me falaram assim mais cedo? Há, no entanto, corações generosos no mundo que habito. Então eu lhes causava medo? Por que jamais me disseram: És nossa irmã e podes partilhar a nossa sorte? Ainda tenho o veneno na alma, sobretudo quando penso no passado. O crime merece uma pena, mas a punição foi muito grande: parecia que tudo caía sobre mim, para me esmagar. Nesses momentos desconhece-se Deus, a gente o blasfema, nega-o, revolta-se contra ele e os seus, quando se está abandonado.
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Mês Janeiro
Ano 1865