Terceira Conversação
Os espíritos superiores, aqueles que têm por missão o progresso da humanidade, se colocam contra todos os abusos que podem retardar esse progresso, de qualquer natureza que eles sejam; e quaisquer que sejam os indivíduos ou as classes da sociedade que deles tirem proveito. Ora, o senhor não pode negar que a religião não tenha sempre tido exemplos disso; se, entre seus ministros, há os que cumprem sua missão com devotamento totalmente cristão, que a fazem grande, bela e respeitável, o senhor há de convir que nem todos têm compreendido sempre a santidade do seu ministério. Os espíritos se opõem ao mal por toda a parte onde ele se encontre; assinalar os abusos da religião é atacá-la? Ela não tem maiores inimigos do que aqueles que os defendem, porque são esses abusos que fazem nascer a idéia de que qualquer coisa de melhor pode substituí-la. Se a religião corresse um perigo qualquer, isso seria devido àqueles que dão uma falsa idéia sobre ela, transformando-a em uma arena das paixões humanas, e que a exploram em proveito de sua ambição. O padre: — O senhor disse que o Espiritismo não discute os dogmas, contudo ele admite certos pontos combatidos pela Igreja, como, por exemplo, a reencarnação e a presença do homem sobre a Terra antes de Adão; e nega a eternidade das penas, a existência dos demônios, o purgatório e o fogo do inferno. A. K.: — Esses pontos são discutidos há muito tempo, e não foi o Espiritismo quem os colocou em questão; são opiniões das quais algumas são contestadas mesmo pela teologia e que o futuro julgará. Um grande princípio domina a todos: a prática do bem, que é a lei superior, a condição sine qua non(56) do nosso futuro, assim nos prova o estado dos espíritos que se comunicam conosco. Enquanto espera que a luz se faça sobre essas questões, acredite, se quiser, nas chamas e nas torturas materiais, se isso pode impedi-lo de fazer o mal: sua crença não as torna mais reais, se elas não existem. Creia que não temos mais que uma existência corporal, se lhe agrada: isso não o impedirá de renascer aqui ou em outra parte, se tiver de acontecer, e apesar do senhor. Creia que o mundo foi criado, por completo, em seis vezes vinte e quatro horas, se é a sua opinião: isso não impedirá que a Terra apresente nas suas camadas geológicas a prova do contrário. Creia, se quiser, que Josué parou o Sol: isso não impedirá que a Terra continue agirar. Creia que o homem está sobre a Terra há apenas 6.000 anos: isso não impedirá que os fatos demonstrem a impossibilidade dessa afirmativa. E o que o senhor dirá se, um belo dia, essa inexorável geologia vier a demonstrar, por traços evidentes, a anterioridade do homem, como já o fez com tantas outras coisas? Creia, então, em tudo que o senhor quiser, mesmo no diabo, se essa crença pode fazê-lo bom, humano e caridoso para os seus semelhantes. O Espiritismo, como doutrina moral, só impõe uma coisa: a necessidade de fazer o bem e nunca fazer o mal. É uma ciência de observação que, eu o repito, tem conseqüências morais, e essas conseqüências são a confirmação e a prova dos grandes princípios da religião; quanto às questões secundárias ele as deixa para a consciência de cada um. Observe bem, reverendo, que alguns dos pontos divergentes que o senhor acaba de citar, o Espiritismo, em princípio, não os contesta. Se o senhor houvesse lido tudo quanto escrevi sobre o assunto, teria visto que o Espiritismo se limita a lhes dar uma interpretação mais lógica e mais racional que aquela que comumente lhes é dada. É assim, por exemplo, que ele não nega o purgatório, ao contrário, demonstra sua necessidade e sua justiça; porém, ele faz mais, ele o define. O inferno foi descrito como uma imensa fornalha; mas é assim que o entende a alta teologia? Evidentemente não; ela diz muito bem que é uma figura, que o fogo no qual se queimam as almas é um fogo moral, símbolo das maiores dores. Quanto à eternidade das penas, se fosse possível fazer-se uma votação, para conhecer a opinião íntima de todos os homens em estado de raciocinar ou de compreender, mesmo entre os mais religiosos, poder-se-ia ver de que lado está a maioria, porque a idéia de uma eternidade de suplícios é a negação da misericórdia infinita de Deus. Não obstante, eis aqui o que diz a Doutrina Espírita a es se respeito: A duração do castigo está subordinada à melhoria do espírito culpado. Nenhuma condenação por um tempo deter minado é pronunciada contra ele. O que Deus exige para pôr fim aos sofrimentos é o arrependimento, a expiação e a reparação, em uma palavra, uma melhoria séria, efetiva, e um retorno sincero ao bem. O espírito é assim o árbitro da sua própria sorte; ele pode prolongar seus sofrimentos pela obstinação no mal, suavizá-los ou abreviá-los por seus esforços em praticar o bem. Estando a duração do castigo subordinada ao arrependimento, daí resulta que o espírito culpado que não se arrependesse e nunca melhorasse, sofreria sempre e, para ele, a pena seria eterna. A eternidade das penas deve, portanto, ser entendida no sentido relativo e não no sentido absoluto. Uma condição inerente à inferioridade dos espíritos é a de não verem o fim da situação em que crêem que sofrerão para sempre, para eles isso é um castigo. Porém, desde que sua alma se abre ao arrependimento, Deus lhes faz entrever um raio de esperança. Essa doutrina está, evidentemente, mais de acordo com a justiça de Deus que pune enquanto se persiste no mal, que perdoa quando se entra no bom caminho. Quem a imaginou? Fomos nós? Não, foram os espíritos que a ensinam e a provam pelos exemplos que diariamente põem aos nossos olhos. Os espíritos, portanto, não negam as penas futuras pois eles descrevem os seus próprios sofrimentos, e essa descrição nos toca mais profundamente que a das chamas perpétuas, porque então tudo é perfeitamente lógico. Compreende-se que aquilo é possível, que deve ser assim, que essa situação é uma conseqüência natural dos fatos; ela pode ser aceita pelo pensador filósofo, porque ali nada pode contrariar a sua razão. Eis por que as crenças espíritas têm conduzido para o bem uma multidão de pessoas, mesmo materialistas, a quem o medo do inferno, confor-me era descrito, não havia podido deter. O padre: — Admitindo o seu raciocínio, não lhe parece que faltam, ao homem comum, imagens mais impressionantes em lugar de uma filosofia que ele não pode compreender? A.K.: — Isso é um erro que tem criado vários materialistas ou, pelo menos, desviado alguns homens da religião. Surge um momento em que essas imagens não impressionam mais e, então, as pessoas que não se aprofundam no fato, rejeitando uma parte dele, rejeitam o todo, dizendo para si mesmas: “Se me ensinaram como uma verdade incontestável uma afirmativa que é falsa, se me deram uma imagem, uma figura, em lugar da realidade, quem me garante que o resto é mais verdadeiro?” Se, ao contrário, a razão cresce e não repele nada, a fé se fortalece. A religião sempre ganhará ao seguir o progresso das idéias, se algum dia ela correr algum perigo será porque os homens teriam avançado enquanto ela teria ficado parada. Acreditar que atualmente pode-se conduzir os homens pelo medo do demônio e das torturas eternas é enganar-se quanto à época em que vivemos. O padre: — Realmente, a Igreja hoje reconhece que o inferno material é uma imagem, mas isso não exclui a existência dos demônios, sem eles, como explicar a influência do mal que não pode vir de Deus? A.K.: — O Espiritismo não admite os demônios no sentido vulgar da palavra, mas admite os maus espíritos que não são melhores que eles e que, do mesmo modo, fazem o mal, suscitando maus pensamentos; ele apenas afirma que os demônios não são seres à parte, criados para o mal e perpetuamente voltados para ele, uma espécie de párias da criação e carrascos do gênero humano; são seres atrasados, ainda imperfeitos, mas aos quais Deus reserva o futuro. Nisso o Espiritismo está de acordo com a Igreja Católica Grega, que admite a conversão de Satã, alusão à melhoria dos maus espíritos. Observe ainda que a palavra demônio só implica a idéia de mau espírito pela acepção moderna que lhe é dada, visto que a palavra grega daimôn significa gênio, inteligência. Ora, admitir a comunicação dos maus espíritos é, em princípio, reconhecer a realidade das manifestações. É preciso saber se eles são os únicos que se comunicam, como o afirma a Igreja, para dar motivo a que ela proibisse as comunicações com os espíritos. Aqui nós invocamos o raciocínio e os fatos. Se os espíritos, quaisquer que sejam, se comunicam, isto só acontece com a permissão de Deus: será que ele só permitiu que os maus se comuniquem? Como? Deixando a esses espíritos toda a liberdade de vir enganar os homens, enquanto impedia que os bons viessem contrabalançar, neutralizar suas perniciosas doutri-nas? Acreditar nessa possibilidade, não seria contestar o seu poder e a sua bondade e fazer de Satã um rival da Divindade? A Bíblia, o Evangelho, os doutores da Igreja reconhecem perfeitamente a possibilidade de comunicação com o mundo invisível, e desse mundo os bons não foram excluídos, então, por que o seriam hoje em dia? Aliás, ao admitir a autenticidade de certas aparições e comunicações de santos, a Igreja exclui a idéia de que só pode haver contato com os maus espíritos. Certamente, quando as comunicações só contêm coisas boas, quando nelas só se prega a mais pura e a mais sublime moral evangélica, a abnegação, o desinteresse e o amor ao próximo; quando nelas se combate o mal, sob qualquer forma em que ele se disfarce, será racional acreditar que o espírito maligno proceda desse modo? O padre: — O Evangelho nos ensina que o anjo das trevas, ou Satã, se transforma em anjo de luz para seduzir os homens.
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Título O Padre
Capítulo I
Título do Capítulo Pequena Conferência Espírita
Tradutor Albertina Escudeiro Sêco
Editora CELD
Edição 1ª edição, 2008
ISBN 978-85-7297-421-9