Os Irmãos Davenport em Bruxelas
“Vi todos os exercícios dos irmãos Davenport e de modo algum procurei compreender o seu mistério. Tudo quanto posso dizer, sem pensar o mínimo em lhes diminuir o sucesso, é que não me é possível sentir o menor prazer nestas coisas. Elas não me interessam. Em minha presença amarraram os irmãos Davenport; dizem que os amarraram muito bem; depois puseram farinha em suas mãos e os trancaram no armário, baixaram a luz do gás e ouvi um grande ruído de violões, de campainhas e de pandeiros no armário. De repente o armário abriu-se: um pandeiro rolou até os meus pés, brusca e violentamente, e os irmãos Davenport apareceram, desamarrados, saudando o público e sacudindo a farinha que haviam posto em suas mãos. Aplaudiram muito. Aí está! – Enfim, como explicais isto? – Há pessoas no Círculo que o explicam muito bem. Quanto a mim, por mais que deite os bofes pela boca, absolutamente não sinto vontade de o explicar. Eles se desamarraram, eis tudo; e a mágica da farinha foi feita com habilidade. Acho os preparativos demorados, o ruído enfadonho e tudo pouco divertido. E nada de espírito, nem no singular, nem no plural. – Assim, não acreditais? – Não; creio no aborrecimento que senti. – E o Espiritismo? não acreditais nele? – Isto é pergunta de Sganarello a Don Juan. Logo ireis perguntar se creio no espírito mau. Responderei como Don Juan, que acredito que dois e dois são quatro e que quatro e quatro são oito. Ainda não sei se, vendo o que se passa na Alemanha e alhures, não seria forçado a fazer reservas. – Então sois ateu? – Não. Sem modéstia, sou o homem mais religioso da Terra. – Assim, acreditais em Deus, na imortalidade da alma, na... – Creio. É a minha felicidade e a minha esperança. – E tudo isto se concilia convosco: quatro e quatro são oito! – Precisamente. Tudo está aí. O turco é uma bela língua. – Então ides à missa? – Não. Mas não vos impeço de ir lá. O pássaro no galho, o verme brilhando na erva, os globos no espaço e meu coração cheio de adoração me cantam a missa noite e dia. Amo a Deus apaixonadamente e sem temor. Que quereis que, com isso, eu faça das religiões e de outras variedades do davenportismo?17 – E o Espiritismo? e Allan Kardec? – Creio que o Sr. Allan Kardec, que faria muito melhor se usasse o seu nome verdadeiro, é tão bom cidadão quanto vós e eu. Sua moral não difere da moral comum, que me basta. Quanto às suas revelações, gosto tanto quanto do armário dos Davenport, com ou sem violões. Li as revelações dos Espíritos; seu estilo não vale o de Bossuet e, salvo citações feitas das obras dos homens ilustres, é pesado e por vezes banal. Eu não gostaria de escrever como o mais forte do grupo: meu diretor me diria que o macarrão é bom, mas que dele não se deve abusar. O Espiritismo tem sobrenatural e dogmas e eu desconfio desse bloco enfarinhado. Já havia dito isto há cinco anos, falando da doutrina, pois se trata de uma doutrina: aí há de tudo para improvisar uma religião nova. Seria melhor ser simplesmente religioso e ater-se às revelações do Universo. “Vejo esta religião despontando. Já é uma seita, e considerável; não podeis imaginar o número e a seriedade das cartas que já recebi, por ter abordado o Espiritismo ultimamente. Ele tem os seus fanáticos, terá os seus intolerantes, seus sacerdotes, porque o dogma se presta à ação intermediária, uma vez que os Espíritos têm classes e preferências. Assim que esse novo dogma conquistar dez por cento dos crentes, veremos o seu clero. Eu o creio destinado a herdar do catolicismo, tendo em vista os seus aspectos sedutores. Esperai apenas que os espertos aí se misturem, e os profetas e os evocadores privilegiados surgirão através do mistério da coisa, que é suave e poética, como as ervas daninhas num campo de trigo. Eis duas cartas que foram dirigidas. Vêm de pessoas leais, ingênuas e convictas; é por isto que as publico. “Ao Sr. Bertram. “Há quatro anos eu era o que se pode chamar um franco-retardatário. Católico sincero, acreditava nos milagres, no diabo, na infalibilidade papal. Assim, eu teria aceito sem discutir a Encíclica de Pio IX18, com todas as suas conseqüências na ordem política. “Mas, perguntareis, para que serve esta confissão de um desconhecido? Palavra de honra, Sr. Bertram, vou informar-vos, mesmo sob o risco de excitar a vossa verve trocista ou de vos fazer fugir até o fim do mundo. “Um dia vi, em Antuérpia, uma mesinha, vulgarmente chamada mesa falante, que me respondeu a uma pergunta mental em meu idioma natal, desconhecido dos assistentes; entre estes havia espíritos fortes, maçons que não acreditavam em Deus, nem na alma. A coisa lhes deu a refletir, leram com avidez as obras espíritas de Allan Kardec; fiz como eles, sobretudo quando vários sacerdotes me asseguraram que tais fenômenos eram obra exclusiva do... demônio. Não lamentei o tempo que isto me custou; muito ao contrário. Nesses livros não só achei a solução racional e muito natural do fenômeno acima, mas uma saída para muitas questões, para muitos problemas que eu me questionava de longa data. Aí encontrastes matéria para uma religião nova; mas, Sr. Bertrand, acreditais que haveria grande mal nisto, se fosse o caso? O catolicismo corresponde de tal modo às necessidades de nossa sociedade que não possa ser revigorado, nem substituído vantajosamente? Ou acreditais que a Humanidade possa dispensar toda crença religiosa? O liberalismo proclama belos princípios, mas é, em grande parte, céptico e materialista. Nessas condições jamais ligaria as massas a si, tampouco o catolicismo ultramontano. Se o Espiritismo um dia for chamado a tornar-se uma religião, será a religião natural, bem desenvolvida e bem compreendida, e esta, certamente, não é nova. É, como dizeis, uma velha novidade; mas é, também, um terreno neutro, onde todas as opiniões, tanto políticas quanto religiosas, um dia poderão dar-se as mãos. “Seja como for, desde que me tornei espírita, algumas más línguas me acusam de me haver tornado livre-pensador. É verdade que a partir de então, assim como os espíritos fortes, de que falava acima, não creio mais no sobrenatural, nem no diabo; mas, em compensação, acreditamos um pouco mais em Deus, na imortalidade da alma, na pluralidade das existências; filhos do século dezenove, percebemos uma estrada segura e por ela queremos impulsionar o carro do progresso, em vez de o retardar. Vedes, pois, que o Espiritismo tem ainda seu lado bom, já que pode operar tais mudanças. E agora, para voltar aos irmãos Davenport, seria erro fugir às experiências, ou concluir de modo preconceituoso contra elas, em virtude de serem novas. Quanto mais extraordinários os fatos, mais merecem ser observados conscienciosamente, e sem idéias preconcebidas, porquanto, quem poderia vangloriar-se de conhecer todos os segredos da Natureza? Nunca vi os irmãos Davenport, mas li o que a imprensa francesa escreveu sobre eles e fiquei admirado da má-fé posta no caso. Os amadores poderão ler com proveito o livro Forças naturais desconhecidas, de Hermès (Paris, Didier, 1865); é uma refutação do ponto de vista da Ciência, das críticas dirigidas contra eles. Se é verdade que aqueles senhores não se apresentam como espíritas, nem conhecem a doutrina, não há por que o Espiritismo lhes tomar a defesa. Tudo o que se pode dizer é que fatos semelhantes aos por eles produzidos são possíveis em virtude de uma lei natural hoje conhecida e pela intervenção de Espíritos inferiores. Apenas até aqui estes fatos ainda não se tinham produzido em condições tão pouco favoráveis, em horas fixas e com tanta regularidade. “Espero, senhor, que acolhais estas observações desinteressadas e lhes deis hospitalidade em vosso jornal. Possam elas contribuir para elucidar uma questão mais interessante para os vossos leitores do que poderíeis supor. “Vosso Assinante, H. Vanderyst ” “Ei-la publicada! não me acusarão de pôr “a luz sob o alqueire.” “Antes de mais, não tenho alqueire; depois, sem qualquer gracejo, não vejo aqui muita luz. Jamais fiz objeção à moral do Espiritismo; ela é pura. Os espíritas são honestos e caridosos: seus donativos para as creches mo provaram. Se se apegam aos seus Espíritos superiores e inferiores, nisso não vejo inconveniente. É uma questão entre o seu instinto e a sua razão. “Há um pós-escrito na carta. Ei-lo: “Permiti chame a vossa atenção para a obra que acaba de ter a honra do Índex: Pluralidade das Existências da Alma, de Pezzani, advogado, onde essa questão é tratada fora da revelação espírita.” “Passemos à outra carta: (Segue-se uma segunda carta no mesmo sentido que a precedente, e que termina assim): “Estou convicto de que, no dia em que a imprensa se dispuser a desenvolver tudo quanto o Espiritismo encerra de belo, o mundo fará progressos imensos, moralmente. Tornar claro ao homem que cada um traz em si a verdadeira religião, a consciência, deixá-lo em presença de si mesmo para responder por seus atos diante do Ser Supremo, que coisa importante! Não seria matar o materialismo, que faz tanto mal no mundo? Não seria uma barreira contra o orgulho, a ambição, a inveja, coisas que tornam infelizes os homens? Ensinar ao homem que deve fazer o bem para merecer sua recompensa? Certamente há homens que estão convencidos de tudo isto, mas quantos em relação à generalidade? E tudo isto se pode ensinar ao homem. De minha parte, evoquei meu pai e, conforme as resposta que obtive, a dúvida não é mais possível.
TAG Valor
Mês Setembro
Ano 1866