Os Irmãos Davenport em Bruxelas
“Se eu tivesse a felicidade de manejar a pena como vós, trataria o Espiritismo como chamado a nos inculcar uma moral suave e agradável. Meu primeiro artigo teria por título: O Espiritismo, ou a destruição de todo fanatismo. A queda dos jesuítas e de todos os que vivem da credulidade humana. Colhem-se todas essas idéias no excelente livro de Allan Kardec. Como eu gostaria que tivésseis minha maneira de encarar o Espiritismo! Como faríeis bem à moral! Mas, meu caro Bertram, como pudestes encontrar sobrenatural e feitiçaria no Espiritismo? Não acho mais extraordinário em nos comunicarmos com nossos parentes e amigos passados ao outro mundo, por meio do fluido que nos põe em contato com eles, do que nos comunicarmos com os irmãos deste globo a distâncias fabulosas por meio do fio elétrico!” Tudo publicado sem observação e sem comentário, para provar apenas que o Espiritismo tem, na Bélgica, partidários ardentes em sua fé. Positivamente a seita faz progressos, e logo o catolicismo terá de contar com ela. “A imprensa parisiense não agiu de má-fé com os irmãos Davenport; o que ela faz ver bem é que estes não mais exibem pretensões ao sobrenatural. Ao menos que eu saiba, já não dão exibições a cinqüenta francos por cabeça. Entretanto, creio que as pessoas que quisessem pagar seu lugar por esse preço não seriam mal recebidas. Para concluir, afirmo que seus exercícios não me parecem feitos para exercer grande influência sobre o futuro das sociedades humanas.” Bertram Depois das duas cartas que se acaba de ler, não teremos muita coisa a dizer sobre o artigo. Sua moderação contrasta com a acrimônia da maioria dos que outrora foram escritos sobre o mesmo assunto. Ao menos o autor não contesta aos espíritas o direito de ter uma opinião, que ele respeita, embora não a compartilhe. Ao contrário de certos apóstolos do progresso, reconhece que a liberdade de consciência é para todos; já é alguma coisa. Concorda mesmo que os espíritas têm coisas boas e são de boa-fé. Enfim, constata os progressos da doutrina e confessa que ela tem um lado sedutor. Assim, faremos apenas ligeiras observações. O Sr. Bertram nos considera tão bom cidadão quanto ele, e nós lhe agradecemos. Mas acrescenta que faríamos muito bem em usar o nosso nome verdadeiro. Por nosso lado permitimo-nos perguntar-lhe por que assina seus artigos como Bertram, em vez de Eugène Landois, o que nada tira de suas qualidades pessoais, pois sabemos que ele é o principal organizador da creche de Saint-Josse- Tennoode, da qual se ocupa com louvável solicitude. Se o Sr. Bertram tivesse lido os livros espíritas com tanta atenção quanto o diz, saberia se os espíritas são tão simplórios para evocar o Judeu-Errante e Dom Quixote; saberia o que o Espiritismo aceita e o que condena; não afetaria apresentá-lo como uma religião, porque, da mesma maneira, todas as filosofias seriam religiões, desde que é de sua essência discutir as bases mesmas de todas as religiões: Deus e a natureza da alma. Compreenderia, finalmente, que se algum dia o Espiritismo se tornasse uma religião, não poderia tornar-se intolerante sem renegar seu princípio, que é a fraternidade universal, sem distinção de seita e de crença; sem abjurar sua divisa: Fora da caridade não há salvação, o símbolo mais explícito do amor ao próximo, da tolerância e da liberdade de consciência. Ele jamais disse: “Fora do Espiritismo não há salvação.” Se uma religião se apoiasse no Espiritismo com exclusão desses princípios, não seria mais Espiritismo. O Espiritismo é uma doutrina filosófica que toca em todas as questões humanitárias. Pelas profundas modificações que traz às idéias, faz encarar as coisas de outro ponto de vista. Daí, para o futuro, inevitáveis modificações nas relações sociais; é uma mina fecunda onde as religiões, como as ciências, como as instituições civis, colherão elementos de progresso. Mas, porque toca em certas crenças religiosas, não constitui um culto novo, como não é um sistema particular de política, de legislação ou de economia social. Seus templos, suas cerimônias e seus sacerdotes estão na imaginação de seus detratores e dos que temem vê-lo tornar-se religião. O Sr. Bertram critica o estilo dos Espíritos e coloca o seu muito acima; é direito seu e não lho disputaremos. Também não lhe contestamos que a moral dos Espíritos nada de novo nos ensina. Isto prova uma coisa: os homens são apenas mais culpados por praticá-la tão pouco. É, pois, de admirar que Deus, em sua solicitude, lhas repita sob todas as formas? Se, a tal respeito, o ensino dos Espíritos é inútil, o do Cristo o era igualmente, pois que ele não fez senão desenvolver os mandamentos do Sinai; os escritos de todos os moralistas também são inúteis, pois apenas repetem a mesma coisa em outros termos. Com tal sistema, quanta gente cujos trabalhos seriam inúteis, sem aí incluir os cronistas que, por sua condição, nada devem inventar. Não resta dúvida de que a moral dos Espíritos é tão velha quanto o mundo, o que nada tem de surpreendente, porquanto, não sendo a moral senão a lei de Deus, esta lei deve ser de toda eternidade e a criatura nada pode acrescentar à obra do Criador. Mas não há nada de novo no modo de ensinar? Até agora o código de moral só tinha sido promulgado por algumas individualidades; foi reproduzido em livros que nem todo mundo lê ou compreende. Pois bem! hoje esse mesmo código é ensinado, não mais por alguns homens, mas por milhões de Espíritos, que foram homens, em todos os países, em cada família e, a bem dizer, a cada indivíduo. Credes que aquele que tiver sido indiferente à leitura de um livro, que tiver tratado as máximas que ele encerra como lugares-comuns, não ficará diversamente impressionado se seu pai, sua mãe ou um ser que lhe é caro e que respeita, lhe vem dizer, mesmo num estilo inferior ao de Bossuet: “Não estou perdido para ti, como pensavas; estou ao teu lado, vejo-te e te escuto; conheço-te melhor do que quando estava vivo, porque leio o teu pensamento. Para ser feliz no mundo onde estou, eis a regra de conduta a seguir; tal ação é boa e tal outra é má, etc.” Como vedes, é um ensino direto ou, se preferirdes, um novo meio de publicidade, tanto mais eficaz quanto vai direto ao coração; que nada custa; que se dirige a todos, ao pequeno como ao grande, ao pobre como ao rico, ao ignorante como ao sábio, e desafia o despotismo humano que lhe queria opor uma barreira. Mas, direis, isto é possível? Não será uma ilusão? Essa dúvida seria natural se tais comunicações só fossem feitas a um único homem privilegiado, pois nada provaria que não se engane; mas, quando milhares de indivíduos as recebem semelhantes, diariamente e em todos os países do mundo, é racional pensar que todos sejam alucinados? Se o ensino do Espiritismo fosse relegado nas obras espíritas, não teria conquistado a centésima parte dos adeptos que possui. Esses livros apenas resumem e coordenam esse ensino; mas o que constitui o seu sucesso é que cada um encontra em seu íntimo a confirmação do que eles encerram. Só haverá motivo para dizer-se que o ensino moral dos Espíritos é supérfluo quando se tiver provado que os homens são bastante bons para os dispensar. Até lá não é de admirar vê-los repetidos sob todas as formas e em todos os tons. Direis, Sr. Bertram: – Que me importa que haja ou não Espíritos! É possível que isto vos seja indiferente, mas não é assim com todos. É absolutamente como se dissésseis: “Que me importa que haja habitantes na América, e que o cabo elétrico venha prová-lo!” Cientificamente é algo que prova o mundo invisível; moralmente, é muito. O fato de os Espíritos povoarem o espaço, que se julgava desabitado, é a descoberta de todo um mundo, a revelação do futuro e do destino do homem, uma revolução nas crenças. Ora, se a coisa existe, nenhuma negação poderá impedi-la de existir. Seus resultados inevitáveis bem merecem que com ela a gente se preocupe. Sois homem de progresso e repelis um elemento do progresso? um meio de melhorar a Humanidade, de consolidar a fraternidade entre os homens? uma descoberta que conduz à reforma dos abusos sociais, contra os quais clamais incessantemente? Credes em vossa alma imortal e não vos preocupais absolutamente em saber em que ela se tornará, em que se tornaram vossos parentes e amigos? Francamente, isto é pouco racional. Direis que não é no armário dos irmãos Davenport que o encontrareis; de acordo. Jamais dissemos que aquilo fosse Espiritismo. Todavia, esse mesmo armário, precisamente por que, certo ou errado, aí fizeram intervirem os Espíritos, fez falar muito dos Espíritos, mesmo aos que neles não acreditavam. Daí as pesquisas, os estudos, que não teriam sido feitos se esses senhores se tivessem apresentado como meros prestidigitadores. Se os Espíritos não estavam em seu armário, bem podiam provocar esse meio de fazer uma porção de gente sair de sua indiferença. Vedes que vós mesmo, sem que vos désseis conta, fostes levado a semear a idéia entre os vossos numerosos leitores, o que não teríeis feito sem esse famoso armário. Quanto às verdades novas que ressaltam das revelações espíritas, fora da moral, recomendamos o artigo publicado na Revista de janeiro de 1865, sob o título de O que ensina o Espiritismo.
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Mês Setembro
Ano 1866