Os irmãos Davenport acabam de passar algum tempo na Bélgica, onde deram pacificamente suas representações. Temos numerosos correspondentes nesse país, mas não nos consta, nem por informação destes, nem pelos jornais, que tais senhores ali tenham sido alvo das cenas lamentáveis que ocorreram em Paris.
Será que os belgas dariam lições de urbanidade aos parisienses?
Poder-se-ia crê-lo, comparando as duas situações. O que é evidente é que em Paris havia uma opinião formada, uma cabala organizada contra eles; e a prova disso é que os atacaram antes de saber o que iam fazer, antes mesmo que tivessem começado. Vaiar os que fracassam, os que não cumprem o que anunciam, é um direito comprado em toda parte, quando se paga a entrada. Mas, escarnecê-los, insultá-los, maltratá-los, quebrar seus instrumentos, antes mesmo que entrem em cena, é o que não se permitiria o último saltimbanco da feira. Seja qual for a maneira por que se considere esses senhores, tais procedimentos não têm desculpa num povo civilizado.
De que os acusavam? De se fazerem passar por médiuns? De pretenderem operar com a ajuda dos Espíritos? Se, da parte deles, era um meio fraudulento para excitar a curiosidade do público, quem tinha o direito de se queixar? – Os espíritas, que podiam achar ruim a exibição de uma coisa lamentável. Ora, quem se queixou? Quem denunciou o escândalo, a impostura e a profanação? Precisamente os que não crêem nos Espíritos.
Todavia, entre os que mais alto gritam que eles não existem, que fora do homem nada há, alguns acabam, graças às manifestações, se não por crer, ao menos por temer que haja alguma coisa. O medo de que os irmãos Davenport viessem prová-lo muito claramente desencadeou contra eles verdadeira cólera; se tivessem certeza de que eles não passavam de hábeis prestidigitadores, não haveria razão para temerem o primeiro escamoteador que surgisse.
Sim, estamos convictos de que o medo de os ver triunfar foi a causa principal dessa hostilidade, que precedeu o seu aparecimento em público e preparou os meios de fazer abortar o seu primeiro espetáculo.
Mas os irmãos Davenport não passavam de um pretexto; não era à sua pessoa que visavam, mas ao Espiritismo, ao qual pensavam que eles pudessem dar uma sanção, e que, para grande pesar de seus antagonistas, frustra os efeitos da malevolência, pela prudente reserva de que jamais se afastou, apesar de tudo quanto fizeram para dela fazê-lo sair. Para muitas pessoas, é um verdadeiro pesadelo. Era preciso conhecê-lo muito pouco para crer que aqueles senhores, colocando-se em condições que ele desaprova, lhe pudessem servir de auxiliares. Contudo, serviram à sua causa, mas dele fazendo falar na ocasião e, sem o querer, a crítica lhe deu a mão, provocando o exame da doutrina. É de notar que todo o arruído feito em torno do Espiritismo é obra desses mesmos que o queriam abafar. O que quer que tenham feito contra ele, este jamais gritou; os adversários é que gritaram, como se já se julgassem mortos.
Extraímos do Office de publicité, jornal de Bruxelas, que dizem ter uma tiragem de 25.000 exemplares, as passagens seguintes de dois artigos publicados nos números de 8 e 22 de julho último, sobre os irmãos Davenport, bem como duas cartas de refutação, lealmente inseridas no mesmo jornal. Apesar de um tanto gasto, o assunto não deixa de ter seu lado instrutivo.
CRÔNICA BRUXELENSE “É bem certo que tudo acontece e que não se deve dizer: ‘Desta água não beberei.’ Se me tivessem dito que algum dia eu veria o armário dos irmãos Davenport ou esses ilustres feiticeiros, eu teria sido capaz de jurar que isto jamais aconteceria, pois basta que me digam que alguém é feiticeiro para me tirar toda curiosidade a seu respeito. O sobrenatural e a feitiçaria não têm inimigo mais obstinado do que eu. Eu não iria ver um milagre quando o mostrassem de graça: essas coisas me inspiram a mesma aversão que os bezerros de duas cabeças, as mulheres de barba e todos os monstros; acho idiotas os Espíritos batedores e as mesas inteligentes, e não há superstição que me faça fugir para o fim do mundo. Julgai se, com tais disposições, eu teria ido engrossar a multidão no caso dos irmãos Davenport, quando os diziam em comércio regular com os Espíritos! Também confesso que não me teria vindo a idéia de desmascarar a trapaça, de quebrar o seu armário e provar que realmente eles não eram feiticeiros, pois me parece que, assim, eu teria dado a prova de que eu mesmo tinha acreditado em suas pompas e em seus prodígios. Ter-me-ia parecido infinitamente mais simples afastar, logo de início, essa suposta feitiçaria e supor que, tendo enganado a tanta gente, deveriam ser criaturas muito hábeis em seus exercícios. Quanto a compreender, eu não me teria dado a esse trabalho. Para quê, desde que os Espíritos aí não tomam parte? E se tivesse havido muitos pobres Espíritos no outro mundo para neste virem fazer o papel de comparsas, para quê, ainda?
“Li com muita atenção, embora tivesse em que empregar melhor o meu tempo, a maior parte dos livros usados pelos espíritas e aí encontrei tudo quanto era necessário para satisfazer a necessidade de uma religião nova, mas não com que me converter a essa velha novidade. Consultados todos os Espíritos, cujas respostas são citadas, nada disseram que não tivesse sido dito antes deles e em melhores termos do que as repetiram. Ensinaram-nos que é preciso amar o bem e detestar o mal, que a verdade é o contrário da mentira, que a alma é imortal, que o homem deve tender incessantemente a tornar-se melhor e que a vida é uma provação, coisas todas já sabidas há milhares de anos, e para a revelação das quais era inútil evocar tantos mortos ilustres e até personagens que, por mais célebres que sejam, jamais existiram.
Não falo mesmo do Judeu-Errante; mas, imaginai que eu vá evocar Dom Quixote e que ele volte; isto não seria divertido ao máximo?
“Eu não tinha mais que uma objeção a respeito dos irmãos Davenport, já que não passavam de hábeis prestidigitadores.
Esta objeção se resume nisto: afastado com muito gosto todo o Espiritismo, e de comum acordo, seus exercícios bem podiam não passar de um divertimento medíocre. É provável que não me tivesse vindo a idéia de ir vê-los se, feita a oferta graciosa de ir até lá, eu não tivesse considerado que a crônica obriga, que nem tudo são rosas na vida e que o cronista deve ir aonde vai o público e aborrecer-se um pouco, com direito à desforra. Resolvido a fazer as coisas em consciência, inicialmente fui de dia à sala do Círculo Artístico e Literário, onde se ocupavam na montagem do famoso armário. Vi-o ainda incompleto, à luz do dia, e despojado de toda a sua “poesia”. Se as ruínas precisam da solidão e das sombras da noite, os truques dos prestidigitadores necessitam da luz do gás, da multidão crédula e da distância. Mas os irmãos Davenport são bons jogadores e jogam as cartas à mesa. Podia-se ver, e entrava quem quisesse. Um empregado ianque montava o armário com tranqüilidade; os violões, os pandeiros, as cordas, as campainhas lá estavam, de mistura com cofres, roupas, pedaços de tapetes, telas de embalagem; tudo ao abandono, à mercê de qualquer um e como desafio à curiosidade. Isto parecia dizer: Virai, revirai, examinai, procurai, investigai, fazei alguma coisa! nada sabereis.
“Nada há mais de insolentemente simples que o armário. É um armário para roupa branca, para vestuários, e que absolutamente não tem o aspecto de ser feito para alojar Espíritos.
Pareceu-me de nogueira; na frente tem três portas, em vez de duas e se me afigura danificado pelas viagens que fez ou pelos ataques que sofreu. Dei uma olhadela, não muito de perto, porquanto, por mais aberto que estivesse, imaginei que um móvel tão misterioso devia cheirar a mofo, como a espineta mágica na qual escondiam Mozart em criança.
“Declaro formalmente que, a menos de aí pôr minhas roupas, eu não saberia o que fazer do armário dos irmãos Davenport. Cada qual no seu ofício. Eu o revi à noite, isolado sobre o estrado, diante da rampa: já tinha um aspecto monumental. A sala estava cheia, como jamais esteve nos dias em que Mozart, Beethoven e seus intérpretes bancavam as despesas da noite. O mais belo público que se pode ter: os mais amáveis, os mais espirituosos, as mais belas mulheres de Bruxelas, depois os conselheiros da Corte de Cassação, presidentes políticos, judiciários e literários; todas as academias, senadores, ministros, representantes, jornalistas, artistas, empreiteiros de construção, marceneiros, “que eram como um buquê de flores!” O honrado Sr. Rogier, ministro dos negócios estrangeiros, estava naquele sarau, onde lhe fazia companhia um antigo presidente da Câmara, o Sr. Vervoort que, desiludido das grandezas humanas, só conservou a presidência do Círculo, aliás uma realeza encantadora. À vista disto, senti-me completamente seguro. Um de nossos melhores pintores, o Sr.
Robie, fez eco ao meu pensamento, dizendo-me: ‘Vedes! A Áustria e a Prússia podem bater-se quanto queiram. Contanto que a crise européia não perturbe o nosso ministro dos negócios estrangeiros, a Bélgica pode dormir em paz.’ Isto me pareceu peremptório, vós mesmo o julgareis e, sabendo que o Sr. Rogier assistiu sorridente ao sarau dos irmãos Davenport, podeis dormir tranqüilamente. É o que tendes melhor a fazer.