Espiritismo e Espiritualismo
Pergunto inicialmente que necessidade havia de criar as novas palavras espírita e Espiritismo para substituir espiritualista e espiritualismo que pertencem à língua comum e são compreendidas por todas as pessoas? Já ouvi alguém qualificar esses termos de barbarismos.(10) A.K.: — A palavra espiritualista tem, há muito tempo, uma acepção bem determinada; é a Academia(11) quem a dá: Espiritualista é aquele ou aquela cuja doutrina é oposta ao materialismo. Todas as religiões são, necessariamente, fundadas sobre o espiritualismo. Todo aquele que crê que há em nós outra coisa além da matéria é espiritualista, o que não traz como conseqüência a crença nos espíritos e nas suas manifestações. Como o senhor o distinguiria daquele que acredita nisso? É preciso então empregar uma perífrase(12) e dizer: é um espiritualista que crê, ou um espiritualista que não crê em espíritos. Para coisas novas precisamos de palavras novas, se queremos evitar os equívocos. Se eu tivesse dado à minha Revista(13) a qualificação de Espiritualista, não teria, de modo algum, especificado o seu objetivo, porque, sem me esquivar do meu título, eu poderia não dizer uma palavra sobre os espíritos e até mesmo combatê-los. Há algum tempo li, em um jornal, a respeito de uma obra filosófica, um artigo em que era dito que o autor havia escrito sob o ponto de vista espiritualista; ora, os partidários do Espiritismo ficariam singularmente desapontados se, confiando nessa indi cação, tivessem acreditado que iriam encontrar nessa obra a míni ma concordância com suas idéias. Portanto, se eu adotei as palavras espírita e Espiritismo é porque elas exprimem, sem equívoco, as idéias relativas aos espíritos. Todo espírita é necessariamente espiritualista, mas isso não quer dizer que todos os espiritualistas sejam espíritas. Se os espíritos fossem uma quimera ainda seria útil encontrar termos especiais para o que a eles se refere, porquanto são necessárias palavras para as idéias falsas como para as idéias verdadeiras. Aliás, essas palavras não são mais bárbaras que todas aquelas que as ciências, as artes e a indústria criam diariamente. Certamente elas não o são mais do que aquelas que Gall(14) imaginou para a sua nomenclatura das faculdades, tais como: amatividade, combatividade, alimentividade, afetividade, etc.(15) Há pessoas que, por espírito de contradição, criticam tudo o que não provém delas, tomando ares de oposição; aqueles que assim suscitam tão lamentáveis tramóias só provam uma coisa, a pequenez de suas idéias. Criticar semelhantes bagatelas é provar que se está des provido de boas razões. Espiritualismo e espiritualista são as palavras inglesas empregadas nos Estados Unidos desde o começo das manifestações. No início, durante algum tempo, elas também foram utilizadas na França, mas desde que apareceram Espiritismo e espírita, compreendeu-se tão bem a sua utilidade que elas foram aceitas imediatamente pelo público. Hoje o seu uso está de tal for ma consagrado que os próprios adversários, aqueles que chamavam esses termos de barbarismo, não empregam outros. Os sermões e as pastorais que atacam o Espiritismo e os espíritas não poderiam anatematizar, ou seja, condenar o Espiritualismo e os espiritualistas sem causar a confusão das idéias. Bárbaros ou não, esses termos estão, daqui em diante, inseridos na língua usual e em todas as línguas da Europa; são os únicos empregados em todas as publicações, pró ou contra, feitas em todos os países. Eles formam a cabeça da coluna da nomenclatura da nova ciência; para exprimir os fenômenos especiais dessa ciência, eram necessários termos especiais. O Espiritismo tem, doravante, a sua nomenclatura como a Química tem a sua.(16) As palavras Espiritualismo e espiritualista,(17) aplicadas às manifestações dos espíritos, só são empregadas atualmente pelos adeptos da chamada escola americana.
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Capítulo I
Título do Capítulo Pequena Conferência Espírita
Tradutor Albertina Escudeiro Sêco
Editora CELD
Edição 1ª edição, 2008
ISBN 978-85-7297-421-9