O mentor infatigável convidou-nos a segui-lo, explicando que a operação em perspectiva poderia oferecer importantes elementos de estudo ao trabalho que nos propúnhamos realizar. A breve trecho de tempo, vimo-nos os quatro numa sala de regulares proporções, que primava pela simplicidade e pelo azul repousante. Em mesa desmontável, um homem disforme estirava-se em decúbito dorsal, respirando apenas. Para referir-nos com franqueza à criatura sob nossos olhos, cabe-nos afirmar que o aspecto do infeliz chegava a ser repelente, apesar dos cuidados de que já fora objeto. Parecia sofrer inqualificável hipertrofia, mostrando braços e pernas enormes. Entretanto, onde o aumento volumétrico do instrumento perispirítico se fazia mais desagradável era justamente na máscara fisionômica, em que todos os traços se confundiam, qual se estivéssemos à frente de uma esfera estranha, à guisa de cabeça. Seria um homem desencarnado em algum atropelamento terrestre, aguardando, ali, o imediato alívio que se deve aos acidentados comuns? Druso sentiu-nos a pergunta silenciosa e explicou:
— Trata-se de um companheiro, dificilmente identificável, trazido até aqui por uma de nossas expedições socorristas.
— Mas terá sido recentemente liberto do mundo físico? — Indagou meu colega, tanto quanto eu, dolorosamente impressionado.
— Por enquanto, não sabemos, — elucidou o orientador.
— É uma dessas pobres almas que terá deixado o Círculo carnal sob o império de terrível obsessão, tão terrível que não terá podido recolher o amparo espiritual das caridosas legiões que operam nos túmulos. Indubitavelmente, largou o corpo denso sob absoluta fascinação mental, caindo em problemas angustiantes.
— Mas, por que semelhante calamidade?
— Inquiriu Hilário, empolgado de assombro.
— Meu amigo, — replicou Druso, benevolente, — não será mais justo sondar os motivos pelos quais nos decidimos a contrair débitos, assim tão escabrosos? E, modificando o tom de voz que se fez algo triste e comovedor, aconselhou:
— As regiões infernais estão superlotadas do sofrimento que nós mesmos criamos. Precisamos equilibrar a coragem e a compaixão no mesmo nível, para atender com segurança aos nossos compromissos nestes lugares. Fitei o irmão desventurado que se mantinha em funda prostração, qual enfermo em posição comatosa, e, considerando os imperativos de nosso aprendizado, indaguei:
— Poderemos conhecer a razão da surpreendente deformidade sob nosso exame? O orientador percebeu a essência construtiva de minha perquirição e respondeu:
— O fenômeno, todo ele, é de natureza espiritual. Recorda-se você de que a dor no veículo físico é um acontecimento real no encéfalo, mas puramente imaginário no órgão que supõe experimentá-la. A mente, através das células cerebrais, regista a desarmonia corpórea, constrangendo a urdidura orgânica ao serviço, por vezes torturado e difícil, do reajuste. Aqui, também, o aspecto descontínuo ou monstruoso, resulta dos desequilíbrios dominantes na mente que, viciada por certas impressões ou vulcanizada pelo sofrimento, perde temporariamente o governo da forma, permitindo que os delicados tecidos do corpo perispirítico se perturbem, tumultuados, em condições anormais. Em tal situação, a alma pode cair sob o cativeiro de Inteligências perversas e daí procedem as ocorrências deploráveis pelas quais se despenha em transitória animalização por efeito hipnótico. Notei, contudo, que o Instrutor, compadecido, não desejava alongar entendimentos que se não reportassem ao socorro devido ao infortunado, e calei-me. Druso inclinou-se sobre ele com a ternura de alguém que auscultasse um irmão muito amado, e anunciou:
— Procuremos ouvi-lo. Incapaz de conter o assombro que me empolgava, inquiri:
— Ele dorme? O mentor fez um gesto afirmativo, notificando:
— Nosso desventurado amigo encontra-se sob terrível hipnose provocada. Inegavelmente, foi conduzido a essa posição por adversários temíveis, que, decerto, para torturá-lo, fixaram-lhe a mente em alguma penosa recordação.
— Mas, — insisti, emocionado, — semelhante martírio poderia sobrevir sem razão justa?
— Meu amigo, — falou o orientador, expressivamente, — com exceção do caminho glorioso das grandes almas, que elegem no sacrifício próprio o apostolado de amor com que ajudam os companheiros da Humanidade, não se ergue o espinheiro do sofrimento sem as raízes da culpa. Para atingir a miserabilidade em que se encontra, nosso irmão terá acumulado débitos sobremaneira escabrosos. Em seguida, contrariando-nos qualquer propósito de divagação, acentuou:
— Desintegremos as forças magnéticas que lhe constringem os centros vitais e ajudemos-lhe a memória, para que se liberte e fale. E talvez porque o meu olhar lhe endereçasse mudo apelo a esclarecimento mais amplo, acrescentou:
— Não seria lícito agir à base de hipóteses. É indispensável ouvir os delinquentes e as vítimas, a fim de que, através das informações deles mesmos, saibamos por onde começar a obra de auxílio. Procurei sopitar inquirições extemporâneas e entreguei-me à expectativa. Logo após, o Assistente, Hilário e eu, de maneira instintiva, estabelecemos uma corrente de oração, sem prévia consulta, e nossas forças reunidas como que fortaleciam o Instrutor, que, demonstrando fisionomia calma e otimista, passou a operar, magneticamente, aplicando passes dispersivos no companheiro em prostração. O enfermo reagiu, com movimentação gradativa, qual se acordasse de longo sono. Decorridos alguns minutos, o orientador pousou a destra sobre a cabeça disforme, como se lhe chamasse a memória ao necessário despertamento e, logo em seguida, o desventurado começou a gemer, revelando o pavor de quem suspira por desvencilhar-se de um pesadelo. Porque Druso interrompesse a operação, detendo-o nesse estado, Hilário indagou, aflito:
— Deverá permanecer, então, assim, à beira da vigília, sem reapossar-se de si mesmo?
— Não lhe convém o imediato retorno à realidade, — esclareceu o mentor amigo.
— Poderia sofrer deplorável crise de loucura, com graves consequências. Conversará conosco, assim qual se vê, com a mente enovelada à ideia fixa que lhe encarcera os pensamentos no mesmo círculo vicioso, a fim de que lhe venhamos a conhecer o problema crucial, sem qualquer distorção. O apontamento do orientador denotava grande experiência na psicologia dos Espíritos vitimados nas trevas. Depois de nova intervenção do mentor sobre a glote, o infeliz descerrou as pálpebras e, mostrando os olhos esgazeados, começou a bramir:
— Socorro! socorro!… Sou culpado, culpado!… Não posso mais… Perdão! Perdão! Dirigindo-se a Druso, categorizou-o, decerto, à conta de magistrado, exclamando:
— Senhor juiz, senhor juiz!… Até que enfim, posso falar! Deixem-me falar!… O dirigente da Mansão afagou-lhe a cabeça atormentada e replicou em tom amigo:
— Diga, diga o que deseja. O rosto do asilado cobriu-se de lágrimas, entremostrando a superexcitação dos sonâmbulos que transformam a própria fraqueza em energia inesperada, e começou a falar, compungidamente:
— Sou Antônio Olímpio… O criminoso!… Contarei tudo. Em verdade, pequei, pequei… Por isso é justo… que eu sofra no inferno… O fogo tortura minhalma sem consumi-la… É o remorso, bem sei… Se eu soubesse, não teria… cometido a falta… entretanto, não pude resistir à ambição… Depois da morte de meu pai… vi-me obrigado… a partilhar nossa grande fazenda com meus dois irmãos mais novos… Clarindo e Leonel… Trazia, porém, a cabeça… dominada de planos… Pretendia converter a propriedade… que eu administrava… em larga fonte de renda, contudo… a partilha me estorvava… Notei que os manos… tinham ideias diferentes das minhas… e comecei a maquinar o projeto que acabei… executando… Uma crise de soluços embargou-lhe a voz, mas Druso, amparando-o magneticamente, insistiu:
— Continue, continue… — Admiti, — continuou o enfermo com acento mais firme, — que somente poderia ser feliz, aniquilando meus irmãos e… quando o inventário estava prestes a decidir-se, convidei-os a passear comigo… de barco… inspecionando grande lago de nosso sítio… Antes, porém, dei-lhes a beber um licor entorpecente… Calculei o tempo que a droga reclamaria para um efeito seguro e… quando a nossa conversação ia acesa… percebendo-lhes os sinais de fadiga… num gesto deliberado desequilibrei a embarcação, em conhecido trecho… onde as águas eram mais fundas… Ah! que calamidade inesquecível!… Ainda agora, escuto-lhes os brados arrepiantes de horror, implorando socorro… Mas… de nervos dormentes… a breves minutos… encontraram a morte… Nadei de consciência pesada, mas firme em meus aloucados propósitos… abordando a praia e clamando por auxílio… Com atitudes estudadas, pintei um imaginário acidente… Foi assim que me apossei da fazenda inteira, legando-a, mais tarde, a Luís… o meu filho único… Fui um homem rico e tido por honesto… O dinheiro granjeou-me considerações sociais e privilégios públicos que a política distribui com todos aqueles que se fazem vencedores no mundo… pela sagacidade e pela inteligência… De quando em quando… recordava meu crime… nuvem constante a sombrear-me a consciência… mas… em companhia de Alzira… a esposa inolvidável… procurava distrações e passeios que me tomassem a atenção… Nunca pude ser feliz… Quando meu filho se fez jovem… minha mulher adoeceu gravemente… e da febre que a devorou por muitas semanas… passou à loucura… com a qual se afogou no lago… numa noite de horror. Viúvo… perguntava a mim mesmo se não estava sendo joguete… do fantasma de minhas vítimas… entretanto…