O novo companheiro que o dirigente da casa nos apresentou como sendo o Assistente Barreto, exibindo recôndita aflição a sombrear-lhe os olhos, comunicou:
— Instrutor Druso, na Enfermaria Cinco, três dos irmãos recém-acolhidos entraram em crise de angústia e rebeldia… — Já sei, — replicou o interpelado, — é a loucura por telepatia alucinatória. Ainda não se encontram suficientemente fortes para resistir ao impacto das forças perversas que lhes são desfechadas, a distância, pelos companheiros infelizes.
— Que fazer?
— Retire os enfermos normais e aplique na enfermaria os raios de choque. Não dispomos de outro recurso. Despedia-se o mensageiro, renteando conosco, e outro funcionário já se apresentava, notificando:
— Instrutor, a tela de aviso que não funcionava, à face da tormenta agora em declínio, acaba de transmitir aflitiva mensagem… Duas das nossas expedições de pesquisas estão em dificuldade nos desfiladeiros das Grandes Trevas… — A posição foi precisamente indicada?
— Sim.
— Conduza os textos recebidos à consideração do diretor de operações urgentes. O auxílio deve ser enviado tão imediatamente quanto possível. De inesperado, outro colaborador veio até nós e pediu:
— Instrutor, rogo-lhe providências na solução do caso Jonas. Recolhemos agora um recado de nossos irmãos, cientificando-nos de que a reencarnação dele talvez seja frustrada em definitivo. Pela primeira vez, notei que o dirigente da Mansão mostrou intensa preocupação no olhar. Patenteando enorme surpresa, indagou do emissário:
— Em que consiste o obstáculo?
— Cecina, a futura mãezinha, sentindo-lhe os fluidos grosseiros, nega-se a recebê-lo. Estamos presenciando a quarta tentativa de aborto, no terceiro mês de gestação, e vimos fazendo o que é possível por mantê-la na dignidade maternal. Druso esboçou no semblante um sinal de serena firmeza e acentuou:
— É inútil. A jovem mãe aceitá-lo-á, segundo os compromissos dela própria. Além disso, precisamos da internação de Jonas, no corpo físico, pelo menos durante sete anos terrestres. Tragam Cecina até aqui, ainda hoje, logo se entregue ao sono natural, para que possamos auxiliá-la com a necessária intervenção magnética. Outros elementos de serviço vinham chegando e, faminto de esclarecimentos, qual me achava, procurei um recanto próximo, em companhia do Assistente Silas a quem crivei de indagações em tom discreto, de modo a não perturbar o recinto. Quem eram aqueles funcionários? Seria justo que o diretor da casa fosse molestado, assim, com tantas consultas, quando os trabalhos de administração poderiam ser compreensivelmente subdivididos? O amigo deu-se pressa em elucidar-me, informando que os mensageiros não eram simples tarefeiros, mas condutores de serviço em subchefias determinadas, todos eles Assistentes e Assessores, cultos e dignos, detendo enormes responsabilidades, e que somente demandavam a presença de Druso depois de movimentarem todas as providências cabíveis no âmbito da autoridade a eles inerente. O problema não era, pois, de centralização, mas de luta intensiva.
— E aquele caso de reencarnação pendente?
— Ousei perguntar, respeitoso.
— A casa podia opinar com segurança na solução de semelhante assunto? O interpelado sorriu, benevolente, e respondeu:
— Para que me faça compreendido, convém esclarecer que, se existem reencarnações ligadas aos Planos superiores, temos aquelas que se enraízam diretamente nos Planos inferiores. Se a penitenciária vigora entre os homens, em função da criminalidade corrente no mundo, o inferno existe, na Espiritualidade, em função da culpa nas consciências. E assim como já podemos contar na esfera carnal com uma justiça sinceramente interessada em auxiliar os delinquentes na recuperação, através do livramento condicional e das prisões-escolas, organizadas pelas próprias autoridades que dirigem os tribunais humanos em nome das leis, aqui também os representantes do Amor Divino podem mobilizar recursos de misericórdia, beneficiando Espíritos devedores, desde que se mostrem dignos do socorro que lhes abrevie o resgate e a regeneração.
— Quer dizer, — exclamei!
— Que em boa lógica terrena e utilizando-me de uma linguagem de que usaria um homem na experiência física, há reencarnações em perfeita conexão com os Planos infernais… — Sim. Como não? Valem como preciosas oportunidades de libertação dos Círculos tenebrosos. E como tais renascimentos na carne não possuem senão característicos de trabalho expiatório, em muitas ocasiões são empreendimentos planejados e executados daqui mesmo, por benfeitores credenciados para agir e ajudar em nome do Senhor.
— E, nesses casos, — aduzi, — o Instrutor Druso dispõe da necessária delegação de competência para resolver os problemas dessa espécie?
— Nosso dirigente, — falou o amigo prestimoso, — como é razoável, não retém faculdades ilimitadas e esta instituição é suficientemente ampla para absorver-lhe os maiores cuidados. Entretanto, nos processos reencarnatórios, funciona como autoridade intermediária.
— De que modo?
— Duas vezes por semana reunimo-nos no Cenáculo da Mansão e os Mensageiros da Luz, por instrumentos adequados, determinam no assunto, apreciando os processos que a nossa casa lhes apresenta.
— Mensageiros da Luz?
— Sim, são prepostos das Inteligências angélicas que não perdem de vista as plagas infernais, porque, ainda que os gênios da sombra não o admitam, as forças do Céu velam pelo inferno que, a rigor, existe para controlar o trabalho regenerativo na Terra. E, sorrindo:
— Assim como o doente exige remédio, reclamamos a purgação espiritual, a fim de que nos habilitemos para a vida nas Esferas superiores. O inferno para a alma que o erigiu em si mesma é aquilo que a bigorna [e a fornalha] ardente constitui para o ferro bruto. Purifica e modela… O companheiro ia continuar, mas estranho ruído nos tomou a atenção, ao mesmo tempo que um emissário varou uma das portas, situada rente a nós, e, abeirando-se de Druso, anunciou:
— Instrutor, depois de amainada a tormenta, voltou o assalto dos raios desintegrantes… O orientador esboçou um gesto de preocupação e recomendou:
— Liguem as baterias de exaustão. Observaremos a defensiva, instalados na Agulha de Vigilância. Em seguida, convidou-nos a acompanhá-lo. Silas, Hilário e eu seguimo-lo sem hesitar. Atravessamos vastíssimos corredores e largos salões, em sentido ascendente, até que começamos a subir de maneira direta. O local conhecido por Agulha de Vigilância era uma torre, servida por escadaria circular, algumas dezenas de metros acima do grande e complicado edifício. No topo, descansamos em pequeno gabinete, em cujo recinto interessantes aparelhos nos facultaram a contemplação da paisagem exterior. Assemelhavam-se a telescópios diminutos, trabalhando em base de raios que eliminavam o nevoeiro, permitindo-nos exata noção do ambiente constrangedor que nos cercava, povoado de criaturas agressivas e exóticas, que fugiam, espavoridas, ante vasto grupo de entidades que manobravam curiosas máquinas à guisa de canhonetes.
— Estaremos assediados por um exército atacante? — Perguntei, intrigado.
— Isso mesmo, — confirmou Druso, calmamente, — esses ataques porém, são comuns. Com semelhante invasão, pretendem nossos irmãos infelizes deslocar nossa casa e levar-nos à inércia, a fim de senhorearem a região.
— E aquelas equipagens? Que vêm a ser?
— Enunciou meu companheiro, assombrado.
— Podemos defini-las como canhões de bombardeio eletrônico, — informou o orientador.
— As descargas sobre nós são cuidadosamente estudadas, a fim de que nos atinjam sem erro na velocidade de arremesso.
— E se nos alcançassem? — Perguntou meu colega.
— Decerto provocariam aqui fenômenos de desintegração, suscetíveis de conduzir-nos à ruína total, sem nos referirmos às perturbações que estabeleceriam em nossos irmãos doentes, ainda incapazes de qualquer esforço para a emigração, porque o impacto dos raios desfechados contra nós contêm princípios de flagelação, que provocam as piores crises de pavor e loucura. Não longe de nós, ruído soturno vibrava na atmosfera. Guardávamos a ideia de que milhares de projéteis invisíveis cortavam o ar, violentamente, sibilando a reduzida distância e acabando em estalidos secos, a nos infundirem pavorosa impressão. Talvez porque Hilário e eu demonstrássemos insofreável espanto, Druso ponderou, paternal:
— Estejamos tranquilos. Nossas barreiras de exaustão movem-se com eficiência. E designou-nos ao olhar assustadiço longa muralha, constituída por milhares de hastes metálicas, cercando a cidadela em toda a extensão, qual se fosse larga série de para-raios habilmente dispostos. Em todos os lances do flanco atacado, surgiam faíscas elétricas, a fulgurarem nos pontos de contato, atraídas pelas pontas a prumo. O espetáculo, em sua beleza terrível, caracterizava-se, a olho nu, pela cintilação dos contrastes, entre a sombra imensa e a luz relampagueante.
— Os conflitos aqui são incessantes, — disse-nos o orientador com dignidade serena; — no entanto, temos aprendido nesta Mansão que a paz não é conquista da inércia, mas sim fruto do equilíbrio entre a fé no Poder Divino e a confiança em nós mesmos, no serviço pela vitória do bem. Nesse instante, porém, um servidor da casa penetrou no recinto e disse:
— Instrutor Druso, conforme as recomendações havidas, o doente recolhido na noite passada foi instalado no gabinete de socorro magnético, aguardando-lhe a intervenção.
— Conseguiu dizer algo?
— Não. Continua apenas com os gemidos periódicos.
— Nenhum indício de identificação?
— Nenhum.