Mas a transformação do governador, a luz da graça que nos acompanhou no curso dos acontecimentos de hoje, levam -me, igualmente, a procurar um motivo de perenes lembranças. Depois de longa pausa, dando a entender qua nto refletira para tomar aquela resolução, falou: — Razões íntimas, absolutamente respeitáveis, obri gam-me a reconhecer, doravante, um benfeitor no chefe político desta ilha. Sem trocar formalmente meu nome passarei a assinar -me à romana. — Muito bem — respondeu o companheiro —, entre Saulo e Paulo nenhuma diferença existe, a não ser a do hábito de grafia ou de pronúncia. A decisão será uma formosa homenagem ao nosso primeiro triunfo mis sionário junto dos gentios, ao mesmo tempo que consti tuirá agradável lembrança de um espírito tão generoso. Nesse fato baseou-se a mudança de uma letra no nome do ex -discípulo de Gamaliel. Caráter íntegro e enérgico, o rabino de Jerusalém, nem mesmo transfor mado em modesto tecelão, quis modificar, portas a d entro do Cristianismo, a sua fidelidade inata. Se servira a Moisés como Saulo, com o mesmo nome haveria de servir igualmente a Jesus -Cristo. Se errara e fora perverso, na primeira condição, aproveitaria a oportunidade dos Céus, corrigiria a existência e seria um homem bom e justo na segunda. Nesse particular, não chegou a considerar qualquer sugestão dos amigos. Fora o primeiro perseguidor da instituição cristã, verdugo inflexível do proselitismo alvorecente, mas fazia questão de continuar como Saulo, para lembrar-se de todo o mal e envidar esforços para fazer todo o bem ao seu alcance. Mas, naquele instante, a lembrança de Estevão falava -lhe brandamente ao coração. Ele fora o seu maior exemplo para a marcha espiritual. Era o Jeziel bem -amado de Abigail. Para procurá-lo, ambos se haviam prometido ir, sem vacilações, fosse aonde fosse. Os dois irmãos de Corinto estavam vivos, de tal modo, em sua alma sen sível, que não era possível apagar na memória os míni mos fatos de sua vida. A mão de Jesus o encaminhara ao Procônsul, o libertador de Jeziel dos grilhões do cativeiro; o ex-escravo demandara Jerusalém para tor nar-se discípulo do Cristo! O ex-rabino sentia-se ditoso, por ter sido auxiliado pelas forças divinas, tornando-se por sua vez libertador de Sérgio Pa ulo, escravizado ao sofrimento e às ilusões perigosas do mundo. Era justo gravar na memória uma lembrança indelével daquele que, vítima dele em Jerusalém, era agora irmão abençoado, o qual não conseguia esquecer nos mais fugazes instantes da vida e do seu ministério. Daí por diante o convertido de Damasco, em me mória do inolvidável pregador do Evangelho, que su cumbira a pedradas, passou a assinar -se Paulo, até ao fim de seus dias. A notícia da cura e da conversão do Procônsul encheu Nea -Pafos de grande assombro. Os missionários não mais tiveram descanso. Embora o protesto quase apagado dos israelitas, a comunidade cresceu extraordi nariamente. Integrado nos bens da saude, o chefe pro vincial forneceu o necessário à construção da igreja. O movimento era ext raordinário. E os dois mensageiros do Evangelho não cessavam de render graças a Deus. O triunfo cercava-os de profunda consideração, quan do Paulo foi procurado por Barjesus que lhe solicitava uma palavra confidencial. O ex -rabino não hesitou. Era uma boa ocasião para provar ao velho israelita os seus propósitos generosos e sinceros. Recebeu -o, pois, com toda a afabilidade. Barjesus parecia tomado de grande acanhamento. Após cumprimentar o missionário, atencioso, exprimiu -se com certo embaraço: — Afinal, precisava desfazer o mal -entendido, no caso do Procônsul. Ninguém, mais do que eu, desejava tanto a saúde do enfermo, e, por conseguinte, ninguém mais agradecido à vossa intervenção, libertando -o de enfermidade tão dolorosa. — Sou muito grato ao vosso parec er e regozijo-me com a vossa compreensão — disse Paulo, com gentileza. — Entretanto... O visitante vacilava se devia ou não expor seus objetivos mais íntimos. Atento às reticências sem pre sumir-lhes a causa, o ex-rabino adiantou-se benévolo. — Que desejais dizer? Com franqueza. Nada de ce rimônias! — Acontece — retrucou mais animado — que venho afagando a idéia de consultar-vos a respeito dos vossos dons espirituais. Penso que não haverá maior tesouro para triunfar na vida... Paulo estava confundido, sem s aber que rumo tomaria a conversação. Mas, focando o ponto mais delicado da pretensão, Barjesus continuou: — Quanto ganhais no vosso ministério? — Ganho a misericórdia de Deus — disse o missionário, compreendendo, então, todo o alcance daquela vi sita inesperada —, vivo do meu trabalho de tecelagem e não seria lícito mercadejar com o que pertence ao Pai que está nos céus. - É quase incrível! murmurou o mago arrega lando os olhos. — Eu estava convicto de - que trazíeis convosco certos talismãs, que m e dispunha a comprar por qualquer preço. E enquanto o ex-rabino o contemplava cheio de co miseração pela sua ignorância, o visitante prosseguiu: - Mas, será crível que façais semelhantes obras sem contribuição de sortilégios? O missionário fixou-o mais atento e murmurou: — Só conheço um sortilégio eficiente. — Qual é? — interrogou o mago de olhar faiscante e cobiçoso. —É o da fé em Deus com sacrifício de nós mesmos. O velho israelita demonstrou não entender toda a significação daquelas palavras, objetando: — Sim, mas a vida tem suas necessidades urgentes. É indispensável prever e amealhar recursos. Paulo pensou um minuto e disse: — De mim mesmo, nada tenho com que vos escla recer. Mas Deus tem sempre uma resposta para nossas preocupações mais simples. Consu ltemos suas eternas verdades. Vejamos qual a mensagem destinada ao vosso coração. Ia abrir o Evangelho, conforme seu costume, quan do o visitante observou: — Nada conheço desse livro. Para mim, portanto, não poderá trazer advertência alguma. O missionário compreendeu a relutância e acentuou: — Que conheceis então? — Moisés e os Profetas. Tomou do rolo de pergaminhos onde se podia ler a Lei Mitiga e o deu ao velho malicioso, para que o abrisse em alguma sentença, ao acaso, segundo os hábitos da época. No ent anto Barjesus, com evidente má -vontade, acrescentou: —Só leio os Profetas, de joelhos. — Podeis ler como quiserdes, porque o ato de com preender é o que nos interessa, antes de tudo. Assinalando suas presunções farisaicas, o charlatão ajoelhou -se e abriu solenemente o texto, sob o olhar se reno e perquiridor do ex-rabino. O velho israelita fez-se pálido. Esboçou um gesto para se abstrair da leitura; mas Paulo percebeu o movimento sutil e, aproximando -se, falou com alguma veemência: — Leiamos a mensagem per manente dos emissários de Deus. Tratava-se de um fragmento dos Provérbios, que Barjesus pronunciou em voz alta, com enorme desapon tamento: “Duas coisas te pedi; não mas negues, antes que eu morra. Afasta de mim as vaidades e as mentiras. Não me dês a pob reza, nem a riqueza. Concede-me apenas o alimento de que necessito, para não acontecer que, estando farto, eu te negue e pergunte: - Quem é Jeová? — ou que, estando pobre, me ponha a furtar e profane o nome de meu Deus.” (1) O mago levantou-se atarantado, O próprio missionário estava surpreso. — Vistes, amigo? — interrogou Paulo — a palavra da verdade é muito eloqüente. Será grande talismã, na existência, o sabermos viver com os nossos próprios recursos, sem exorbitar do necessário ao nosso enrique cimento espiritual. — Efetivamente — respondeu o charlatão — este processo de consultas é muito interessante. Vou meditar seriamente na experiência de hoje. Logo em seguida se despedia, depois de mastigar alguns monossílabos que mal disfarçavam a perturbação que todo o empolgara. Impressionado, o tecelão consagrado ao Cristo ano tou as profundas exortações, para consolidar o seu pro grama de atividades espirituais, isento de interesses inferiores. A missão permaneceu em Nea -Pafos ainda alguns dias, sobrecarregad a de muito trabalho. João Marcos colaborava com os recursos ao seu alcance; todavia, de vez em quando, Barnabé surpreendia -o entristecido e queixoso. Não esperava encontrar tão vultosa cota de trabalho. (1) Provérbios, capítulo 30º, versículos de 7 a 9 - Mas, assim é melhor — acentuava Paulo —‘ o serviço do bem é a muralha defensiva das tentações. O rapaz conformava-se; contudo, sua contrariedade era evidente. Além disso, fiel observador do judaísmo, não obstan te a paixão pelo Evangelho, o filho de Maria Marcos sentia grandes escrúpulos, com a largueza de vistas do tio e do missionário, relativamente aos gentios. Desejava servir a Jesus, sim, de todo o coração, mas não podia distanciar o Mestre das tradições do berço. Enquanto as sementes lançadas em Chipre começavam a germinar na terra dos corações, os trabalhadores do Messias abandonavam Nea -Pafos, absorvidos em vastas esperanças. Depois de muito confabularem, Paulo e Barnabé re solveram estender a missão aos povos da Panfília, com grande escând alo para João Marcos, que se admirava de semelhante alvitre. — Mas que fazermos com essa gente tão estranha? — Perguntou o rapaz contrariado. — Sabemos, em Jerusalém, que esse país é povoado por criaturas supina mente ignorantes. E, ao demais, que a li existem ladrões por toda parte. — No entanto — obtemperou Paulo, convicto —, penso que devemos procurar a região, justamente por isso. Para outros, uma viagem a Alexandria pode oferecer maior interesse; mas todos esses grandes centros estão cheios de mestres da palavra. Possuem sinagogas importantes, conhecimentos elevados, grandes expoentes de ciência e riqueza. Se não servem a Deus é por má-vontade ou endurecimento de coração. A Panfília, ao contrário, é muito pobre, rudimentar e carecente de luz espi ritual. Antes de ensinar em Jerusalém, o Mestre preferiu manifestar -se em Cafarnaum e noutras aldeias quase anônimas, da Galiléia. Ante o argumento irretorquível, João absteve -se de insistir.