Daí a dias, Abigail, em companhia do noivo e da irmã, demandou a cidade, cujo perfil interessante apre sentava novos quadros para os seus olhos. A casa de Dalila, na mesma noite de sua cheg ada, encheu-se de amigos que iam levar à escolhida de Saulo a homenagem da sua admiração; e a jovem de Corinto a todos seduzia por seus dotes naturais, aliados à sólida e bem cuidada formação de espírito. Sua palavra, cheia de ternura, parecia distanciar -se profundamente das futilidades que caracterizavam a mocidade da época. Sabia aplicar os mais delicados conceitos, no trato de todos os assuntos a que era convocada, tirando formosas ilações da Lei e dos Escritos Sagrados, para definir a posição da mulher em face dos mais íntimos deveres na vida familiar. O doutor de Tarso sentia -se orgulhoso, ao notar a admi ração geral em torno de sua personalidade vibrante e carinhosa. Abigail, sintetizando o seu maior ideal, enchia-lhe o coração de maravilhosas promess as. A surpresa dos amigos, que o felicitavam com o olhar, punha -lhe na alma ardente um júbilo novo. O dia seguinte rompeu claro e lindo. Ao sol rútilo de Jerusalém, Saulo despediu-se da noiva amada, por atender, ainda cedo, aos trabalhos do Sinédrio. — Então, até logo, no Templo — disse carinhosamente. — No Templo? — perguntou Dalila admirada, abra çando-se a Abigail. — Sim — explicou solícito —, Abigail irá assistir à parte final da punição de Estevão. — Mas como? — interrogou ainda a jovem senho ra. — Mulheres na cerimônia? — A lapidação se dará nas proximidades do altar dos holocaustos e não nos átrios sagrados — esclareceu. A meu ver, não haverá impedimento de representações femininas, e ainda que isso constitua resolução de última hora, a critério dos sacerdotes, a medida não poderá atingir decisão pessoal de minha parte e eu desejo que Abigail participe do meu primeiro triunfo na defesa dos nossos princípios soberanos. Ambas sorriram, venturosas, observando -lhe as disposições excelentes. — Em último recurso, Saulo — disse Abigail num gesto de tranqüilidade e ternura —, não deixes de oferecer ao condenado uma derradeira oportunidade para salvar-se da morte. Após dois meses de cárcere, é possível que tenha refundido os sentimentos mais profundos. Pergunta -lhe, mais uma vez, se insiste em insultar a Lei. O moço tarsense enviou-lhe um olhar satisfeito e reconhecido, jubiloso por verificar tanta grandeza de coração, e acentuou: - Assim farei. Nesse dia, desde muito cedo, o mais alto Tribunal de Israel apresentava desusado movimento. A execução do pregador do “Caminho” constituía objeto de largos comentários. Sobretudo os fariseus faziam questão de todos os informes. Ninguém queria perder o angustioso espe táculo. A igreja modesta de Simão Pedro, entretanto, não ousou aproximar -se para qualquer indagação. Saulo, como perseguidor declarado e usando das prerrogativas da investidura legal, mandara anunciar que nenhum adepto do “Caminho” poderia assistir à execução a efetivar-se num dos grandes pátio s do santuário. Longas filas de soldados foram dispostas na grande praça, para dispersar quaisquer grupos de mendigos que se formas sem com intuitos desconhecidos e, desde as primeiras horas da manhã, numerosos pedintes de Jerusalém eram corridos das imediações a golpes de chanfalho. Depois do meio-dia, autoridades e curiosos reuniam -se, ávidos de sensação, no recinto do Sinédrio, em aba fado vozerio. Aguardava -se o sentenciado, que chegou, finalmente, cercado de escolta armada, como se fora um malfeitor comum. Estevão apresentava-se bastante desfigurado, em bora o semblante não traisse a peculiar serenidade. O passo tardio, o cansaço extremo, as equimoses das mãos e dos pés, patenteavam os pesados tormentos físicos que lhe eram infligidos à sombra do calabo uço. A barba crescida alterava -lhe o aspecto fisionômico, todavia, os olhos tinham a mesma fulgurância de cristalina bondade. Em meio da curiosidade geral, Saulo de Tarso o encarou satisfeito. Estevão pagaria, afinal, as incom preensões e os insultos. No instante aprazado, o doutor inflexível fez a lei tura do libelo. Antes, porém, de pronunciar a sentença última, fiel ao que prometera, mandou que os soldados empurrassem o condenado até à sua tribuna. Enfrentan do o pregador do Evangelho, sem qualquer expre ssão de piedade, interrogou com aspereza: — Estarias disposto, agora, a jurar contra o car pinteiro Nazareno? Lembra te que é a última oportuni dade de conservares a vida. Tais palavras, pronunciadas mecanicamente, soaram de modo estranho aos ouvidos do moço de Corinto, que as recebeu, na alma sensível e generosa, como novos dardos de ironia. — Não insulteis o Salvador! — disse o arauto do Cristo, com desassombro. — Nada no mundo me fará renunciar à sua tutela divina! Morrer por Jesus significa uma glória, quando sabemos que ele se imolou na cruz pela Humanidade inteira! Mas, uma torrente de impropérios cortava -lhe a palavra. — Basta! Apedrejemo-lo quanto antes! Morte ao imundo! Abaixo o feiticeiro! Blasfemo!... Caluniador! A gritaria tomava proporções assu stadoras. Alguns fariseus mais irritados, burlando os guardas, aproxima ram-se de Estevão tentando arrastá -lo sem compaixão. Entretanto, ao primeiro puxão na gola rota, um pedaço da túnica rafada ficava-lhes nas mãos. Foi necessário a intervenção da força armada para que o moço de Corinto não fosse estraçalhado, ali mesmo, pela multidão furiosa e delirante. Saulo, em altas vozes, ordenou a intervenção dos soldados. Queria a execução do discípulo do Evangelho, mas, com todo o cerimonial previsto Estevão tinha agora o rosto enrubescido, envergo nhado. Seminu, foi auxiliado por um legionário romano a recompor os sobejos da veste em frangalhos, acima dos rins, para não ficar inteiramente nu. Com a mão trêmula, pelos maus tratos recebidos, procurava limpar a sa liva que os mais exaltados lhe haviam esputado em pleno rosto - Forte pancada no ombro causava -lhe intensa dor no braço todo. Compreendeu que lhe chegavam os últimos instantes de vida. A humilhação doía -lhe fundo. Mas recordou as descrições de Simão a respeito de Jesus, no derradeiro transe. Em frente de Herodes Antipas, o Cristo sofrera dos israelitas idênticas ironias. Fora açoitado, ridicularizado, ferido. Quase nu, suportara todos os agravos sem uma queixa, sem uma expressão menos digna. Ele que amara o s infelizes, que trabalhara por fundar uma doutrina de concórdia e de amor para todos os homens, que abençoara os mais desgraçados e os acolhera com carinho, recebera o galardão da cruz em suplícios imensuráveis. E Estevão pensou: — “Quem sou eu e quem era o Cristo ?“ Essa íntima interrogação propiciava -lhe certo consolo. O Príncipe da Paz fora arrastado pelas ruas de Jerusalém, sob o escárnio das maiores injúrias, e era o Messias esperado, o Ungido de Deus! Por que, sendo ele homem falível, portador de num erosas fraquezas, haveria de hesitar no momento do testemunho? E, com o pranto a escorrer -Lhe no rosto lacerado, escutava a voz cariciosa do Mestre no coração: “Todo aquele que desejar participar do meu reino, negue -se a si mesmo, tome sua cruz e siga os m eus passos”. Era preciso negar -se para aceitar o sacrifício proveitoso. Ao fim de todos os martírios, deveria encontrar o amor glorioso de Jesus, com a beleza da sua ternura imortal. O pregador humilhado e ferido recordou o passado de trabalhos e esperança s. Parecia-lhe rever a infância sau dosa, na qual o zelo materno lhe incutira os fundamentos da fé confortadora; depois, as nobres aspirações da mocidade, a dedicação paterna, o amor da irmãzinha que as circunstâncias do destino lhe haviam arrebatado. Ao pensar em Abigail, experimentou certa angústia no coração. Agora, que deveria enfrentar a morte, desejava revê -la para as últimas recomendações. Relembrou a derradeira noite em que haviam permutado tantas impressões de ternura, tantas promessas fraternai s, na lôbrega prisão de Corinto. Apesar dos movimentos reno vadores da fé, de cujos trabalhos compartilhava ativamente em Jerusalém, jamais pudera esquecer o dever de procurá-la, fosse onde fosse. Enquanto em derredor se multiplicavam impropérios no turbilhão de gritos e amea ças revoltantes, o sentenciado chorava com as suas re cordações. Socorrendo -se das promessas do Cristo no Evangelho, experimentava brando alívio. A idéia de que a irmãzinha ficaria no mundo, entregue a Jesus, suavi zava-lhe as angústias do coração. Mal não saíra de suas dolorosas reminiscências, ouviu a voz imperiosa de Saulo dirigindo-se aos guardas: — Algemai-o novamente, tudo está consumado, si gamos para o átrio. O discípulo de Simão Pedro, estendendo os pulsos para receber as algemas, sofreu pancadas tão fortes de um soldado inescrupuloso, que dos pulsos feridos começou a jorrar muito sangue. Estevão, porém, não fez o menor gesto de resis tência. De quando em quando, levantava os olhos como se implorasse os recursos do Céu para os seus minutos supremos. Não obstante os apupos e as chagas que o dilaceravam, experimentava uma paz espiritual desconhecida. Todos aqueles sofrimentos do cerimonial eram pelo Cristo. Aquela hora era a sua oportunidade divina. O Mestre de Nazaré havia convo cado o seu coração fiel ao público testemunho dos valores espirituais da sua gloriosa doutrina. Confiante, raciocinava: — “Se o Messias aceitara a morte infamante do Calvário para salvar todos os homens, não seria uma honra dar a vida por Ele? “Seu coração, sempre ávido de dar testemunho ao Senhor, desde que lhe conhecera o Evangelho de reden ção. não deveria rejubilar -se com o ensejo de oferecer-lhe a própria vida? Entretanto, a ordem de caminhar arran cou-o dos mais elevados pensamentos. O generoso pregador do “Caminho” hesitava nos passos cambaleantes, mas tinha sereno e firme o olhar, revelando desassombro nos derradeiros lances do testemunho. Naquelas primeiras horas da tarde, o sol de Jeru salém era um braseiro ardente. Não obstante o calor insuportá vel, a massa deslocou-se com profundo interesse.