Tratava-se do primeiro processo concernente às atividades do “Caminho”, após a morte do seu funda dor. Destacando-se de todas as correntes judaicas ali presentes, em penhor de prestígio à Lei de Moisés, os fariseus faziam grande alarde do feito. Ladeando o condenado, faziam questão de atirar-lhe em rosto as mais pesadas injúrias. Ele, porém, embora evidenciasse profunda tristeza, caminhava seminu, sereno, imperturbável. A sala de reuniões do Sinédrio não dis tava muito do átrio do Templo, onde se realizaria a macabra ceri mônia. Apenas alguns metros e a caminhada terminava, justamente no local onde se erguia o enorme altar dos holocaustos. Tudo estava preparado a caráter, como Saulo dei xara perceber em seus propósitos. Ao fundo do pátio espaçoso, Estevão foi atado a um tronco, para que o apedrejamento se efetuasse na hora precisa. Os executores seriam os representantes das diver sas sinagogas da cidade, de vez que era função honrosa atribuida a quantos estives sem em condições de operar na defesa de Moisés e de seus princípios. Cada sinagoga indicara o seu delegado e, ao iniciar a cerimônia, como chefe do movimento, Saulo recebia um por um, junto da vítima, guardando nas mãos, de acordo com a pragmática, os mantos brilhantes, enfeitados de púrpura. Mais uma ordem do moço tarsense e a execução começou entre gargalhadas. Cada verdugo mirava friamente o ponto preferido, esforçando -se para tirar maior partido. Risos gerais seguiam-se a cada golpe. Poupemos-lhe a cabeça — dizia um dos mais exal tados —, a fim de que o espetáculo não perca a inten sidade e o interesse. Cada expressão do judaísmo acompanhava o ver dugo indicado pelos maiorais da sinagoga, com atenção e entusiasmo, aos berros de “Morra o traidor! o feiticeiro!. . — Fere no coração, em nome dos cilícios! — exclamava alguém, do meio da turba. — Separa-lhe a perna pelos idumeus! — secundava outra voz impudente. Mais ou menos afastado da turba, seguindo de perto os movimentos do condenado, Saulo de Tarso ap reciava a vibração popular, satisfeito e confortado. De qualquer maneira, a morte do pregador do Cristo representava o seu primeiro grande triunfo na conquista das atenções de Jerusalém e de suas prestigiosas corporações polí ticas. Naquela hora em que foc alizava tantas aclamações do povo de sua raça, orgulhava -se com a decisão que o levara a perseguir o “Caminho”, sem consideração e sem tréguas. Aquela tranqüilidade de Estevão, no entanto, não deixava de o impressionar bem no imo do coração voluntarioso e inflexível. Onde poderia ele haurir tal serenidade? Sob as pedras que o alvejavam. aqueles olhos encaravam os algozes sem pestanejar, sem revelar temor nem turbação! De fato, amarrado de joelhos ao tronco do suplício, o moço de Corinto guardava impressionante característica de paz nos olhos translúcidos, de onde as lágrimas silenciosas corriam abundantes, O peito descoberto era uma chaga sangrenta. As vestes esfrangalhadas cola vam-se ao corpo, empastadas de suor e sangue. O mártir do “Caminho” sentia -se amparado por forças poderosas e intangíveis. A cada novo golpe, sentia recrudescer os padecimentos infinitos que lhe azorragavam o corpo macerado, mas, no íntimo, guardava a im pressão de uma lenidade sublime. O coração batia des compassadamente. O tórax estava coberto de feridas profundas, as costelas fraturadas. Nesta hora suprema, recordava os mínimos laços de fé que o prendiam a uma vida mais alta. Lembrou todas as orações prediletas da infância. Fazia o possível por fixar na retina o quadro da morte do pai supliciado e incompreendido. Íntimamente, repetia o Salmo 23º de David, qual o fazia junto da irmã, nas situações que pareciam insuperáveis. “O Senhor é meu pastor. Nada me faltará...” As expressões dos Escritos Sagra dos, como as promessas do Cristo no Evangelho, esta vam-lhe no âmago do coração. O corpo quebrantava-se no tormento, mas o espírito estava tranqüilo e espe rançoso. Agora, tinha a impressão de que duas mãos cari ciosas passavam de leve sobre as chagas doloridas, pro porcionando-lhe branda sensação de alívio. Sem qualquer receio, percebeu que lhe havia chegado o suor da agonia. Dedicados amigos, do plano espiritual, rodeavam o mártir nos seus minutos supremos. No auge das dores físicas, como se houvesse transposto infinitos abismos de percepção, o moço de Corinto notou que alguma coisa se lhe havia rasgado na alma ansiosa. Seus olhos pareciam mergulhar em quadros gloriosos de outra vida. A legião de emissários de Jesus, que o cercava carinhosa mente, figurou-se-lhe a corte celestial. No caminho de luz desdobrado à sua frente, reconheceu que alguém se aproximava abrindo -lhe os braços generosos. Pelas descrições que ouvira de Pedro, percebeu que contemplava o próprio Mestre em toda a resplendência de suas glórias divinas. Saulo observou que os olhos do condenado estavam estáticos e fulgurantes. Foi quando o herói cristão, movendo os lábios, exclamou em alta voz: — Eis que vejo os céus abertos e o Cristo ressus citado na grandeza de Deus!... Viram, então, que duas mulheres jovens aproxima vam-se do perseguidor com gestos íntimos. Dalila en tregou Abigail ao irmão, despedindo -se logo para atender ao chamado de outra amiga. A noiva terna cingia uma túnica à moda grega, que mais lhe realçava o formoso rosto. Fosse pela dolorosa cena em curso, ou pela presença da mulher amada, percebia -se que Saulo estava um tanto perplexo e sensibilizado. Dir -se-ia que a coragem indomável de Estevão o levara a considerar a tran qüilidade desconhecida que deveria reinar no espírito do mártir. Em face da gritaria que a rodeava e notando a miserável situação da vítima, a jovem mal pôde conter um grito de espanto. Que homem era aquele, atado ao tronco do suplício? Aquele peito arfante, empastado de sangue, aqueles cabelos, aquele rosto pálido que a barba crescida des figurava, não seriam de seu irmão? Ah! como falar das ansiedades imensas na surpresa im prevista de um minuto? Abigail tremia. Seus olhos aflitos acompanhavam os menores movimentos do herói, que parecia indiferente, no êxtase que o absorvia. Embalde Saulo chamava-lhe a atenção, discretamente, de modo a poupá-la de penosas impressões. A moça parecia nada ver além do sentenciado a esvair-se no sangue do martírio. Lembrava -se agora... Em se afastando do calabouço, depois da morte do pai, foi assim mesmo que deixara Jeziel na posição do suplício. O tronco execrável, as algemas impiedosas e o pobrezinho de joelhos! Tinha ímpetos de atirar -se à frente dos algozes, esclarecer a situação, saber a identidade daquele homem. Nesse instante, ignorando -se alvo de tão singular atenção, o pregador do “Caminho” saiu de sua impres sionante imobilidade. Vendo que Jesus contemplava, melancolicamente, a figura do doutor de Tarso, como a lamentar seus condenáveis desvios, o discípulo de Simão experimentou pelo verdugo sincera amizade no coração. Ele conhecia o Cristo e Saulo não. Assomado de fraternidade real e querendo defender o perseguidor, exclamou de modo impressionante: — Senhor, não lhe imputes este pecado!... Isso dito, voltou os olhos para fixá -los no verdugo, amorosamente. Eis, porém, que divisou junto dele a figura da irmã, trajada como nos dias de júbilo, na casa paterna. Era ela, a irmãzinha amada, por cujo afeto tantas vezes lhe palpitara o coração, de saudade e de esperança. Como explicar sua presença? Quem sabe havia sido também levada ao reino do Mestre e regres sava com ele, em espírito, para trazer -lhe as boas-vindas, de um mundo melhor? Quis bradar sua alegria infinita, atraí -la, ouvir-lhe a voz nos cânticos de David, morrer embalado pelo seu carinho; mas a g arganta já não timbrava. A emoção dominara-o na hora extrema. Sentiu que o Mestre de Nazaré acariciava -lhe a fronte, onde a última pedrada abrira uma flor de sangue. Ouvia, muito longe, vozes argentinas que cantavam hinos de amor sobre os gloriosos motivo s do Sermão da Montanha. Incapaz de resistir por mais tempo ao suplício, o discípulo do Evangelho sentia -se desfalecer. Escutando as expressões do condenado e recebendo -lhe o olhar fulgurante e límpido, Abigail não pôde dis simular a angustiosa surpresa. — Saulo! Saulo!... É meu irmão — exclamou aterradamente. — Que dizes? — gaguejou baixinho o doutor de Tarso arregalando os olhos. — Não pode ser! Enlouque ceste? — Não, não, é ele; é ele! — repetia tomada de extrema palidez. — É Jeziel — insistia Abigail assombrada —, querido; concede-me um minuto, deixa-me falar ao moribundo apenas um minuto. — Impossível! — replicou o moço, contrafeito. — Saulo, pela Lei de Moisés, pelo amor de nossos pais, atende — exclamava torcendo as mãos. O ex-discípulo de Gamaliel não acreditava na pos sibilidade de semelhante coincidência. Além do mais, havia a diferença do nome. Convinha esclarecer esse ponto, antes de tudo. Certo, a falsa impressão de Abi gail se desfaria ao primeiro contacto direto com o agonizante. Sua índole, sensível e afetuosa, justificava o que a seu ver era um absurdo. Conjugando essas reflexões de um segundo, falou à noiva, com austeridade: — Irei contigo identificar o moribundo, mas, até que o possamos fazer, cala as tuas impressões... Nem uma palavra, ouviste? iË necessário não esquecer a respeitabilidade do local em que te encontras! Logo após, chamava um funcionário de alta cate goria, secamente: — Manda levar o cadáver para o gabinete dos sa cerdotes. — Senhor — respondeu o outro respeitoso —, o condenado ainda não está morto. — Não importa, vai assim mesmo, pois arrancar -lhe-ei a confissão do arrependimento na hora extrema. A determinação foi cumprida sem mais demora, enquanto Saulo mandava servir, de modo geral, ao s amigos e admiradores, várias ânforas de vinho delicioso, por comemorarem o seu primeiro triunfo. Depois, cenho carregado, apreensivo, esgueirou-se quase sorrateiramente até à sala reservada aos sacerdotes de Jerusalém, em companhia da noiva.