1ª Parte - Cap. 8: A morte de Estevão
Apesar das atividades intensas, o moço de Tarso não deixara de comparecer pontualmente em casa de Zacarias, onde, no coração de Abigail, encontrava o necessário repouso. Se as lutas em Jerusalém consumiam -lhe as forças, perto da mulher amada parecia recobrá -las, no doce encantamento com que esperava a realização das mais caras esperanças. Tinha a impressão de que o mundo era um campo de batalha, no qual lhe cabia combater pela lei de Deus; todavia, como o Eterno era justo e generoso, concedera-lhe, na dedicação da sua eleita, um pouso de consolação. Abigail era o seu mundo sentimental. As lutas de cada dia, as providências rigorosas que lhe impunha o cargo, a rigidez com que de veria tratar as questões confiadas ao seu foro, eram transvazadas no coração da noiva, cheio de amor, de piedade e justiça. Ela acolhia -lhe as idéias com atenção afetuosa, parecia temperá-las na ternura da alma fraterna, restituindo -as ao noivo amado em forma de sugestões carinhosas e justas. Saulo habituara-se a esse precioso intercâmbio de cada dia. Quando lhe faltavam ao coração os brandos consolos da estrada de Jope, sentia -se perturbado pelos próprios sentimentos enérgicos e impulsivos. Abigail corrig ialhe o espírito. Aparava as arestas do seu ca ráter violento e rude, cooperava para que se atenuasse o rigor das decisões autoritárias. Horas a fio o jovem tarsense embevecia -se a ouvi-la, como se os seus sentimentos de bondade fossem alimento suave par a sua alma, que os raciocínios rígidos do mundo costumavam rescaldar. Ele, que não experimentara as aventuras ga lantes do tempo, cioso de conservar pura a consciência em face da Lei, descobrira na criatura eleita a personi ficação de todos os sonhos de su a mocidade esperançosa. Na noite seguinte à memorável sessão do Sinédrio, Saulo de Tarso, abandonando todas as preocupações de ordem imediata, buscou mais ansioso a residência de Zacarias. As fadigas do dia abalavam -lhe as forças. Queria vencer rapidamente a distância, absorver-se no afeto da noiva, olvidar as preocupações que lhe ardiam na mente trabalhada pelos mais desencontrados raciocínios. A noite já desdobrava o manto de luar sobre a Natureza, quando o jovem doutor transpôs o umbral, sur preendendo a generosa família com uma saudação delicada e afetuosa. A presença da noiva propiciava -lhe um bálsamo de suave refrigério ao coração. Em breves momentos, pa recia reconfortar-se. Tomado de bom humor, agora que as energias interiores descansavam em branda s carícias, narrou entusiasticamente os últimos sucessos. Zacarias, como observador fiel da Lei, dava-lhe razões de sobejo no caso das deliberações assumidas. A personalidade de Estevão foi discutida minuciosamente, O ex -discípulo de Gamaliel, naturalmente, esclareceu o assunto a seu modo, retratando o pregador do “Caminho” como homem inte ligente e, por isso mesmo, perigoso, em virtude das idéias revolucionárias que o seu verbo fluente propagava. Abigail e Ruth escutavam silenciosas, enquanto os dois manti nham a palestra animada. A certa altura, atenta a uma observação direta de Saulo, a jovem murmurou: — Mas não haveria um meio de modificar, ao menos, a pena arbitrada? — Que desejarias que fizéssemos? — disse o moço com ênfase. — Não é pouco havermos libertado os três cabeças mais em evidência, levando -se em conta o atrevimento de suas estranhas prédicas. Quanto a Estevão, tudo se fez para que voltasse ao aprisco, como descenden te direto das tribos de Israel. Entretanto, a rebeldia foi a sua condenação. I nsultou-me publicamente no Sinédrio, espezinhou nossos princípios mais sagrados, criticou as figuras mais representativas do farisaísmo, com ilustra ções mentirosas e ingratas. E concluía: — De mim para comigo, estou satisfeito. Considero o apedrejamento esperado um dos feitos de mais impor tância para o futuro da minha carreira. Atestará meu zelo na defesa do nosso patrimônio mais estimável. Pre cisamos considerar que Israel, nos dias mais sombrios, preferiu a emancipação religiosa à independência política. Poderíamos, porventura, expor nossos valores morais mais preciosos à influência deprimente de um aventureiro qualquer? O jovem procurou mudar o curso da conversação, enquanto Ruth mandava servir uma taça de vinho re confortante. Antes de partir, o moço t arsense convidou a noiva ao passeio habitual. Nessa noite, a Natureza parecia enfeitar -se de maravilhas. O luar, que destacava todas as flores em tons pálidos, estava saturado de perfumes deliciosos. Os dois, de mãos enlaçadas, no banco rústico, contemplav am o quadro embevecidamente. Saulo expe rimentava suave conforto. Desafogava-se. Se Jerusalém lhe obscurecia a mente num torvelinho de preocupações, aquela mansão singela da estrada de Jope parecia des carregálo de todos os desgostos, prodigalizando -lhe ao espírito enorme potencial de consolação. — Agora, minha querida, tudo está pronto — dizia solícito. — De hoje a seis dias Dalila virá buscar -te pessoalmente. Conhecerás a cidade e os meus amigos honrarão em tua alma generosa a minha feliz escolha. Estás satisfeita? — Muito — murmurava ela com ternura. — Já organizamos vasto programa recreativo. Quero levar -te a Jericó, onde pessoas de nossas relações nos esperam com imensa alegria. Em Jerusalém far-te-ei conhecer todos os edifícios mais importantes. Ficar ás deslumbrada com o Templo e com os tesouros ali encerrados pela dedicação religiosa de nossa raça. Verás a torre dos romanos. Meus conterrâneos que freqüentam a Sinagoga dos cilícios querem oferecer -te valioso mimo. Abigail extasiava-se, ouvindo-o discorrer. Aquele moço impulsivo e rude a olhos estranhos, mas afetuoso e sensível na intimidade, era justamente o seu ideal, o homem esperado pela sua alma carinhosa. — Ninguém poderá oferecer -me um presente mais precioso que o enviado por Deus à minha existênc ia, com o teu coração leal e generoso — murmurou a jovem num franco sorriso. — Ganhei muito mais — tornava o doutor de Tarso recebendo a jóia rara do teu afeto, que enriquecerá toda a minha vida. Às vezes, Abigail — continuava com o entusiasmo própr io da juventude sonhadora —, no meu idealismo de vitórias para Jerusalém sobre as grandes cidades do mundo, penso chegar à velhice como um triun fador cheio de tradições de sabedoria e de glória. Desde que te encontrei, aumentou -se-me a fé no destino; con solidei minhas esperanças, terei teu concurso na tarefa imensa que se desdobra a meus olhos. Os romanos outorgam aos triunfadores uma coroa triunfal de louros e rosas. Se um dia Jerusalém me conceder a sua coroa triunfal, não a cingirei em minha fronte, pa ra só deixá-la a teus pés como tributo de amor eterno e único. Ainda hoje — prosseguiu Saulo confiante no fu turo —, Gamaliel notificoume que vai afastar-se breve do Sinédrio, para que eu lhe suceda no prestigioso cargo. Aí tens, querida, nossa primeira v itória de maiores proporções. Tão logo Dalila volte de Tarso, poderemos mar car o dia jubiloso das núpcias. Presumo que, em te tendo sempre a meu lado, corrigirei meus impulsos, a tarefa ser -meá mais leve, a existência mais fácil e mais ditosa. O lar é u ma bênção. E nós teremos esse lar. — Nunca me senti tão venturosa — exclamou a jovem, com lágrimas de alegria. Ele acariciou-lhe as mãos e, como desejava que ela compartilhasse dos seus sentimentos mais íntimos, acres centou: — Chegarás conosco à cidade, j ustamente na véspera da morte do pregador revolucionário. O ato, como de justiça, obedecerá ao cerimonial estabelecido pelos nossos costumes e eu pretendo que assistas a ele em minha companhia. — Mas, por quê? — perguntou ela estremecendo li geiramente. — Porque lá encontraremos nossos amigos mais eminentes e desejo valer me da oportunidade para apre sentar-te, indiretamente, a todos eles. — Não haveria um meio de me poupares a esse es petáculo? — insistiu timidamente. — A morte de meu pai, no suplício, di ante da soldadesca brutal, jamais me saiu da mente. Saulo não dissimulou a contrariedade e respondeu: — Porventura não estarás compreendendo? O caso de Estevão é muito diferente. Trata-se de um homem sem significação para nós outros, que se arvorou em reformador sedicioso e insolente. Sua personalidade re presenta, de fato, a continuidade do desrespeito e do insulto à Lei de Moisés, iniciados em movimento de vastas proporções por um carpinteiro alucinado, de Na zaré. Achas, então, que se não deve punir o la drão que assalta uma residência? Não merecerão castigo os que blasfemam no santuário do Eterno? A jovem, compreendendo que desagradaria ao noivo se lhe demonstrasse divergência de opinião, acrescentou: — Vejo que tens muita razão. Não devo discutir os teus conceitos, sábios e justos. Aliás, tenho mesmo a intenção de conquistar a amizade dos teus amigos do Sinédrio, pois não perco a esperança de sua proteção para o caso de Jeziel, logo que se ofereça uma oportu nidade para novas pesquisas na Acaia. Mas ouve, Saulo: se permitires, irei quando a cerimônia estiver a findar. Está dito? Notando a boa-vontade conciliatória, o moço tar sense abriu o semblante num belo sorriso de satisfação. — Sim, ficamos de acordo. Espero, porém, que assistas a tudo com serenidade, segura de que eu só poderia tomar encargos justos e decisões estimáveis no cumprimento do dever. É lamentável que o prisioneiro se haja mostrado recalcitrante a ponto de me compelir a providências extremas. No entanto, podes crer que tudo fiz por evitar o derradeiro recurso. Empreguei todos os processos conciliatórios para dissuadi -lo de tão perigosas ilusões, mas sua conduta foi de tal modo irritante que toda transigência se tornou praticamente impossível. Trocaram-se ainda, por longo tempo, impressões af etuosas que a noite amiga guardava, solicitamente, sob o manto luminoso das estrelas. Eram juras caridosas de um amor imortal, ante a bênção de Deus, tomada como objeto mais alto de seus santificados pensamentos. projetos e esperanças de futuro. Era tarde quando Saulo se despediu, regressando a Jerusalém, de alma feliz.
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Capítulo 8
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