“O Sr. Jacob é sinceramente religioso. O que eu faço, dizia-me ele, não me surpreende. Eu faria coisas muito mais extraordinárias e não ficaria mais espantado, porque sei que Deus pode o que quiser. Só me admiro de uma coisa: é ter tido o imenso favor de ter sido o instrumento que ele escolheu. Hoje ficam admirados do que obtenho, mas quem sabe se num mês, num ano, não haverá dez, vinte, cinqüenta médiuns como eu e mais fortes que eu? O Sr. Kardec, que procura e deve procurar estudar fatos como os que aqui se passam, deveria ter vindo. Hoje, amanhã, posso perder a minha faculdade, o que para ele seria um estudo perdido; ele deve fazer o histórico de semelhantes fatos.”
OBSERVAÇÃO Sem dúvida nos teríamos sentido feliz em testemunhar os fatos relatados acima, e provavelmente teríamos ido ao campo de Châlons, se tivéssemos tido a possibilidade e se tivéssemos sido informado em tempo hábil. Só o soubemos por via indireta dos jornais, quando estávamos em viagem e confessamos não ter uma confiança absoluta em seus relatos. Teríamos muito que fazer se fosse necessário ir pessoalmente controlar tudo o que relatam do Espiritismo, ou mesmo tudo quanto nos é assinalado por nossa correspondência. Ali só podíamos ir com a certeza de não ter uma decepção, e quando o relato do Sr. Boivinet nos chegou, o campo estava interdito. Aliás, a vista desses fatos nada nos teria ensinado de novo, pois cremos compreendê-los. Teria sido simplesmente constatar a sua realidade. Mas o testemunho de um homem como o Sr. Boivinet, ao qual tínhamos mandado uma carta para o Sr.
Jacob, pedindo que nos instruísse do que teria visto, nos bastava completamente. Não houve, pois, perda para nós, senão o prazer de ter visto pessoalmente o Sr. Jacob trabalhando, o que, esperamos, tanto poderá acontecer no campo de Châlons quanto em outro lugar.
Assim, só falamos das curas do Sr. Jacob porque são autênticas. Se nos tivessem parecido suspeitas, ou eivadas pelo charlatanismo ou por uma basófia ridícula, que as tivessem tornado mais prejudiciais do que úteis à causa do Espiritismo, nós nos teríamos abstido, a despeito do que tivessem dito, como o fizemos em várias outras circunstâncias, pois não queremos passar como editor responsável por nenhuma excentricidade, nem secundar as vistas ambiciosas e interesseiras, que por vezes se ocultam sob aparências de devotamento. Eis por que somos circunspectos em nossas apreciações dos homens e das coisas, e também porque nossa Revista não se transforma em incensório em proveito de ninguém.
Mas aqui se trata de uma coisa séria, fecunda em resultados, e capital no duplo ponto de vista do fato em si e da realização de uma das previsões dos Espíritos. Com efeito, desde longa data eles anunciaram que a mediunidade curadora se desenvolveria em proporções excepcionais, de modo a chamar a atenção geral, e nós cumprimentamos o Sr. Jacob por ser um dos primeiros a dar o exemplo. Mas aqui, como em todos os gêneros de manifestações, para nós a pessoa se apaga diante da questão principal.
Desde que o dom de curar não é o resultado do trabalho, nem do estudo, nem de um talento adquirido, aquele que o possui não pode dele vangloriar-se. Louva-se um grande artista, um sábio, porque devem o que são aos próprios esforços. Mas o médium mais bem-dotado não passa de um instrumento passivo, de que os Espíritos se servem hoje e podem deixar amanhã. Que seria o Sr. Jacob se perdesse sua faculdade, que ele é prudente em prever? O que era antes: o músico dos zuavos; ao passo que, aconteça o que acontecer, sempre restará ao sábio a Ciência e ao artista o talento. Somos felizes por ver o Sr. Jacob partilhar destas idéias; por conseguinte, não é a ele que se dirigem estas reflexões.
Não temos dúvida de que ele será igualmente de nossa opinião, quando dissermos que o que constitui um mérito real num médium, o que se pode e deve louvar com razão, é o emprego que faz de sua faculdade; é o zelo, o devotamento, o desinteresse com os quais se põe a serviço daqueles a quem ela pode ser útil; é ainda a modéstia, a simplicidade, a abnegação, a benevolência que transpiram em suas palavras e que todas as suas ações justificam, porque essas qualidades lhe pertencem como coisa particular.
Assim, não é o médium que se deve pôr num pedestal, do qual amanhã poderá descer, mas o homem de bem, que sabe tornar-se útil sem ostentação e sem proveito para a sua vaidade.
O desenvolvimento da mediunidade curadora forçosamente terá conseqüências de alta gravidade, que serão objeto de um exame especial e aprofundado em próximo artigo.
Allan Kardec