2ª Parte - Cap. 8: O martírio em Jerusalém
Obedecendo às recomendações de Tiago, Paulo de Tarso hospedou-se em casa de Mnason, antes de qual quer entendimento com a igreja. O Apóstolo galileu prometeu visitá-lo na mesma noite. Pressentindo acontecimentos de importância naquela fase de sua existência, o ex-rabino aproveitou o dia tra çando planos de trabalho para os discípulos mais diretos. À noite, quando espesso manto de sombras envolvia a cidade, Tiago apareceu, cumprimentando o companheiro em atitude muito humilde. Também ele estava envelhecido, exausto, doente. O convertido de Damasco, ao con trário de outras vezes, experimentou extrema simpatia pela sua pessoa, que parecia inteiramente modificada pelos reveses e tribulações da vida. Trocadas as primeiras impressões relativamente às viagens e feitos evangélicos, o companheiro de Simão Pedro pedi u ao ex-rabino lhe marcasse lugar e hora em que pudessem falar mais intimamente. Paulo atendeu de pronto, seguindo ambos para um aposento particular. O filho de Alfeu começou explicando o motivo de suas graves apreensões. Havia mais de um ano que os rabino s Eliakím e Enoch deliberaram reviver os processos de perseguições iniciados por ele, Paulo, quando da sua movimentada gestão no Sinédrio. Alegaram que o antigo doutor incidira nos sortilégios e feitiçarias da espúria grei, comprometendo a causa do judaís mo, e não era justo continuar tolerando a situação, tão -somente porque o doutor tarsense perdera a razão, no caminho de Damasco. A iniciativa ganhara enorme popularidade nos círculos religiosos de Jerusalém e o maior instituto legislativo da raça — o Sinédrio — aprovou as medidas pro postas. Reconhecendo que a obra evangelizadora de Paulo produzia maravilhosos frutos de esperança em toda a parte, conforme as notícias incessantes, de todas as sinagogas das regiões por ele percorridas, o grande Tribunal come çou por decretar a prisão do Apóstolo dos gentios. Numerosos processos de perseguição individual, deixados a meio por Paulo de Tarso, quando de sua inesperada conversão, foram restaurados e, o que era mais grave — quando falecidos os réus, era a pena aplic ada aos descendentes, que, assim, eram torturados, humilhados, desonrados! O ex-rabino tudo ouvia calado, estupefato. Tiago prosseguia, esclarecendo que tudo fizera por atenuar os rigores da situação. Mobilizara influências políticas ao seu alcance, conseg uindo atenuar umas tantas sentenças mais iníquas. Não obstante o banimento de Pedro, procurou manter os serviços de assistência aos desvalidos, bem como a colônia de serviço, fundada por inspiração do convertido de Damasco e na qual os convalescentes e desamparados encontravam precioso am biente de atividade remunerada e pacífica. Depois de vários entendimentos com o Sinédrio, por intermédio de amigos influentes no judaísmo, teve a satisfação de abrandar o rigor das exigências a serem aplicadas no caso del e, Paulo. O ex-doutor de Tarso ficaria com liberdade de agir, poderia continuar propugnando suas convicções íntimas; daria, porém, uma satisfação pú blica aos preconceitos de raça, atendendo aos quesitos que o Sinédrio lhe apresentaria por intermédio de Tiago, que se mostrava seu amigo. O companheiro de Simão Pedro explicava que as exigências eram muito rigorosas a princípio, mas agora, mercê de enormes esforços, cingiam-se a uma obrigação de somenos. Paulo de Tarso escutava -o extremamente sensibili zado. Dono de luminoso cabedal evangélico, entendia chegado o momento de testemunhar seu devotamento ao Mestre, justamente através do mesmo órgão de persegui ção que a sua ignorância engendrara em outros tempos. Naqueles minutos rápidos, sutilizou a mnemônica e lobrigou os quadros terríveis de outrora... Velhos torturados em sua presença, para sentir o prazer da apostasia cristã, com a repetição do voto de fidelldade eterna a Moisés; mães de família arrancadas de seus lares obscuros, obri gadas a jurar pela Anti ga Lei, que renegavam o carpinteiro de Nazaré, abominando a cruz do seu martírio e ignomínia. Os soluços daquelas mulheres humildes, que abjuravam da fé porque se viam feridas no que possuíam de mais nobre, o instinto maternal, chegavam, agora, a seus ouvidos como brados de angústia, clamando resgates dolorosos. Todas as cenas antigas desdobravam -se-lhe na retina espiritual, sem omissão do mais insignificante por menor. Moços robustos, arrimos de famílias numerosas, que saíam mutilados do cárcere; jovens ‘ que pediam vingança, crianças que reclamavam os pais encarcerados. Entestando as revocações encapeladas, passou ao quadro da morte horrível de Estevão com as pedradas e insul tos do povo; reviu Pedro e João abatidos e humildes, à barra do Tribunal, como s e fossem malfeitores e crimi nosos. Agora, ali estava ele perante o filho de Alfeu, que nunca o compreendera de forma integral, a falar -lhe em nome do passado e em nome do Cristo, como a conci tá-lo ao resgate de suas derradeiras dívidas angustiosas. Paulo de Tarso sentiu que uma lágrima lhe apon tava nos olhos, sem chegar a cair. Que espécie de tor tura lhe estaria reservada? Quais as determinações da autoridade religiosa a que Tiago se referia com evidente interesse? Quando o companheiro de Simão fez uma pausa mais longa, o ex -rabino perguntou muito comovido: — Que pretendem eles de mim? O filho de Alfeu fixou nele os olhos serenos e explicou: — Depois de muito relutarem, os israelitas congre gados em nossa igreja vão pedir-te, apenas, que pagues as despes as de quatro homens pobres, que fizeram voto de nazireu, comparecendo com eles no templo, durante sete dias consecutivos, para que todo o povo possa ver que continuas bom judeu e leal filho de Abraão... À primeira vista, a demonstração poderá parecer pueri l; entretanto, colima, como vês, satisfazer a vaidade fa risaica. O ex-rabino fez um gesto muito seu, quando con trariado, e replicou: — Pensei que o Sinédrio ia exigir minha morte!... Tiago compreendeu quanto de repugnância transbor dava de semelhante obs ervação e objetou: — Bem sei que isso te repugna e, contudo, insisto para que acedas, não por nós, propriamente, mas pela igreja e pelos que de futuro nos hajam de secundar. — Isso — obtemperou Paulo, com enorme desen canto — não representa nobreza alguma. Essa exigência é uma ironia profunda e visa reduzir -nos a crianças, de tão fútil que é. Não é perseguição, é humilhação; é o desejo de exibir homens conscientes como se fossem meninos volúveis e ignorantes... Tiago, porém, tomando uma atitude carinhosa qu e o ex-rabino jamais lhe surpreendera em qualquer cir cunstâncias da vida, falou com extrema ternura fraternal, revelando-se ao companheiro surpreendido, por outro prisma: Sim, Paulo, compreendo tua justa aversão. O Sinédrio, com isso, pretende achincalhar nossas convicções. Sei que a tortura na praça pública te doeria menos; entretanto, supões que isso não represente, para mim uma dor de muitos anos?... Acreditarias, acaso, que minhas atitudes nascessem de um fanatismo inconsciente e criminoso? Compreen di, muito cedo, desde a primeira perseguição, que a tarefa de harmonização da igreja, com os judeus, estava mais particularmente em minhas mãos. Como sabes, o farisaísmo sempre viveu numa exuberante ostentação de hipocrisia; mas, con venhamos, também, que é o partido dominante, tradicio nal, das nossas autoridades religiosas. Desde o primeiro dia, tenho sido obrigado a caminhar com os fariseus muitas milhas para conseguir alguma coisa na manutenção da igreja do Cristo. Fingimento? Não julgues tal. Muitas v ezes o Mestre nos ensinou, na Galiléia, que o melhor testemunho está em morrer devagarinho, dia riamente, pela vitória da sua causa; por isso mesmo, afiançava que Deus não deseja a morte do pecador, porque é na extinção de nossos caprichos de cada dia que encontramos a escada luminosa para ascender ao seu infinito amor. A atenção que tenho dedicado aos judeus é gêmea do carinho que consagras aos gentios. A cada um de nós confiou Jesus uma tarefa diferente na forma, mas idêntica no fundo. Se muitas vezes ten ho provocado falsas interpretações das minhas atitudes, tudo isso é mágoa para meu Espírito habituado à simplicidade do ambiente galileu. De que nos valeria o conflito des truidor, quando temos grandiosos deveres a cuidar? Importa -nos saber morrer, para qu e nossas idéias se transmitam e floresçam nos outros. As lutas pessoais, ao contrário, estiolam as melhores esperanças. Criar separações e proclamar seus prejuízos, dentro da igreja do Cristo, não seria exterminarmos a planta sagrada do Evangelho por nossas próprias mãos? A palavra de Tiago toava imantada de bondade e sabedoria e valia por consoladora revelação. Os galileus eram muito mais sábios que qualquer dos rabinos mais cultos de Jerusalém. Ele, que chegara ao mundo reli gioso através de escolas famosas, que tivera sempre na mocidade, a inspiração de um Gamaliel, admirava agora aqueles homens aparentemente rústicos, vindos das choupanas de pesca, que, em Jerusalém, alcançavam inesque cíveis vitórias intelectuais, somente porque sabiam calar quando opo rtuno, aliando à experiência da vida uma enorme expressão de bondade e renúncia, à feição do Divino Mestre. O convertido de Damasco entreviu o filho de Alfeu por um novo prisma. Seus cabelos grisalhos, o rugoso e macilento rosto, falavam de trabalhos árduos e incessantes. Agora, percebia que a vida exige mais compreensão que conhecimento. Presumia conhecer o Apóstolo galileu com o seu cabedal psicológico, e, no entanto, chegava à conclusão de que apenas naquele instante pudera compreendê-lo no título que lhe competia. Quando o companheiro de Simão Pedro fez uma pausa mais longa, Paulo de Tarso contemplou-o com imensa simpatia e falou comovidamente: — Vejo que tens razão, mas a exigência requer dinheiro. Quanto terei de pagar pela sentença? Segre gado e distante do judaísmo há muitos anos, ignoro se os cerimoniais sofreram alterações apreciáveis.
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Capítulo 8
Nome do Capítulo O martírio em Jerusalém
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