Lídia e seus numerosos auxilia res, num impulso muito humano, queriam retê-lo em sua companhia, insistiam para que não prosseguisse, receosos das perseguições do farisaismo. E o Apóstolo, sereno e confiante, acentuava: — Não choreis, irmãos. Convicto estou do que me compete fazer e não devo esperar flores e dias felizes. Cumpre-me aguardar o fim, na paz do Senhor Jesus. A existência humana é de trabalho incessante e os der radeiros sofrimentos são a coroa do testemunho. Eram exortações cheias de esperanças e alegrias, por confortar os mais tímidos e renovar a fé nos corações fracos e sofredores. Dando por terminada a tarefa nas zonas de Fili pes. Paulo e os companheiros navegaram com destino a Trôade. Nesta cidade, o Apóstolo fez, com inexcedível êxito, a derradeira pregação na sétima noite de sua chegada, verificando-se o célebre incidente com o jovem Éutico, que caiu de uma janela do terceiro andar do prédio em que se realizavam as práticas evangélicas, sendo imediatamente socorrido pelo ex -rabino, que o colheu semimorto e devolveu-lhe a vida em nome de Jesus. Em Trôade, outros confrades se reuniram à pequena caravana. Atentos à recomendação de Paulo, partiram com Lucas e Silas para Assôs, a fim de contratar a preço módico algum velho barco de pescadores, porqüanto o Apóstolo preferia viajar desse modo entre as il has e portos numerosos, para despedir-se dos amigos e irmãos que por ali mourejavam. Assim aconteceu; e, enquanto os colaboradores tomavam embarcação confortável, o ex -rabino palmilhou mais de vinte quilômetros de estrada, só pelo prazer de abraçar os continuadores humildes da sua grandiosa faina apostólica. Adquirindo em seguida um barco muito ordinário, Paulo e os discípulos prosseguiram a viagem para Jeru salém, distribuindo consolações e socorros espirituais às comunidades humildes e obscuras. Em todas as praias eram gestos comovedores, adeu ses amargurosos. Em Éfeso, porém, a cena foi muito mais triste, porque o Apóstolo solicitara o comparecimento dos anciães e dos amigos, para falar -lhes particularmente ao coração. Não desejava desembarcar, no intu ito de prevenir novos conflitos que lhe retardassem a marcha; mas, em testemunho de amor e reconhecimento, a comunidade em peso lhe foi ao encontro, sen sibilizando-lhe a alma afetuosa. A própria Maria, avançada em anos, acorrera de longe em companhia de João e outros discípulos, para levar uma palavra de amor ao paladino intimorato do Evangelho de seu Filho. Os anciães receberam -no com ardorosas demonstrações de amizade, as crianças ofere ciam-lhe merendas e flores. Extremamente comovido, Paulo de Tarso pr elecionou em despedida e, quando afirmou o pressentimento de que não mais ali voltaria em corpo mortal, houve grandes explosões de amargura entre os efésios. Como que tocados pela grandeza espiritual daquele momento, quase todos se ajoelharam no tapete br anco da praia e pediram a Deus protegesse o devotado batalhador do Cristo. Recebendo tão belas manifestações de carinho, o ex -rabino abraçou, um por um, de olhos molhados. A maioria atirava -se-lhe nos braços amorosos, soluçando, beijando-lhe as mãos calosas e rudes. Abraçando, por último, à Mãe Santíssima, Paulo tomou -lhe a destra e nela depôs um beijo de ternura filial. A viagem continuou com as mesmas características. Rodes, Pátara, Tiro, Ptolemaida e, finalmente, Cesaréia. Nesta cidade, hospedaram -se em casa de Filipe, que ali fixara residência desde muito tempo. O velho compa nheiro de lutas informou Paulo dos fatos mínimos de Jerusalém, onde muito esperavam do seu esforço pessoal para continuação da igreja. Muito velhinho, o generoso galileu falou da paisagem espiritual da cidade dos rabi nos, sem disfarçar os receios que a situação lhe causava. Não somente isso constrangeu os missionários. Agabo, já conhecido de Paulo em Antioquia, viera da Judéia e, em transe mediúnico na primeira reunião íntima em casa de Filipe, formulou os mais dolorosos vaticínios. As perspectivas eram tão sombrias que o próprio Lucas chorou. Os amigos rogaram a Paulo de Tarso que não partisse. Seria preferível a liberdade e a vida a benefício da causa. Ele, porém, sempre dispost o e resoluto, referiu-se ao Evangelho, comentou a passagem em que o Mestre pro fetizava os martírios que o aguardavam na cruz e concluía arrebatadamente: — Por que chorarmos magoando o coração? Os se guidores do Cristo devem estar prontos para tudo. Por m im, estou disposto a dar testemunho, ainda que tenha de morrer em Jerusalém pelo nome do Senhor Jesus!. A impressão dos vaticínios de Agabo ainda não havia desaparecido, quando a casa de Filipe recebeu nova surpresa, no dia imediato. Os cristãos de Cesaréia levaram à presença do ex -rabino um emissário de Tiago, de nome Mnason. O Apóstolo galileu soubera da chegada do convertido de Damasco ao porto palestinense e dera -se pressa em se comunicar com ele, mediante um portador devotado à causa comum. Mnason ex plicou ao ex-rabino o motivo de sua presença, advertindo -o dos perigos que arrostaria em Jerusalém, onde o ódio sectarista esfervilhava e atingia as mais atrozes perseguições. Dadas a exaltação e a vigilância do judaísmo, Paulo não deveria procurar imediatamente a igreja, mas, hospedar -se em casa dele, mensageiro, onde Tiago iria falar-lhe em particular e assim resolverem o que melhor conviesse aos sagrados interesses do Cristianismo. Isto posto, o Após tolo dos gentios seria recebido na instituição de Je rusalém, para discutir com os atuais diretores os destinos da casa. Paulo achou muito razoáveis os cuidados e suges tões de Tiago, mas preferiu seguir os alvitres verbais do portador. Angustiosas sombras pairavam no espírito dos com panheiros do grande Apóstolo, quando a caravana, se guida de Mnason, se deslocou de Cesaréia para a capital do judaísmo. Como sempre, Paulo de Tarso anunciou a Boa Nova nos burgos mais humildes. Após alguns dias de marcha vagarosa, para que todos os trabalhos apostólicos fossem suficientemente atendidos, os discípulos do Evangelho transpuseram as portas da cidade dos rabinos, assomados de graves preocupações. Envelhecido e alquebrado, o Apóstolo dos gentios contemplou os edifícios de Jerusalém, demorando o olhar na paisagem árid a e triste que lhe recordava os anos da mocidade tumultuosa e morta para sempre. Elevou o pensamento a Jesus e pediu-lhe que o inspirasse no cumprimento do sagrado ministério.