2ª Parte - Cap. 8: O martírio em Jerusalém
— Os preceitos são os mesmos — respondeu Tiago —, já que serás obrigado a te purificares com eles e, segundo as tradições, custearás a compra de quinze ovelhas, além dos comestíveis preceituais. — É um absurdo! — objetou o Apóstolo dos gentios. — Como sabes, a autoridade religiosa exige de cada nazireu três animais para os serviços da consagração. — Dura exigência — disse Paulo comovido. — No entanto — replicou Tiago, com um sorriso —, nossa paz vale muito mais que isso e, além dela, somos obrigados a não comprometer o futuro do Cristianismo. O convertido de Damasco descansou o rosto na mão direita por longo tempo, dando a perceber a amplitude de suas meditações, e ac abou falando em diapasão que traía a sua enorme sensibilidade: — Tiago, como tu mesmo, atingi hoje um nível mais alto de compreensão da vida. Entendo melhor os teus argumentos. A existência humana é bem uma ascensão das trevas para a luz. A juventude, a p resunção de autoridade, a centralização de nossa esfera pessoal, acarretam muitas ilusões, laivando de sombras as coisas mais santas. Assiste -me o dever de curvar-me às exigências do judaísmo, conseqüentes de uma perseguição por mim próprio iniciada em outros tempos. Deteve-se, evidenciando dificuldade para confessar -se plenamente. Mas tomando uma atitude mais humilde, como quem não encontra outro recurso, prosseguiu quase tímido: — Nas minhas lutas, nunca me presumi vítima, considerando -me sempre como antagonista do mal. Só Jesus, em sua pureza e amor imaculados, podia alegar a condição de anjo vitimado por nossa maldade sombria; quanto a mim, por mais que me apedrejassem e ferissem, sempre julguei que era muito pouco em relação ao que me competia sofrer n os justos testemunhos. Agora, porém, Tiago, estou preocupado com um pequenino obstáculo. Como não ignoras, tenho vivido absolutamente do meu trabalho de tecelão e, presentemente, não dispo nho de dinheiro com que possa prover às despesas em perspectiva... Seria a primeira vez que houvesse de re correr à bolsa alheia, quando a solução do assunto depende exclusivamente de mim... Suas palavras demonstravam acanhamento, aliado à tristeza comumente experimentada nos dias de humi lhação e de infortúnio. Ante aqu ela expressão de renúncia, Tiago, num movimento de grande espontaneidade, tomou -lhe a mão e beijou-a murmurando: — Não te aflijas: sabemos em Jerusalém da exten são de teus esforços pessoais e não seria razoável que a igreja se desinteressasse dessas imposições que se não justificam ... Nossa instituição pagará todas as despesas. Não é pouco concordares com o sacrifício. Conversaram ainda longo tempo, com relação aos problemas interessantes à propaganda evangélica e, no dia seguinte, Paulo e os companheiro s compareceram na igreja de Jerusalém, recebidos por Tiago acompanhado de todos os anciães judeus, simpatizantes do Cristo e seguidores de Moisés, congregados para ouvi -lo. A reunião começou com rigoroso cerimonial, per cebendo o ex-rabino a extensão das influências farisaicas no instituto que se destinava à sementeira luminosa do Divino Mestre. Seus companheiros, acostumados à inde pendência do Evangelho, não conseguiam ocultar a sur presa; mas, com um gesto, o convertido de Damasco fez que todos permanece ssem silenciosos. Convidado a explicar-se, o ex-rabino leu um longo relatório de suas atividades junto dos gentios, havendo -se com muita ponderação e inexcedível prudência. Os judeus, que, contudo, pareciam definitivamente instalados na igreja, mantendo as velhas atitudes dos mestres de Israel, pelo seu vogal Cainan, formularam ao ex-doutor conselhos e censuras. Alegaram que tam bém eram cristãos, mas, rigorosos observadores da Lei Antiga; que Paulo não deveria trabalhar contra a circuncisão e lhe cumpria dar ampla satisfação de seus atos. Com profunda admiração dos companheiros, o ex -rabino mantinha-se calado, recebendo as objurgatórias e repreensões com imprevista serenidade. Por fim, Cainan fez a proposta a que Tiago se re ferira na véspera. A fim de satisfazer a exigência do Sinédrio, o tecelão de Tarso deveria purificar -se no Templo, com quatro judeus paupérrimos que haviam feito voto de nazireus, ficando o Apóstolo dos gentios obrigado a custear todas as despesas. Os amigos de Paulo surpreenderam -Se, ainda mais, quando o viram levantar-se na assembléia preconceituosa e confessar -se pronto a atender a íntimação. O representante dos anciães discorreu, ainda, pedante e demoradamente sobre os preceitos da raça, ouvido por Paulo com beatifica paciência. Regressando à casa de Mnason, o ex -rabino procurou informar os companheiros das razões da sua atitude. Ha bituados a acatar-lhe as decisões confiadamente, dispen saram-se de perguntas quiçá supérfluas, mas desejavam acompanhar o Apóstolo ao Templo de Jerusalé m, para experimentarem alguma coisa da sua renúncia sincera, com relação ao futuro do evangelismo. Paulo frisou a conveniência de seguir só, mas Trófimo, que ainda se demorava alguns dias em Jerusalém, antes de regressar a Antioquia, insistiu e conseguiu que o Apóstolo lhe aceitasse a companhia. O comparecimento de Paulo de Tarso no Templo, acompanhando quatro irmãos de raça, em mísero estado de pobreza, a fim de com eles purificar -se e pagar-lhes as despesas do voto, causou enorme sensação em todos os círculos do farisaísmo. Acenderam -se discussões violentas e rudes. Assim que viu o ex-rabino humilhado, o Sinédrio pretendia impor sentenças novas. Já não lhe bastavam as imposições anteriores - No segundo dia da santificação, o movimento popular crescera no Templo em proporções assustadoras. Todos queriam ver o célebre doutor que enlouquecera às portas de Damasco, devido ao sortilégio dos galileus. Paulo observava a eferves cência do cenário em torno da sua personalidade e pedia a Jesus não lhe faltasse com a s energias suficientes. No terceiro dia, à falta de outro pretexto para condenação maior, alguns doutores alegaram que Paulo tinha o atrevimento de se fazer acompanhar aos lugares sagrados por um homem de origem grega, estranho às tradições israelitas. Tró fimo nascera em Antioquia, de pais gregos, tendo vivido muitos anos em Éfeso; entretanto, apesar do sangue que lhe corria nas veias, conhecia os preceitos do judaísmo e portava -se, nos recintos consagrados ao culto, com inexcedível respeito. As autoridades , contudo, não quiseram ponderar tais particularidades. Era pre ciso condenar Paulo de Tarso novamente, haviam de fazê -lo a qualquer preço. O ex-rabino percebeu a trama que se delineava e rogou ao discípulo não mais o acompanhasse ao monte Moriá, onde se p rocessavam os serviços religiosos. O ódio farisaico, porém, continuava a fermentar. Na véspera do último dia da purificação judaica, o convertido de Damasco compareceu às cerimônias com a mesma humildade. Logo, porém, que se colocou em posição de ôrar ao l ado dos companheiros, alguns exal tados o cercaram com expressões e atitudes ameaça doras. — Morte ao desertor!... Pedras à traição! gri tou uma voz estentórica, abalando o recinto. Paulo teve a impressão de que esses brados eram a senha para maiores violências, porque, imediatamente, estourou uma gritaria infernal. Alguns judeus frementes agarraram -no pela gola da túnica, outros travaram -lhe os braços, violentamente, arrastando -o para o grande pátio reservado aos movimentos do grande público. — Pagarás teu crime!... diziam uns. — É necessário que morras! Israel se envergonha de tua presença no mundo! — bradavam outros mais furiosos. O Apóstolo dos gentios entregou -se sem a mínima resistência. Num relance, considerou os objetivos profundos de sua vind a a Jerusalém, concluindo que não fora convocado tão -só para a obrigação pueril de acom panhar ao Templo quatro irmãos de raça, desolados na sua indigência. Cumpria-lhe afirmar, na cidade dos ra binos, a firmeza de suas convicções. Entendia, agora, a sutil eza das circunstâncias que o conduziam ao tes temunho. Primeiramente, a reconciliação e o melhor conhecimento de um companheiro como Tiago, obede cendo a uma determinação que lhe parecera quase infantil; em seguida, o grande ensejo de provar a fé e a consagração de sua alma a Jesus-Cristo. Com enorme surpresa, tomado de profundas e dolorosas reminiscências, notou que os israelitas exaltados deixavam -no à mercê da multidão furiosa, justamente no pátio onde Estevão havia sido apedrejado vinte anos at rás. Alguns populares desvairados arrebataram -no à força, prendendo-o ao tronco dos suplícios. Engolfado nas suas lem branças, o grande Apóstolo mal sentia os bofetões que lhe aplicavam. Rápido, arregimentou as mais singulares reflexões. Em Jerusalém, o M estre Divino padecera os martírios mais dolorosos; ali mesmo, o generoso Jeziel se imolara por amor ao Evangelho, sob os golpes e chuf as da populaça. Sentiu -se então envergonhado pelo suplício infligido ao irmão de Abigail, oriundo de suas próprias iniciativas. Somente agora, atado ao poste do sacrifício, compreendia a extensão do sofrimento que o fanatismo e a ignorância causavam ao mundo. E refletiu: — O Mestre é o Salvador dos homens e aqui padeceu pela redenção das criaturas. Estevão era seu discípulo, devotado e amoroso, e aqui experimentou. igualmente, os suplícios da morte. Jesus era o Filho de Deus, Jeziel era seu Apóstolo. E ele? Não estava ali o passado a reclamar resgates dolorosos? Não seria justo padecer muito, pelo muito que martirizara os outros? Era razoável que sentisse alegria naqueles instantes amargos, não só por tomar a cruz e seguir o Mestre bem -amado, como por ter tido o ensejo de sofrer o que Jeziel havia experimentado com grande amargura. Essas reflexões proporcionavam -lhe algum consolo. A consciência sentia se mais leve. Ia dar testemunho da fé, em Jerusalém, onde se encontrara com o irmão de Abigail; e, depois da morte, podia aproximar -se do seu coração generoso, falando-lhe com júbilo dos seus pró prios sacrifícios.
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Capítulo 8
Nome do Capítulo O martírio em Jerusalém
Parte Segunda Parte