XV
A Idade madura é, em realidade, a idade de ouro da vida, porque é a época da colheita, o messidor, em que a maturação se opera no coração, no espírito, em todo o ser. As exuberâncias da mocidade são aclaradas, à semelhança das aléias, das abertas que o lenhador traçou na opulência da floresta. As ilusões e os sonhos brilhantes se desvanecem, sob a bruma dourada que outrora recobria as coisas; vêem-se aparecer as linhas graves, as formas austeras da realidade. Os que nos rodeiam não têm mais na fronte a auréola poética que nossa imaginação criadora lhes havia colocado; o próprio amor nos revelou alguns de seus desfalecimentos, talvez mesmo traições; enfim, demonstrou-nos que a própria virtude não é, por vezes, mais que uma palavra. Nesse período da vida, uma grande desgraça ameaça a maior parte dos homens: o cepticismo. Infeliz daquele que se deixa invadir por essa larva malsã, que neutraliza todas as forças da maturidade! É, então, bem ao contrário, que o homem deve redobrar o ânimo, revelar em si o santo entusiasmo da mocidade. Felizes daqueles cujo coração guardou a fé dos primeiros dias! Sem dúvida, a idade madura é menos prática, menos primaveril que a adolescência; as flores decaíram do seu colorido e perfume; mas os frutos, igualando-se aos dos ramos de uma árvore, começam a aparecer na extremidade da Alma. Na mocidade, sente-se o homem engrandecer; sente-se amadurecer no meio da vida, e é esta uma das mais nobres e mais produtivas paragens da evolução humana. A idade madura é, por excelência, o período da plenitude; é o rio que corre com toda a força e espalha pelas campinas a riqueza e a fecundidade. Nas Almas evoluídas, ricas do capital acumulado nas vidas anteriores, as grandes obras são escritas ou esboçadas na mocidade; o gênio é adolescente, podemo-nos exprimir assim. A maior parte dos grandes homens da História sentiu desde sua primeira mocidade subir ao horizonte do pensamento a estrela que um dia lhes iluminaria a glória e a imortalidade. Cristóvão Colombo era ainda criança, e já o visitavam as visões do Novo Mundo; Rafael era imortal antes de ter atingido a segunda mocidade. Milton contava 12 anos de idade, quando germinou em seu pensamento a primeira idéia do Paraíso Perdido. Mas, para a maioria dos homens – porque o gênio é a exceção – o talento, só, é a regra ordinária. É na maturidade da vida, no meio da floresta, como se exprimia Dante, que se realizam, tanto os grandes pensamentos, quanto as grandes obras. A arte da vida consiste em preparar a idade madura, qual o trabalhador prepara, apressadamente, a colheita. Dever-se-ia fazer durar muito tempo, bastante tempo esse período medieval de nossa existência, em que a vida perispiritual esplende em sua pujança, possui todo o poder radiante e vibratório; por isso, torna-se necessário conservar o mais tempo possível um alimento essencial de ação e de trabalho: sangue puro, sistema nervoso disciplinado, corpo vigoroso e são – essa mens sana in corpore sano de que fala o sábio e que é o equilíbrio perfeito da vida física, intelectual e moral. Compreende-se, então, quanto à harmonia e a ordem do ser humano são coisas difíceis de organizar e conquistar. Quantas mocidades brilhantes e cheias de promessa caem em Abril, a exemplo do que ocorre com as flores! O grande inimigo da idade madura, e assim o da vida inteira, é o egoísmo. O homem se diminui e se mata pela necessidade de gozar. As paixões carnais e cerebrais calcinam o homem pelas duas extremidades, se assim se pode dizer: esvaziam o cérebro e o coração. O sangue não rejuvenesce com presteza necessária a retardar a velhice; e é assim que, antes do prazo real, a morte chega. É preciso dar para reaver, e o sacrifício se torna elemento conservador, pois, diz o Mestre: “aquele que tem muito cuidado em guardar a vida, por essa mesma razão a compromete e perde”. “Não há ninguém que viva tanto na Terra, quanto aquele que está sempre prestes a morrer.” “Eles te chamam, tu foges – diz o poeta à morte – eu quero viver, tu vens.” A idade madura é o verão de nossa existência terrena; a exemplo da estação estival, é feita de ardores, cheia de luz; o nascer do sol é logo manhã; o poente é radioso e as noites alumiadas suntuosamente pelas estrelas. Sente-se aí a criatura feliz com o viver; tem a consciência de sua força, e dela sabe servir-se. É quando atinge física e moralmente o ponto culminante da Beleza. Porque há uma beleza na idade madura, e esta é a verdadeira. Um de nossos erros está em crer que a beleza da mocidade é a única senhora da vida; falta-lhe, entretanto, o elemento principal: a força, resultante do equilíbrio geral e harmonioso do ser. A idade mediana é a idade da vitória; a adolescência revela a rosa e o mirto; à maturidade da vida se reservam os lauréis. O trabalho, a inspiração e o amor reúnem-se para lhe tecer as coroas: é a hora solene em que os troféus vêm colocar-se a seus pés. Todas as divindades favoráveis lhe sorriem, todos a favorecem. A Fortuna viril e o gênio tutelar da Pátria convidam-na a sacrificar em seus altares. A velhice é o outono da vida; no último declínio, a vida está no inverno. Somente com o pronunciar esta palavra – velhice –, sente-se já o frio que sobe ao coração; a velhice, segundo o modo de ver comum dos homens, é a decrepitude, a ruína; ela recapitula todas as tristezas, todos os males, todas as dores da vida; é o prelúdio melancólico e aflitivo do último adeus. Há aí um grave erro. Em regra geral nenhuma fase da vida humana é inteiramente deserdada dos dons da Natureza, e muito menos das bênçãos de Deus. Por que o derradeiro quartel da existência, o que precede imediatamente a coroação do destino, será mais triste que os outros? Seria uma contradição – e esta não pode existir na obra divina – onde tudo é harmonia comparável à da composição viva de um concerto impecável. Ao contrário, a velhice é bela, é grande, é santa. Vamos estudá-la um instante, à luz pura e serena do Espiritualismo. Cícero escreveu um eloqüente tratado sobre a velhice. Sem dúvida, tornamos a encontrar nessas célebres páginas alguma coisa do gênio harmonioso desse grande homem; é, no entanto, uma obra puramente filosófica, e que só contém vistos frios, uma resignação estéril e abstrações puras. Precisamos colocar-nos em outro ponto de vista, para compreender e admirar a peroração augusta da existência terrestre. A velhice recapitula todo o livro da vida; resume os dons das outras épocas da existência, sem as ilusões, nem as paixões, nem os erros. O ancião viu o nada de tudo quanto deixa; entreviu a certeza de tudo o que há de vir; é um vidente. Sabe, crê, vê, espera. Em torno da fronte, coroada de cabeleira branca qual a faixa hierática dos antigos pontífices, paira majestade sacerdotal. À falta de reis, entre certos povos, eram os velhos que governavam. A velhice é ainda, e apesar de tudo, uma das belezas da vida, e certamente uma de suas mais altas harmonias. Diz-se muitas vezes: que belo velho! Se a velhice não tivesse estética especial, por que tal exclamação? Entretanto, é preciso não esquecer de que, em nossa época, “há – já o dizia Chateaubriand – muitos velhos, o que não é a mesma coisa, e – poucos anciães!” O ancião, com efeito, é bom, indulgente, estima e encoraja a mocidade; seu coração não envelheceu. Os velhos, porém, são ciumentos, malévolos e severos; e, se nossas gerações novas perdem o culto de outrora pelos antepassados, não é, precisamente, porque os velhos deixaram de ter a alta serenidade, a benevolência amável que fazia, primitivamente, a poesia dos antigos lares? A velhice é santa, pura quanto à primeira infância; por isso, aproxima-se de Deus e vê mais claro e mais longe nas profundezas do Infinito. Ela é, em realidade, um começo de desmaterialização. A insônia, característico ordinário dessa idade, disso oferece a prova material. A velhice assemelha-se à vigília prolongada, à vigília da eternidade, e o velho é uma espécie de sentinela avançada, na extrema fronteira da vida; já tem um pé na terra prometida e vê a outra margem, a segunda vertente do destino. Daí essas ausências estranhas, essas distrações prolongadas que costumamos tomar por enfraquecimento mental e que são, em realidade, explorações momentâneas no Além, isto é, fenômenos de expatriação passageira. Eis o que nem sempre se compreende. A velhice, tem-se dito muitas vezes, é a tarde da vida, é a noite. A tarde da vida, em verdade; mas, há tardes belas e poentes com reflexos de apoteose. É a noite; mas, a noite é tão bela, com o seu ornato de constelações! Igual à noite, a velhice tem suas vias-lácteas, suas estradas brancas e luminosas, reflexo esplêndido de longa vida, cheia de virtude, de bondade, de honra! A velhice é visitada pelos Espíritos do Invisível, tem iluminações instintivas; um dom maravilhoso de adivinhação e profecia; é a mediunidade permanente, e seus oráculos são os ecos da voz de Deus. Eis por que são duplamente santas as bênçãos do ancião. Devem-se guardar no coração os últimos transportes do ancião que morre qual o eco longínquo de uma voz amada de Deus e respeitada pelos homens. A velhice, quando é digna e pura, assemelha-se ao nono livro da Sibila que, por si só, vale o preço de todos os outros, porque os recapitula e, resumindo todo o destino humano, anula os outros livros. Prossigamos nossa meditação sobre a velhice e estudemos o trabalho interior que nela se estabelece. “De todas as histórias – diz-se – a mais bela é a das Almas.” Isso é verdade. É belo penetrar nesse mundo interior, e surpreender as leis do pensamento, os movimentos secretos do amor. A Alma do ancião é uma cripta misteriosa, esclarecida pela alba inicial do sol do outro mundo. De igual forma que as antigas iniciações se davam nas salas profundas das pirâmides, longe do olhar e do ruído dos mortais, abstratos e inconscientes, paralelamente, na cripta subterrânea da velhice dão-se as iniciações sagradas, que preludiam as revelações da morte.
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Título A lei circular (a vida; as idades da vida; a morte)
Parte Terceira
Título da Parte A lei circular – A missão do século XX