XV
A obliteração do passado, entretanto, não é, nem absoluta, nem definitiva. O perispírito, que registrou todos os conhecimentos, todas as sensações, todos os atos, acorda; sob a influência do hipnotismo, as vozes profundas do passado se fazem ouvir Assemelhamo-nos às árvores milenárias das florestas. Seus lustros e decênios estão inscritos nos círculos concêntricos da casca secular; assim, cada idade de nossas existências sucessivas deixa uma zona inalterável sobre o perispírito, que retraça fielmente os matizes mais imperceptíveis do passado e os atos mais aparentemente apagados da vida mental e de nossa consciência. Mas é notadamente à hora da morte que o perispírito, prestes a desprender-se, sente despertar na memória as visões adormecidas das existências transatas. Atesta-o a experiência de cada dia. Por um médico amigo, ouvimos dizer que, em sua mocidade, estando a ponto de afogar-se, momento em que começava a asfixia, todos os quadros de sua vida se desenrolaram no pensamento em sucessão retrógrada, com pormenores, e acompanhados de sensação de bem ou de mal, em cada um dos atos de sua vida inteira. Era o julgamento espiritual que começava. Esse julgamento sabe-se, não é mais que o balanço instantâneo da consciência, que faz pronunciemos, nós mesmos, o veredicto que nos fixa a sorte no novo mundo onde vamos ingressar. Agora que conhecemos a lei da existência e a doutrina científica da encarnação, ser-nos-á mais fácil compreender as vicissitudes da viagem terrestre, as idades pelas quais passamos e o papel que cada degrau da vida humana vem ter na economia harmoniosa do seu conjunto. Aparecer-nos-ão, assim, a adolescência, a idade madura e a velhice sob o verdadeiro aspecto; debaixo dessa luz elevada do Espiritualismo, saberemos melhor apreciar e compreender. Morrer para reviver, reviver para morrer e para viver ainda, tal é a lei única e universal. O nascimento e a morte são os pórticos luminosos ou obscuros, sob os quais é preciso passemos, para entrar no templo do destino. Fato estranho! Essa ciência profunda da origem das coisas, essa gênese do ser, essa lei do destino, a Antigüidade as conhecia e as compreendia infinitamente melhor que nós outros. O que mal começamos a restabelecer e provar cientificamente, já o sabia, por intuição e iniciação, a Grécia, o Egito, o Oriente. Formava o fundo dos mistérios Isicos e de Elêusis, espécie de representação dramática da reencarnação das Almas, da sua entrada no Hades, depuração e transmigração sucessivas. Essas festas duravam três dias e traduziam, em uma trilogia comovente, todo o mistério deste mundo e do Além. No fim das iniciações solenes, os sábios eram sagrados por toda a vida, e os povos, a quem só se deixava ver a parte simbólica e hieroglífica de tais verdades esotéricas, pressentiam-nas, sob o revestimento do símbolo, e guardavam assim o verdadeiro sentido da vida. Hoje, esse sentido, nós o perdemos. O Cristianismo primitivo, o de Jesus e o dos Apóstolos, possuía-o ainda. A partir do dia em que o espírito grego, em sua sutileza, criou a Teologia, o senso esotérico desapareceu e a virtude secreta dos ritos hieráticos evaporou-se, qual se fosse a virtude de um sal insípido. A escolástica sufocou a primeira revelação sob suas montanhas de silogismos e argumentos especiosos e sofísticos. A mitologia pagã possuía, no mais elevado grau, a inteligência das origens e a noção da gênese vital. Sob a forma de mitos poéticos, transpirava a verdade inicial, tal qual sob a casca da árvore se revela a seiva da vida. É à luz do Espiritualismo que desejo estudar as diversas fases da vida humana, ligando-as e comparando-as às estações alternadas que se sucedem no tempo. Igual a Maurice de Guérin, o iluminado e iniciado que morreu jovem, tal como ocorre a todos “os amados dos deuses”, queríamos poder também “penetrar os elementos interiores das coisas, remontar o raio das estrelas e a corrente dos rios e da vida, até ao imo dos mistérios de sua geração; ser admitidos, enfim, pela grande – Natureza, no mais retirado de suas divinas moradas, isto é, ao ponto de partida da vida universal. Lá nos surpreenderia, certamente, a causa primeira do movimento, e ouviríamos o primeiro cântico dos seres, em sua matinal frescura”. Esses dons intuitivos são, em certos homens, uma das formas mais elevadas da mediunidade. A mediunidade, pode-se dizer, é una em seu princípio e multiforme em suas manifestações: é a verdadeira iniciação íntima, o misterioso idioma com que o mundo superior se comunica com a Alma, com o pensamento daqueles que escolheu para correspondentes na Terra. Meditemos, pois, a essa luz e nessas disposições, sobre o mistério da vida humana e as harmonias secretas que presidem às suas fases sucessivas e às diferentes idades, verdadeiras estações da Alma, que dão, cada uma por sua vez, suas flores e seus frutos. Os poetas têm cantado a mocidade com a opulência de seus dons, o brilho de suas cores, os surtos de sua força, o encanto de sua graça e de sua beleza... “A mocidade é semelhante às florestas – diz ainda Maurice de Guérin, em seu imortal Centauro –, às florestas verdejantes, atormentadas pelos ventos; ela mostra, por todos os lados, as ricas dádivas da vida; profundo murmúrio penetra sempre em sua folhagem.” A imagem é bela, e bela principalmente pela sua justeza e verdade. O que caracteriza a mocidade é a opulência, a plenitude da vida, a superabundância das coisas, o impulso para o futuro. A dedicação, a necessidade de amar, de nos comunicarmos, caracteriza esse período da vida em que a Alma, novamente ligada a um corpo cujos elementos são novos e fortes, se sente capaz de empreender vasta carreira e se promete a si mesma grandes esperanças. A mocidade tem capital importância, porque é a primeira orientação para o destino; nela o esquecimento do passado é completo; este não existe mais, e todas as suas potências estão voltadas para o futuro. Eis por que os moralistas e os educadores concentraram sua experiência e seus esforços nesse prefácio da vida humana, do qual dependerá todo o livro. “A esperança da seara está na semente”, dizia Leibniz; a promessa dos frutos está igualmente contida no sorriso das flores. O Cristianismo monacal e medieval falseou completamente a noção da vida e da educação. Preconizando a fealdade física e o desprezo do corpo, não compreendeu que a Alma talha seu corpo, tal qual Deus forma a Alma, e que o corpo deve trazer a assinatura de ambos, firma que deve ser a assinatura da Beleza. Enquanto o nosso século ou o que se seguir não tiver corrigido esse erro, nada terão feito para o verdadeiro progresso do mundo. Embelezem os corpos, se quiserem semear as Almas e aplainar o caminho do destino. Não esqueçais, ó futuros educadores de povos, que a fealdade é um elemento mórbido. Torna-se, pois, necessário, refazer completamente a educação da mocidade, se desejarmos acelerar as vitórias e o progresso do século por vir. É preciso que tudo em torno dessa juventude: homens e coisas, artes, ciências, literatura, tudo lhe fale de grandiosidade, nobreza, força, glória e beleza. Quando a mocidade antiga ia concorrer anualmente às festas gloriosas da Olimpíada, desde que punha o pé na cidade célebre, era empolgada pela magia fascinadora da Beleza. Os edifícios, com sua impecável simetria; o Fórum, com suas soberbas estátuas, representando ora a formosura de Hércules, ora a de Apolo; o concurso religioso do povo; a majestade dos templos; a harmoniosa organização da festa; as coroas de mirto e louro, que faziam já recender o orgulho da vitória; tudo falava aos efebos vindos das extremidades da Ática para lutar no stadium: “Ó jovens, sede felizes, sede grandes, sede belos, sede fortes!” Um pouco mais além, no santuário de Olímpia, Zeus de Fídias, radiante de imortal beleza, consagrava, com seu gesto divino, essa lição solene e harmoniosa das coisas. É preciso ressuscitar essa disciplina da Antigüidade sagrada, se quisermos refazer a juventude e a força da Humanidade. Tudo repousa hoje na ciência oficial – para método, na democracia – para princípio social. Eis precisamente que ambas estão ameaçadas. A ciência materialista esvai-se na dissecação e na análise; decompõe em lugar de criar, disseca em lugar de agir. Por outra parte, a democracia, em suas obras vivas, traz já os germens da decadência. Preconiza a mediocridade em todos os gêneros; proscreve o gênio e desconfia da força; o século XX começou com esse balanço intelectual e moral, impotente e doloroso. O erro foi tomar a ciência por ideal e a democracia por fim, enquanto que ambas são meios, apenas. A mocidade de amanhã deverá reagir vigorosamente contra essas duas idolatrias; – a de hoje já começa a fazê-lo. Há, entre os nossos jovens, alguns Espíritos de elite, iniciados, esclarecidos da primeira hora, que desbravam o caminho e preparam o êxodo e a marcha do Espírito para o futuro. São os espiritualistas de bom quilate, os que sabem que lá, onde sopra o Espírito, é que está a verdadeira bondade. Será a divisa da legião nova, isto é, da mocidade livre, liberta das peias de falsas disciplinas, da mocidade que se interroga e se ausculta a si própria, que ouve as vozes íntimas e procura compreender seu destino, estudando o mistério e a lei da evolução. Será o “reino do Espírito” a que as Almas amantes da Altura aspiram. Certamente, o fim ainda está longe de ser atingido; é preciso pulverizar muitos ídolos, cujo pedestal é rebelde ao martelo do demolidor; entretanto, tudo nos orienta para esse termo, entrevisto pelos pensadores, para além dos horizontes de nossa idade: uma força para aí nos conduz, qual impele um batel o vento do mar largo; e esperamos, antes de morrer, poder saudar de longe a terra prometida, que o sol futuro iluminará com sua glória matinal e suas fecundas claridades.
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Título A lei circular (a vida; as idades da vida; a morte)
Parte Terceira
Título da Parte A lei circular – A missão do século XX