As transformações, ou melhor, as transfigurações operadas nas faculdades da Alma, pela velhice, são admiráveis. Esse trabalho interior resume-se em uma única palavra: a simplicidade.
A velhice é eminentemente simplificadora de tudo. Simplifica, a princípio, o lado material da vida; suprime todas as necessidades irreais, as mil necessidades artificiosas que a mocidade e a idade madura nos tenham criado e que faziam, de nossa existência complicada, verdadeira escravidão, servidão, tirania. Já o dissemos acima: – é um começo de espiritualização.
Dá-se o mesmo trabalho de simplificação na inteligência. As coisas adquiridas tornam-se mais transparentes; no fundo de cada palavra encontra-se a idéia, entrevê-se Deus.
O ancião tem uma faculdade preciosa: a de esquecer. Tudo que lhe foi fútil, supérfluo na vida, apaga-se; só conserva na memória, qual o fundo de um cadinho, o que foi substancial.
A fronte do velho não tem mais a atitude altiva e provocadora da mocidade, a da idade viril; ela pende, sob o peso do pensamento, lembrando um fruto maduro.
O ancião curva a testa e inclina-se sobre o coração. Procura converter em amor tudo quanto lhe resta de faculdades, de vigor, de lembranças. A velhice não é uma decadência: é realmente um progresso. Caminhada avante para o termo; e esse título é uma das bênçãos do Céu.
A velhice é o prefácio da morte; é o que a torna santa, igual à vigília solene que faziam os iniciados antigos, antes de levantar o véu que cobria os mistérios. A morte é, pois, uma iniciação.
Todas as religiões e todas as filosofias têm tentado explicar a morte; bem poucas lhe têm conservado o verdadeiro caráter.
O Cristianismo divinizou-a; seus santos encararam-na nobremente, seus poetas cantaram-na por uma libertação. Entretanto, os santos do Catolicismo só viram nela as exonerações da servidão da carne, o resgate do pecado, e, por isso mesmo, os ritos funerários da liturgia católica espalham uma espécie de terror sobre essa peroração, aliás, tão natural, da existência terrestre.
A morte é simplesmente um segundo nascimento; deixamos o mundo pela mesma razão por que nele entramos, segundo a ordem da mesma lei.
Algum tempo antes da morte, um trabalho silencioso se executa. A desmaterialização já está começada. Poderiam verificá-la por certos sinais, quantos rodeiam o moribundo, se não estivessem distraídos pelos fatos externos. A moléstia goza aqui de papel considerável. Ela acaba em alguns meses, em algumas semanas, em alguns dias, apenas, o que o lento trabalho da idade havia preparado: é a obra de “dissolução” de que fala o Apóstolo Paulo. Essa palavra dissolução é muito significativa: indica nitidamente que o organismo se desagrega e que o perispírito se “desliga” do resto da carne em que estava envolvido.
Que se passou nesse momento supremo, a que todas as línguas chamam “agonia”, isto é, o último combate? Pressente-se, adivinha-se.
Um grande poeta moribundo traduziu tal instante solene neste verso:
“É este o combate do dia e da noite.”
Com efeito, a Alma entra em um estado crepuscular, está no limite extremo, na fronteira dos dois mundos, e é visitada pelas visões iniciais daquele em que vai entrar. O mundo que deixa envia-lhe os fantasmas da lembrança e todo um cortejo de Espíritos lhe aparece do lado da aurora.
Ninguém morre só, pela mesma forma que ninguém nasce só. Os invisíveis que o conheceram, que o amaram, que o assistiram aqui, em nosso orbe, vêm ajudar o moribundo a desembaraçar-se das últimas cadeias do cativeiro terrestre.
Nessa hora solene, as faculdades aumentam; a Alma, já meio desprendida, dilata-se; começa a entrar em sua atmosfera natural, a retomar à vida vibratória normal, e é por isso que, nesse momento, se revelam, em alguns agonizantes, fenômenos curiosos de mediunidade.
A Bíblia está cheia dessas revelações supremas. A morte do patriarca Jacó é o tipo perfeito da desmaterialização e de suas leis. Os doze filhos estão reunidos em torno do leito, formando uma viva coroa funerária. O ancião recolhe-se e, depois de reconstituir o passado, as lembranças, profetiza a cada um deles o futuro da família e de sua raça.
A vista se lhe estende mais longe ainda: percebe na extremidade dos tempos aquele que deve um dia recapitular toda a mediunidade secular do velho Israel: o Messias, e mostra, por último rebento de sua raça, aquele que resumirá toda a glória da posteridade de Jacó.
Nenhum Faraó, em seu orgulho, morreu com tanta grandeza quanto esse velho obscuro e ignorado, que expirava a um canto da terra de Gessen.
Voltemos ao ato da morte. A desmaterialização está completa; o perispírito se desprende do invólucro carnal, que vive ainda algumas horas, talvez, de uma vida puramente vegetativa. Assim, os estados sucessivos da personalidade humana desenrolam-se em ordem inversa àquela que preside ao nascimento. A vida vegetativa, com que o ser havia começado no seio maternal, é agora a última a extinguir-se; a vida intelectual e a vida sensitiva são as duas primeiras que partem.
Que se passa então? O Espírito, isto é, a Alma e seu envoltório fluídico e, por conseqüência, o eu leva a última impressão moral e física que teve na Terra, e a conserva durante um tempo mais ou menos prolongado, conforme o grau respectivo de sua evolução. Eis por que convém rodear a agonia dos moribundos de palavras doces e santas, de pensamentos elevados, porque são esses últimos gestos, essas últimas imagens que se imprimem nas folhas do livro subliminal da consciência; é a linha última que o morto lerá desde sua entrada no Além, ou antes, desde quando tiver consciência de seu novo modo de ser.
A morte é, pois, em realidade, uma passagem, uma transição e uma translação. Se devermos tomar à vida moderna uma imagem, comparemo-la a um túnel. Com efeito, a Alma avança no desfiladeiro da morte, mais ou menos lentamente, segundo seu grau de desmaterialização e espiritualidade.
As Almas superiores, que sempre viveram nas altas esferas do pensamento e da virtude, atravessam essa obscuridade com a rapidez do trem expresso que desemboca, em um instante, na plena luz do vale, mas é esse um privilégio de pequeno número de Espíritos evoluídos; são os eleitos e os sábios.
Não falaremos aqui dos criminosos, dos seres animalizados, de instintos grosseiros, que viveram, ou antes, vegetaram toda uma existência nos pântanos do vício e na enxurrada do crime. Para estes é a noite, a noite cheia de terríveis pesadelos. Temos dificuldade, entretanto, em crer que as fronteiras do Além e os caminhos da vida errática estejam povoados desses seres terríveis a que os ocultistas chamam elementais. Só se poderiam ver aí símbolos e imagens, reflexos, de paixões, vícios, crimes que os perversos cometeram na Terra.
Encaremos aqui, apenas, as vidas ordinárias, as existências que seguem tranqüilamente as fases lógicas do seu destino. É a condição comum da maior parte dos mortais.
A Alma entrou na sombria galeria: aí fica em obscuridade, ou antes, em uma penumbra próxima da luz. É o crepúsculo do Além. Os poetas, com muita felicidade, têm pintado esse estado e descrito esse meio-dia, esse claro-escuro do mundo extraterrestre.
Aqui, as analogias entre a vida e a morte são impressionantes. A criança permanece muitos dias sem fixar a luz e sem ter conhecimento do que a rodeia; seus olhos ainda não se abriram, e assim a irradiação do pensamento.
O recém-nascido no mundo invisível fica, também ele, algum tempo sem tomar conhecimento do seu modo de ser e de seu destino. Ele ouve, ao mesmo tempo, os murmúrios próximos ou remotos dos dois mundos; entrevê movimentos e gestos, que não poderia precisar, nem definir. Meio entrado na quarta dimensão, perde a noção precisa da terceira, na qual havia até então evolvido. Não dá mais tento, nem da quantidade, nem do número, nem do espaço, nem do tempo, pois que seus sentidos que, quais outros tantos instrumentos de óptica, o ajudavam a calcular, a medir, a pesar, se fecharam de repente, qual uma porta para sempre condenada. Que estado estranho, esse da Alma, que tateia cega, nas estradas do Além! E, no entanto, esse estado é real.
Nesse momento, as influências magnéticas da prece, das lembranças, do amor, podem gozar um papel considerável e apressar o advento das claridades reveladoras que vão iluminar essa consciência ainda adormecida, essa Alma “em trabalhos” do seu destino. A prece, nesse caso, é uma verdadeira evocação; é o grito de apelo à Alma indecisa e flutuante. Eis porque o esquecimento dos mortos e a negligencia de seus cultos são reprováveis e nos acarretam mais tarde olvidos semelhantes.
Esse período de transição, entretanto, e essa parada no túnel da morte são absolutamente necessários, em preparo da visão de luz que deve suceder à obscuridade. É preciso que o sentido psíquico se vá adaptando proporcionalmente ao novo foco que o vai esclarecer.
Uma passagem súbita, sem transição nenhuma desta vida à outra, seria um deslumbramento que produziria perturbação prolongada. Natura non facit saltus, disse o grande Lineu; essa lei rege igualmente os graus progressivos do desprendimento espiritual.