O capítulo 32, de O LIVRO DOS MÉDIUNS, intitula-se “Vocabulário Espírita”, e sugere a seguinte definição: — Médium — (Do latim medium, meio, intermediário). Pessoa que pode servir de intermediário entre os Espíritos e os homens.
Revelando o cuidado e o extraordinário poder de síntese que Kardec sempre demonstra, essa definição é um primor de clareza. Vemos, por ela, que o médium é uma pessoa, isto é, um ser encarnado, sujeito, por conseguinte, às imperfeições e mazelas que nos afligem a todos e, portanto, tão propenso à queda quanto qualquer um de nós, ou talvez mais ainda, porque sua capacidade de sintonizar-se com os desencarnados o expõe a um grau mais elevado de influenciação.
Sabemos, por outro lado, do aprendizado espírita, que a mediunidade, longe de ser a marca da nossa grandeza espiritual, é, ao contrário, o indício de renitentes imperfeições.
Representa, por certo, uma faculdade, uma capacidade concedida pelos poderes que nos assistem, mas não no sentido humano, como se o médium fosse colocado à parte e acima dos vis mortais, como seres de eleição. É, antes, um ônus, um risco, um instrumento com o qual o médium pode trabalhar, semear e plantar, para colher mais tarde, ou ferir-se mais uma vez, com a má utilização dos talentos sobre os quais nos falam os Evangelhos, O médium foi realmente distinguido com o recurso da mediunidade, para produzir mais, para apressar ou abreviar o resgate de suas faltas passadas. Não se trata de um ser aureolado pelo dom divino, mas depositário desse dom, que lhe é concedido em confiança, para uso adequado.
Enfim: o médium utiliza-se de uma aptidão que não faz dele um privilegiado, no sentido de colocá-lo, na escala dos valores, acima dos seus companheiros desprovidos dessas faculdades.
Quanto mais amplas e variadas as faculdades, mais exposto ficará ao assédio dos companheiros invisíveis que se opõem ao seu esforço evolutivo.
De certa forma, isso é válido para todos nós, mas aqueles que dispõem de faculdades mediúnicas estão como se tivessem devassado o seu mundo interior a seres desconhecidos e invisíveis, que podem ser bons e amigos, como também podem ser antigos e ferrenhos desafetos ou comparsas de crimes hediondos.
Isso me faz lembrar um filme que vi há algum tempo. O jovem herói, pelo esforço de um trabalhador social compreensivo, que acreditava na capacidade evolutiva do ser humano, obteve liberdade condicional. Estivera alguns anos na prisão, em virtude da prática de assaltos audaciosos, bem planejados e, naturalmente, muito rendosos financeiramente. Fora o líder de seu grupo, o cérebro da organização, o planejador eficiente e hábil que facilmente submeteu todos os demais à sua vontade. Ao sair da prisão, deseja esquecer o passado tenebroso, encontra o amor na pessoa de uma jovem, e dedica-se a trabalho humilde, de baixa remuneração, mas honesto. É nessa fase de reconstrução íntima e esforço regenerativo, que os antigos comparsas o encontram. Começa o cerco, o assédio, com propostas, ameaças, e a doce cantilena do êxito material.
Tudo é tentado para afastá-lo do caminho da recuperação. Qualquer ardil serve, qualquer pressão, envolvimento ou oferta. Vale tudo. Seus ex-companheiros de crime desejam-no de volta ao grupo, aos prazeres, às loucuras, à irresponsabilidade.
A semelhança com a situação do médium é impressionante. Seus comparsas não se conformam, e, das trevas onde se escondem, buscam-no incessantemente. Isso é particularmente agudo quando a mediunidade começa a desabrochar. Os primeiros manifestantes são, quase sempre, atormentados seres do mundo das dores, obsessores impiedosos, verdugos que não desejam deixar escapar a presa pelos portões do trabalho regenerador. Ou, então, são associados de outros tempos, que por muitos séculos planejaram e executaram juntos crimes inomináveis.
O médium, mais do que aqueles que não dispõem da faculdade, é um ser em liberdade condicional. Cabe a ele provar que já é capaz de fazer bom uso dela. A tarefa não é fácil, porque, como todos nós, traz em si o apelo do passado, as “tomadas” para o erro, as cicatrizes, mal curadas, de falhas dolorosas, o peso específico que o arrasta para baixo, tentando impedir que ele se escape, como um pequeno balão, para o azul infinito da libertação espiritual.
Mais do que qualquer um de nós, ele precisa estar vigilante, atento, ligado a um bom grupo de trabalho, compulsando livros doutrinários de confiança, observando suas próprias faculdades, corrigindo, melhorando, modificando, eliminando, acrescentando.
Nada de pânico, porém. O fato de ser ele uma pessoa dotada de antenas psíquicas, que o põem em relação com o mundo espiritual, quer ele deseje ou não, não quer dizer que ele esteja à mercê dos companheiros desvairados das sombras, a não ser que ele próprio deixe cair suas guardas. Ele contará sempre com a proteção carinhosa e atenta de seus guias, daqueles que estão interessados no seu progresso espiritual. Procure manter um bom clima mental. Estude, leia, viva com simplicidade, vigie seus sentimentos, como qualquer um de nós. Participe da luta diária, enfrente os problemas da existência: profissionais, familiares, sociais, humanos, enfim. Não lhe faltarão recursos, assistência, informações e, acima de tudo, trabalho mediúnico, que é da essência mesma do seu compromisso.
Não tema, mas não seja temerário. Não deixe de estudar suas faculdades, mas não se envaideça do que aprendeu nem dos recursos que conseguiu desenvolver. Na hora da tarefa, é um simples trabalhador, como qualquer outro: nem melhor, nem pior, nem inferior, nem superior.
Os dirigentes de grupos devem combater sem tréguas o “vedetismo” de alguns médiuns; o bom combate, é claro, de que nos falava Paulo, sem rancores, sem humilhações, sem prepotência.
É comum, nos grupos mediúnicos, dar-se destaque indevido ao médium que recebe, por exemplo, o orientador desencarnado, para as palavras de esclarecimento e as diretrizes gerais. O ideal seria que os orientadores se revezassem, utilizando-se dos demais médiuns, mas eles não estão interessados em preservar as nossas ridículas suscetibilidades e vaidades. Se o médium que os recebe sente-se envaidecido, trate de se corrigir; se os médiuns que não o recebem ficam enciumados, o problema é de cada um. A experiência com os espíritos ensina-nos que eles são compassivos, amorosos, pacientes, tolerantes e serenos, mas são também firmes e rigorosos, quando necessário. Isso está amplamente documentado na Codificação, pois nem mesmo a Kardec deixaram eles de dizer o que era necessário dizer, às vezes até com inesperada severidade.
— Por que há Deus permitido que os Espíritos possam tomar o caminho do mal? — pergunta Kardec, segundo O LIVRO DOS ESPÍRITOS, questão 123.
E eles respondem:
— Como ousais pedir a Deus contas de seus atos? Supondes poder penetrar-lhe os desígnios? Podeis, todavia, dizer o seguinte: A sabedoria de Deus está na liberdade de escolher que Ele deixa a cada um, porquanto, assim, cada um tem o mérito de suas obras.
E o interlocutor era Allan Kardec! Por que razão ficarão com “panos quentes” conosco, meros aprendizes primários de uma verdade que transcende, em muitos aspectos, a nossa compreensão?
Assim, não se espere que os benfeitores espirituais tomem precauções especiais para nos preservar o orgulho e a vaidade.
Não cuidaremos, neste livro, da formação ou do desenvolvimento do médium. O assunto é demasiado complexo para um tratamento sumário e foge aos objetivos das nossas especulações aqui. Há obras que cuidam do problema, mas é preciso não se esquecer que o ponto de partida de qualquer trabalho, nesse sentido, é O LIVRO DOS MÉDIUNS, de Allan Kardec.
É possível, no entanto, que as tarefas do grupo mediúnico venham, no decorrer do tempo, revelar a existência de outros médiuns em potencial. Não é necessário, neste caso, colocar a pessoa em quarentena, nem desligá-la do grupo. Que ela se mantenha junto aos companheiros, na posição que sempre ocupou e aguarde a sua vez. Os benfeitores espirituais saberão como conduzir o labor necessário, fornecendo ocasionais indicações e instruções, até que a mediunidade nascente comece a desabrochar e possa ser utilizada.
O dirigente humano acompanhará atentamente o trabalho, ajudando o companheiro, ou companheira, nas lides iniciais da sua empreitada. Os fenômenos começarão espaçados e indecisos: rápidas vidências, clariaudiência, talvez intuições, impulsos de dizer ou escrever algo.
Quando estes pequenos fenômenos ocorrerem, o componente da equipe deve comunicar-se, tão logo lhe seja possível, com o dirigente, sem interromper os trabalhos em curso, a não ser por motivos imperiosos; de preferência, contudo, depois de encerrada a sessão. Nada de açodamento, de excitações, de fantasias, de euforia, nem de temores. Num grupo bem orientado, todas as potencialidades serão devidamente estudadas e aproveitadas, quando possível e necessário.
A mediunidade que melhor se presta aos trabalhos de desobsessão é a psicofonia, ou de incorporação. O diálogo com o desencarnado é da própria essência da tarefa, e dificilmente a palavra falada, direta e viva, poderia ser substituída, sem perda considerável da eficácia do processo. Em casos extremos, poderá ser utilizada a psicografia: o doutrinador falaria e o Espírito responderia por escrito, mas a experiência revela que nada substitui a palavra falada, nesse tipo de trabalho. Com ela, sentimos com maior facilidade as reações que se processam no manifestante, sua personalidade, seus cacoetes, seu estado de irritação ou de serenidade, suas ironias, suas vacilações, sua sinceridade, suas emoções.