Não quer isso dizer que o grupo deva reunir apenas médiuns de incorporação. Os benfeitores espirituais terão melhores oportunidades de desenvolver suas tarefas por nosso intermédio, quando dispuserem de mais ampla variedade de faculdades, operando através da vidência de um, da clariaudiência de outro, da intuição de um terceiro, ou até mesmo se utilizando, em trabalhos especiais que ainda discutiremos, da faculdade, que têm outros, de exteriorizarem ectoplasma, ou seja, da mediunidade de efeitos físicos.
Tal variedade de faculdades é particularmente desejável quando o doutrinador não for dotado de mediunidade ostensiva, como vidência, ou audiência. Nesse caso, os médiuns presentes serão, as vezes, incumbidos de o auxiliarem com pequenas e discretas observações e recomendações recebidas dos benfeitores, enquanto ele se acha doutrinando. Isso deve ser feito com muita sutileza e de maneira breve e sumária.
Como a psicofonia é a mediunidade mais indicada para esse tipo de tarefa, André Luiz nos oferece, no seu já citado DESOBSESSÃO, um valioso decálogo de recomendações e sugestões.
Mesmo que o leitor disponha de um exemplar, parece que vale a pena reproduzir aqui o texto.
André considera tais cuidados “essenciais ao êxito e à segurança da atividade” atribuída aos médiuns.
É aconselhável, pois, aos médiuns psicofônicos:
· Desenvolvimento da autocrítica.
· Aceitação dos próprios erros, em trabalho mediúnico, para que se lhes apure a capacidade
de transmissão.
· Reconhecimento de que o médium é responsável pela comunicação que transmite.
· Abstenção de melindres ante apontamentos dos esclarecedores ou dos companheiros,
aproveitando observações e avisos para melhorar-se em serviço.
· Fixação num só grupo, evitando as inconveniências do compromisso de desobsessão em
várias equipes ao mesmo tempo.
· Domínio completo sobre si próprio, para aceitar ou não a influência dos Espíritos
desencarnados, inclusive reprimir todas as expressões e palavras obscenas ou injuriosas,
que essa ou aquela entidade queira pronunciar por seu intermédio.
· Interesse real na melhoria das próprias condições de sentimento e cultura.
· Defesa permanente contra bajulações e elogios, conquanto saiba agradecer o estímulo e a
amizade de quantos lhe incentivem o coração ao cumprimento do dever.
· Discernimento natural da qualidade dos Espíritos que lhes procurem as faculdades, seja
pelas impressões de sua presença, linguagem, eflúvios magnéticos, seja pela sua conduta
geral.
· Uso do vestuário que lhes seja mais cômodo para a tarefa, alijando, porém, os objetos que
costumem trazer jungidos ao corpo, como sejam relógios, canetas, óculos e jóias.
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As pessoas que lidam com médiuns, que trabalham junto deles, que desempenham, enfim, qualquer atividade em paralelo com eles, não devem esquecer-se de que esses companheiros de seara são criaturas dotadas de certo grau de exaltação da sensibilidade. Ou, por outra: são médiuns exatamente porque têm a sensibilidade mais aguda do que o comum dos homens e das mulheres.
Em decorrência dessa particularidade que, no fundo, é da própria essência da mediunidade, são mais suscetíveis, mais sensíveis também à crítica, à atitude antifraterna, à palavra agressiva, à reprimenda, tanto quanto ao elogio e à bajulação, a que se refere André Luiz.
É preciso, pois, atenção especial com os médiuns, naquilo que diga respeito à sua condição peculiar de sensibilidade. Tentaremos clarificar, tanto quanto possível, este assunto extremamente delicado e complexo.
Evidentemente, o médium não deve e não pode ser endeusado, porque isso exporia, a ele e ao grupo, a imprevisíveis e desastrosas consequências. Em breve, estaria recebendo “mensagens” diretas de Deus. Não vamos, porém, cair no outro extremo, de submeter o médium a um regime disciplinar inadequado, ditado pela prepotência e pela arbitrariedade, em nome da boa ordem dos trabalhos. Médium disciplinado é uma coisa, médium inibido é outra.
É preciso que o dirigente dos trabalhos tenha bom senso suficiente para distinguir até onde vai a disciplina, que precisa ser preservada, e onde começa o rigorismo ditatorial que leve o médium ao pânico ou à revolta. O médium não é nem a “vedete” do grupo, seu pontífice máximo, nem o escravo acorrentado aos caprichos dos desavisados que, em nome da disciplina e da ordem, impõem condições inaceitáveis ao exercício das faculdades mediúnicas.
A mediunidade é um mecanismo extremamente delicado e suscetível, que deve ser tratado com atenção, cuidado e carinho.
No grupo em que predominar legitimo sentimento de afeição, e compreensão entre os seus diversos componentes, dificilmente surgirão problemas dessa natureza, mas é preciso estar atento para que tais questões não venham a perturbar a tarefa. O dirigente deverá tratar o médium com todo o carinho e atenção, procurando ajudá-lo na solução dos problemas que surgirem no exercício de sua faculdade, dando-lhe apoio e conselhos, onde e quando necessário. Deve ser-lhe grato pela sua contribuição ao grupo, sem, no entanto, distingui-lo com nenhum favor especial. O médium equilibrado e disciplinado sabe que nada deve esperar de diferente, exclusivo ou extraordinário. É apenas um dos componentes do grupo, nada mais, e, como tal, credor da mesma estima e respeito devidos aos demais companheiros. E, também como os demais, merecedor de uma palavra de estímulo e gratidão, por uma tarefa particularmente difícil, exaustiva e bem realizada. Não custa, a quem de direito, uma expressão de agradecimento e uma palmada afetuosa no ombro, que deverá estimular sua responsabilidade e não sua vaidade.
Há manifestações difíceis, dolorosas, que deixam resíduos vibratórios perturbadores. Em casos assim, o médium não deve ser abandonado à sua sorte, com as dores e as canseiras resultantes. Se o dirigente não puder socorrê-lo com um passe restaurador, designe alguém no grupo para fazê-lo, mas diga-lhe uma breve palavra de carinho ou lhe faça um gesto de solidariedade, para que o médium sinta o apoio e a compreensão para a sua árdua tarefa.
O leitor deverá notar, ao longo deste livro, que alguns pontos são repisados em diferentes contextos. É que tais assuntos se apresentam muito intimamente interligados, à semelhança dos fios coloridos que fazem o desenho dum tapete, e que desaparecem aqui, para reaparecer ali, com nova ênfase.
Um desses pontos é o relacionamento entre os componentes do grupo, seja entre os encarnados, seja entre estes e os desencarnados. Repisaremos aqui um deles. É o do relacionamento do médium com o doutrinador. Para que o trabalho se desenvolva com segurança e eficácia, esse relacionamento precisa ser impecável. Tentemos explicar o que significa, no caso, esse adjetivo algo pomposo. Além do seu sentido etimológico — incapaz de pecar, não sujeito a pecar — impecável quer dizer perfeito, correto, sem mácula ou defeito. Médium e doutrinador devem estimar-se e respeitar-se. Estima sem servilismo e sem fanatismo; respeito sem temores e sem reservas íntimas. Quando o relacionamento médium-doutrinador é imperfeito ou sofre abalos mais sérios, põe-se em risco a qualidade do trabalho mediúnico. A razão é simples e óbvia: ao incorporar-se, o espírito manifestante vem trabalhar com os elementos ou instrumental que encontra no médium. Se existe ali alguma reserva com relação ao doutrinador, ou, pior ainda, alguma hostilidade mais declarada, é claro que a sua tarefa negativa será bastante facilitada, da mesma forma que um médium mais culto fornece melhores recursos para uma manifestação de teor mais erudito ou um médium de temperamento mais violento oferece condições mais propícias a manifestações violentas.
Pela mesma razão, se existe entre médium e doutrinador um vínculo mais forte de afeição, o espírito agressivo fica algo contido, e ainda que agrida o doutrinador com palavras ou gestos, não consegue fazer tudo quanto desejava. Muitos são os que se queixam disso, durante suas manifestações, exatamente porque não logram dar vazão aos seus impulsos e intenções, porque as vibrações afetivas entre médium e doutrinador arrefecem inevitavelmente tais impulsos.
É preciso ainda considerar que se o médium realiza esse trabalho de impregnação fluídica no perispírito do manifestante, este também traz uma carga, às vezes pesada e agressiva, que atua energicamente sobre o perispírito do médium, havendo, portanto, certa “contaminação” mútua,
para a qual o médium deve atentar com toda a sua vigilância, pois, do contrário, o Espírito o dominaria e faria com ele o que bem desejasse, como lamentavelmente acontece com frequência.
Essa contaminação, embora transitória, é demonstrada, sem sombra alguma de dúvida, nas reações preliminares e posteriores do médium, ou seja, quando ainda se acha consciente no corpo e depois que o reassume. Com frequência, nossos médiuns declaram que, ao sentirem a aproximação do Espírito manifestante, experimentaram tal ou qual sensação: força, ódio, tristeza, angústia ou amor, paz, serenidade. Da mesma forma, os resíduos vibratórios que permanecem na intimidade do perispírito do médium, após a desincorporação, são bastante conhecidos, sendo necessário, quase sempre, quando são desagradáveis e agressivos, dispersá-los por meio de passes, a fim de que o médium se recomponha. Quando, ao contrário, se trata de um espírito pacificado e bondoso, o médium desperta, como costumo dizer, “em estado de graça”, feliz, harmonizado, comovido, às vezes, até às lágrimas.
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