Enfrentemos com disposição e coragem os empecilhos naturais que possam obstar o comparecimento à reunião: um mal-estar de última hora, por exemplo. (Muitas vezes, principalmente no caso dos médiuns, já se trata de aproximação de Espíritos angustiados, ou coléricos, que transmitem suas vibrações depressivas.) É possível que, à hora da saída para a reunião, chegue uma visita inesperada, ou uma criança se ponha a chorar, inexplicavelmente agitada ou inquieta. De outras vezes, chove ou faz muito frio, ou calor excessivo, e um pensamento de comodismo e preguiça nos segreda a palavra de desânimo. Muitos obreiros promissores têm sido afastados de tarefas redentoras por pequeninos incidentes como estes, que se vão somando, até neutralizá-los de todo. Nem percebem que os companheiros das sombras souberam tirar bom partido dos acontecimentos, ou até mesmo os provocaram, como no caso do súbito mal-estar próprio ou de um membro da família. No dia seguinte, ou horas depois, o mal- estar terá passado, como por encanto, mas o trabalho das trevas já está feito: um obreiro a menos na seara, pelo menos naquele dia. A grande vitória começa com as pequenas escaramuças.
Cuidado, atenção, serenidade, firmeza.
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2 DESOBSESSÃO, Francisco Cândido Xavier e Waldo Vieira, capitulo 1, 3ª ed. FEB.
Quanto aos componentes encarnados do grupo, mais uma vez lembramos: é vital que os unam laços da mais sincera e descontraída afeição. O bom entendimento entre todos é condição indispensável, insubstituível, se o grupo almeja tarefas mais nobres. Não pode haver desconfianças, reservas, restrições mútuas. Qualquer dissonância entre os componentes encarnados pode servir de instrumento de desagregação. Os Espíritos desarmonizados sabem tirar partido de tais situações, pois esta é a sua especialidade. Muitos deles não têm feito outra coisa, infelizmente para eles próprios, ao longo dos séculos, senão isto: atirar as criaturas umas contra as outras, dividindo para conquistar. Nem sempre o fazem por maldade intrínseca. É preciso entendê-los.
Eles vivem num contexto que lhes parece tão natural, justificável e lógico, como o de qualquer outro ser humano. Julgam-se com direito de fazerem o que fazem, e, por isso, não se detêm diante de nenhum escrúpulo ou temor.
Se os componentes do grupo oferecerem condições de desentendimento, provocarão a desagregação impiedosamente, porque para eles isto é questão de vital importância, a fim de continuarem a agir na impunidade temporária em que se entrincheiraram.
Assim sendo, é melhor que um grupo com dimensões internas encerre suas atividades, pelo menos por algum tempo, até que se afastem os elementos dissonantes. Não se admite, num grupo responsável e empenhado em trabalho sério, qualquer desarmonia interna, como disputa pelos diversos postos: dirigente, médium principal e outras infantilidades. O dirigente do grupo não é o que se senta à cabeceira da mesa e dá instruções — ele é apenas um companheiro, um coordenador, um auxiliar, em suma, dos verdadeiros responsáveis pela tarefa global, que se acham no mundo espiritual. Qualquer sintoma de rivalidade entre médiuns deve ser prontamente identificado e combatido. Ainda falaremos disso, mais adiante. Por ora, basta dizer, e nunca o diremos com ênfase bastante, que deve predominar entre os encarnados um clima de liberdade consciente, franqueza sem agressividade, lealdade sem submissão, autoridade sem prepotência, afeição sem preferências, e perfeita unidade de propósitos.
No momento em que o desentendimento e a desafeição começam a medrar entre os encarnados, o grupo está em processo de desagregação. Isto implica dizer que os elementos perturbadores dessa harmonia interna devem ser prontamente identificados. O responsável pelo grupo, ou quem for para isso designado, deve procurar os desajustados para entendimento particular, reservado. Se não for possível reconduzi-los a uma atitude construtiva, não resta alternativa senão o afastamento, pois o trabalho das equipes encarnada e desencarnada deve ser colocado acima das nossas posições pessoais.
A decisão de afastar alguém não é fácil, e nem deve ser tomada precipitadamente e por ouvir dizer, pois é uma ação de natureza grave. Não apenas o grupo se privará do seu concurso, qualquer que seja a sua posição, como ele próprio, sentindo-se como que “expulso”, quase um “excomungado”, poderá cair numa faixa de desânimo, quando não de revolta, que o desprotege espiritualmente e o precipita em imprevisíveis aflições. Não se trata de criar uma atmosfera inquisitorial de espionagem mútua, de desconfianças e rivalidades, ou rancores surdos, pois disso também se aproveitariam os irmãos desencarnados que precisam do nosso afeto e compreensão; mas os objetivos e finalidades do grupo devem ficar a salvo de nossas paixões. Se, para isso, for necessário afastar um ou outro companheiro, teremos que fazê-lo. Cumprir o desagradável mandato com amor, equilíbrio e serenidade, mas também com firmeza. Talvez o companheiro perturbador possa retornar à tarefa mais adiante, já regenerado, mas entre sacrificá-lo pessoalmente e sacrificar todo o programa, não há como hesitar.
Este aspecto é aqui abordado com franqueza e sem temores, porque, embora não mencionado usualmente nas anotações sobre trabalho mediúnico, é uma das grandes e frequentes
dificuldades ocorridas em inúmeros grupos. Precisamos estar preparados para ela porque, mais cedo ou mais tarde, haveremos de encontrá-la. Atenção, porém: nada de processos inquisitoriais, repetimos. O bom senso e a prece serão sempre os melhores conselheiros, em situações como essa.
Por outro lado, essas e outras decisões, isto é, todas aquelas que dizem respeito, por assim dizer, à gestão terrena do grupo, cabem aos encarnados. Os benfeitores espirituais, ligados à tarefa, dificilmente nos darão ordens para admitir este componente ou desligar aquele. Eles desejam que nós sejamos capazes de discernir e assumir a responsabilidade pelos nossos atos. O que esperam de nós é um clima de harmonização, para que possam, em cada reunião, colocar diante de nós a tarefa que desejam que realizemos. É preciso que ofereçamos a eles aquele mínimo de condição indispensável.