Pedir-lhe-ia perdão e exaltaria a bon dade de Deus, que o conduzira ao mesmo lugar, para os resgates justos. Alongando o olhar, entreviu a pequena porta de acesso ao pequeno aposento onde estivera com a noiva amada e seu irmão prestes a desprender-se do mundo nas agonias extremas. Parecia ouvir ainda as derradeiras palavras de Estevão misturadas de bondade e perdão. Mal não saíra de suas reminiscências, quando a primeira pedrada o despertou para escutar o vozerio do povo. O grande pátio estava repleto de israelitas sanhudos. Objurgatórias sarcásticas cortavam os ares. O es petáculo era o mesmo do dia em que Estevão partira da Terra, Os mesmos impropérios, as fisionomias escar ninhas dos verdugos, a mesma frieza implacável dos carrascos do fanatismo, O próprio Paulo não se furtava à admiração, ao verificar as coincidências singulares. As primeiras pedras acertaram -lhe no peito e nos braços, ferindo -o com violência. — Esta será em nome da Sinagoga dos cilícios! —dizia um jovem, em coro de gargalhadas. A pedra passou sibilando e dilacerou, pela primeira vez, o rosto do Apóstolo. Um filete de sangue começou a ensopar -lhe as vestiduras. Nem um minuto, porém, deixou de encarar os carrascos com a sua desconcertante serenidade. Trófimo e Lucas, entretanto, cientes da gravida de da situação, desde os primeiros instantes, através de um amigo que presenciara, a cena inicial do suplício, procuraram imediatamente o socorro das autoridades ro manas. Receosos de novas complicações, não declinaram as verdadeiras condições do convertido de Damasco. Alegavam, apenas, tratar-se de um homem que não devia padecer nas mãos dos israelitas fanáticos e inconscientes. Um tribuno militar organizou incontinenti um troço de soldados. Deixando a fortaleza, penetraram no amplo átrio, com ânimo decid ido. A massa delirava num turbilhão de altercações e gritarias ensurdecedoras. Dois centuriões, obedecendo às ordens do comando, avança ram, resolutos, desatando o prisioneiro e arrebatando -o à multidão que o disputava ansiosa. — Abaixo o inimigo do povo! ... Ë um criminoso! Ë um malfeitor! Estraçalhemos o ladrão!... Pairavam no ar as exclamações mais estranhas. Não encontrando rabinos de responsabilidade para os esclarecimentos imprescindíveis, o tribuno romano mandou que o acusado fosse algemado. O milit ar estava convencido de que se tratava de perigoso malfeitor que, de há muito, se transformara em terrível pesadelo dos habitantes da província. Não encontrava outra explica ção para justificar tanto ódio. O peito contuso, ferido no rosto e nos braços, o A póstolo seguiu para a Torre Antônia, escoltado pelos prepostos de César, enquanto a multidão encaudava o pequeno cortejo, bradando sem cessar: — Morra! Morra! Ia penetrar o primeiro pátio da grande fortaleza romana quando Paulo, compreendendo afinal que nã o fora a Jerusalém tão-só para acompanhar quatro nazireus paupérrimos ao monte Moriá, e sim para dar um testemunho mais eloqüente do Evangelho, interrogou o tribuno com humildade: — Permitis, porventura, que vos diga alguma coisa? Percebendo -lhe as maneiras distintas, a nobre in flexão da palavra em puro grego, o chefe da coorte replicou muito admirado: — Não és tu o bandido egípcio que, há algum tempo, organizou a malta de ladrões que devastam estas pa ragens? — Não sou ladrão — respondeu Paulo, parecend o uma figura estranha, em vista do sangue que lhe cobria o rosto e a túnica singela —, sou cidadão de Tarso e rogo-vos permissão para falar ao povo. O militar romano ficou boquiaberto com tamanha distinção de gestos e não teve outro recurso senão ceder, em bora hesitante. Sentindo-se num dos seus grandes momentos de tes temunho, Paulo de Tarso subiu alguns degraus da esca daria enorme e começou a falar em hebraico, impressionando a multidão com a profunda serenidade e elegância do discurso. Começou explican do suas primeiras lutas, seus remorsos por haver perseguido os discípulos do Mestre Divino; historiou a viagem a Damasco, a infinita bondade de Jesus que lhe permitira a visão gloriosa, dirigindo-lhe palavras de advertência e perdão. Rico das reminiscência s de Estevão. falou do erro que havia come tido em consentir na sua morte. Ouvindo-lhe a palavra cinzelada de misteriosa beleza, Cláudio Lísias, tribuno romano que efetuara a prisão, experimentou sensações indefiníveis. Por sua vez, havia recebido certos b enefícios daquele Cristo incompreendido a que se referia o orador em circunstâncias tão amargas. Tomado de escrúpulos, mandou chamar o tribuno Zelfos, de origem egípcia, que adquirira certos títulos romanos, pela expressão de sua enorme fortuna, e solicito u: — Amigo — disse com voz quase imperceptível —, não desejo tomar aqui certas decisões, relativamente ao caso deste homem. A multidão está exaltada e é possível que ocorram acontecimentos muito graves. Desejaria tua cooperação imediata. — Sem dúvida — respondeu o outro, resoluto. E enquanto Lísias procurava examinar, de modo minucioso, a figura do Apóstolo, que falava de maneira impressionante, Zelfos desdobrava -se em providências oportunas. Reforçou a guarnição dos soldados, iniciou a formatura de um cordão de isolamento, buscando res guardar o orador de um ataque imprevisto. Paulo de Tarso, depois de circunstanciado relatório da sua conversão, começou a falar da grandeza do Cristo, das promessas do Evangelho, e quando se detinha a comentar suas relações c om o mundo espiritual, de onde recebia as mensagens confortantes do Mestre, a massa inconsciente, furiosa, agitou-se em ânsias mesquinhas. Grande número de israelitas despia o manto, arrojando poeira no ar, num impulso característico de ignorância e maldad e. O momento era gravíssimo. Os mais exal tados tentaram romper o cordão dos guardas para trucidar o prisioneiro. A ação de Zelfos foi rápida. Mandou recolher o Apóstolo ao interior da Torre Antônia. E enquanto Cláudio Lísias se recolhia à residência, a f im de meditar um pouco na sublimidade dos conceitos ouvi-dos, o companheiro de milícia tomou providências enér gicas para dispersar a multidão. Não eram poucos os que teimavam em vociferar na via pública, mas o chefe militar mandou dispersar os recalcitran tes à pata de cavalo. Conduzido a uma cela úmida, Paulo sentiu que os soldados o tratavam com a maior desconsideração. As feridas doíam -lhe penosamente. Tinha as pernas doloridas e trôpegas. A túnica estava empapaçada de sangue. Os guardas impiedosos e irônicos amarraram-no a grossa coluna, conferindo -lhe o tratamento destinado aos crimi nosos comuns. O Apóstolo, sentindo -se exausto e febril, chegou à conclusão de que não lhe seria fácil resistir à nova provação de martírio. Refletiu que não era justo entr egar-se de todo às disposições perversas dos soldados que o guardavam. Lembrou que o Mestre se imolara na cruz, sem resistir à crueldade das criaturas, mas também afirmara que o Pai não deseja a morte do pecador. Não podia alimentar a presunção de entregar se como Jesus, porque somente Ele possuía bastante amor para consti tuir-se Enviado do Todo-Poderoso; e como se reconhecia pecador convertido ao Evangelho, era justo o desejo de trabalhar até ao último dia de suas possibilidades na Terra, em favor dos irm ãos em humanidade e em bene fício da própria iluminação espiritual. Recordou a prudência que Pedro e Tiago sempre testemunharam para que as tarefas a eles confiadas não sofressem prejuízos injustificáveis e, verificando as suas escassas probabili dades de resistência física, naquela hora inesquecível, gritou aos soldados: — Prendestes-me à coluna reservada aos crimino sos, quando não podeis imputar-me falta alguma!... Vejo, agora, que preparais açoites para a flagelação, quando já me encontro banhado em sa ngue, no suplício imposto pela turba inconsciente... Um dos guardas, um tanto irônico, procurou cor tar-lhe a palavra e sentenciou: — Ora esta!... Não sois um Apóstolo do Cristo? Consta que teu Mestre morreu na cruz caladinho e, por fim, ainda pediu perdão para os algozes, alegando que ignoravam o que faziam. Os companheiros do engraçado romperam em gar galhadas estrídulas. Paulo de Tarso, entretanto, eviden ciando toda a nobreza do coração, no fulgor do olhar, replicou sem hesitação: — Sim, rodeado pelo povo ignorante e inconsciente, no dia do Calvário, Jesus pediu a Deus perdoasse as tre vas de espírito em que se submergia a multidão que lhe levantara o madeiro de ignomínia; mas os agentes do governo imperial não podem ser a turba que desconhece os próprio s atos. Os soldados de César devem saber o que fazem, porque, se ignorais as leis, para cuja execução recebeis soldo, seria mais justo abandonardes o posto. Os guardas ficaram imóveis, tomados de assombro. Paulo, entretanto, continuou em voz firme: — Quanto a mim, pergunto-vos: — Será lícito açoitardes um cidadão romano, antes de condenado? O centurião que presidia os serviços da flagelação suspendeu os primeiros dispositivos. Zelfos foi chamado com espanto. Ciente do ocorrido, o tribuno interrogou o Apóstolo, sumamente admirado: — Dize-me. És de fato romano? — Sim. Ante a firmeza da resposta, Zelfos achou razoável modificar o tratamento do prisioneiro. Receoso de com plicações, ordenou que o ex -rabino fosse retirado do tronco, permitindo-lhe ficar à vontade no acanhado âmbito da cela. Somente então, Paulo de Tarso conseguiu algum repouso num leito duro, recebendo uma bilha de água trazida com mais respeito e consideração. Saciou a sede intensa e dormiu, apesar das feridas sangrentas e do lorosas. Zelfos, contudo, não estava tranqüilo. Desconhecia, por completo, a condição do acusado. Temendo compli cações prejudiciais para a sua posição, aliás invejável do ponto de vista político, procurou avistar -se com o tribuno Cláudio Lisias. Esclarecendo o motivo de sua preocupação, o outro murmurou: — Isso me surpreende, porque a mim afirmou que era judeu, natural de Tarso da Cuida.