lençol, que me pareceu ser mais cinzento do que branco; a sua forma era magra, triste e sem barba, o que não combinava exatamente com a ideia que primeiro tinha de Apolônio. Experimentei uma sensação extraordinária de frio, e quando abri a boca para interrogar o fantasma, me foi impossível articular um som. Pus, então, a mão sobre o signo do pentagrama, e dirigi para ele a ponta da espada, ordenando-lhe mentalmente, por este signo, a não me amedrontar e a obedecer-me. Então, a forma ficou mais confusa e ele desapareceu imediatamente. Ordenei-lhe que voltasse: então senti passar, junto a mim, como que um sopro, e, alguma coisa tendo-me tocado na mão que segurava a espada, tive imediatamente o braço adormecido até os ombros. Julguei entender que esta espada ofendia o Espírito, e a plantei, pela ponta, no circulo junto a mim. A figura humana reapareceu logo; mas senti tão grande fraqueza nos meus ombros e um repentino desfalecimento apoderar-se de mim, que dei dois passos para me assentar. Desde que fiquei assentado, caí num adormecimento profundo e acompanhado de sonhos, de que me restou, quando voltei a mim, somente uma lembrança confusa e vaga.” Assim foi realizada a evocação que, sem nenhum ritual complicado, sem substâncias, círculos, espadas e vestimentas especiais, e sem evocação, realiza- se, a cada instante, em incontáveis sessões mediúnicas.
Quanto à magia negra, apresenta o autor o que chama de revelação nova e que consiste no seguinte: “O diabo, em magia negra, é o grande agente mágico empregado para o mal por uma vontade perversa.” Também o enfeitiçamento está dentro dessa linha de raciocínios. “O instrumento do enfeitiçamento não é outro senão o próprio grande agente, que, sob a influência de uma vontade má, se torna, então, real e positivamente o demônio.”
Às vezes, no entanto, deixa entrever que o domínio que muitos buscam exercer sobre o semelhante não está tanto nos ritos e nas práticas, mas na própria psicologia humana: “Acariciar as fraquezas de uma individualidade é apoderar-se dela e fazer dela um instrumento, na ordem dos mesmos erros e das mesmas depravações.” Ou então: “Todos nós temos um defeito dominante, que é, para nossa alma, como que o umbigo do seu nascimento pecador, e é por ele que o inimigo sempre nos pode pegar; a vaidade, para uns, e preguiça para outros, o egoísmo para o maior número. Que um espírito hábil e mau se apodere desta mola, e estais perdidos.”
De outras vezes, percebemos, de relance, por que tanto se empenham em conquistar a insensibilidade os Espíritos encarnados e desencarnados que fazem do domínio sobre o semelhante a meta de suas vidas: “Só o adepto de coração sem paixão — escreve Levi — disporá do amor ou ódio daqueles que quiser fazer de instrumento da sua ciência.”
“O magista — prossegue adiante — deve, pois, ser impassível, sóbrio e casto, desinteressado, impenetrável e inacessível a toda espécie de preconceitos ou terror. Deve ser sem defeitos corporais e estar à prova de todas as contradições e de todos os sofrimentos. A primeira e mais importante das obras mágicas é chegar a esta rara superioridade.” Em suma, ele tem que aprender a querer, para poder impor a sua vontade.
A instrumentação é secundária, quando uma vontade firme e dinâmica sustenta os seus interesses. É preciso crer que se pode, e esta fé deve traduzir-se imediatamente em atos.
Vejam este outro conselho: “Ter o maior respeito por si mesmo e considerar-se como um soberano desconhecido, que assim faz para reconquistar a sua coroa.” Por causa desse e de outros princípios e noções, não é fácil lidar com os magos desencarnados. Não exatamente por causa dos danos que possam causar-nos. Se estamos num grupo mediúnico bem constituído e harmonizado, nada conseguirão contra nós. Nada sofreremos em razão do próprio trabalho de desobsessão, o que seria injusto, mas é claro que, como seres imperfeitos que somos, temos abertas as brechas das nossas próprias imperfeições. Como nos disse um amigo espiritual, certa vez, sofreremos, no decorrer do trabalho de desobsessão, apenas aquilo que estiver autorizado pela nossa ficha
cármica. Ë claro, pois, que os trabalhadores das sombras empenharão o melhor de seus esforços no levantamento de nossas fichas, ou seja, de nossa vida pregressa, estudando-nos sob todos os ângulos, vigiando-nos, a fim de surpreenderem-nos no momento em que mostramos onde a nossa cerca está arrombada... Entrarão em ação imediatamente. Estão convictos de que poderão atingir- nos; é só questão de tempo e oportunidade, pensam eles, e, como dizia Levi, “para poder é preciso crer que se pode e esta fé deve traduzir-se imediatamente em atos”.
Estejamos vigilantes, porém tranquilos e guardados na paz do Cristo. Se o nosso trabalho é de Deus, sigamos em frente, serenos, confiantes, destemidos. Estejamos preparados, porém, para enfrentar os companheiros desarmonizados. Aqueles que por longos séculos vêm praticando a magia, estão habituados a vencer pela vontade disciplinada — que aprenderam a dominar — todos os obstáculos. Não nos impressionemos, porém, com os seus rituais, seus gestos, seus talismãs, suas evocações, suas palavras misteriosas e secretas.
Temos que atuar não sobre esses sinais exteriores dos seus cultos, mas sobre os seus Espíritos atormentados, embora aparentemente seguros e frios. Toda aquela serenidade aparente desmorona, quando conseguimos convencê-los de seus trágicos enganos. Estejamos prontos para ajudá-los, pois este é o momento mais grave, mais sério, mais profundamente humano de suas vidas: quando entreveem uma réstia de luz a iluminar-lhes o próprio coração, os escombros dos antigos sonhos, os fantasmas que trazem no íntimo, os desenganos, os remorsos, as angústias, o desespero. É preciso tratá-los com carinho, com humildade e singela compreensão, porque a dor do despertamento é, quase sempre, esmagadora. Quem a presenciou pode fazer ideia, porque senti- la, em toda a sua profundidade, somente aquele que a experimentou.
Lembremo-nos de que os Espíritos que na Terra estiveram envolvidos nas práticas mágicas não desapareceram, nem se perdeu o conhecimento dos mecanismos de certas leis do magnetismo, da hipnose, da manipulação de drogas e fluídos, de forças naturais e de toda a parafernália que lhes proporcionava poderes secretos e misteriosos, mas muito reais.
Com os esclarecimentos contidos hoje na Doutrina Espírita, estamos em condições de entender muitos desses segredos e mistérios, pois, no fundo, o mago sempre foi um médium, assistido por companheiros desencarnados, com os quais se afina bem, no interesse de ambos. Os Espíritos vivem em grupos, ligados por interesses comuns, e revezam-se na carne e no além, apoiando-se mutuamente, alguns empenhados em finalidades nobres, construtivas e reparadoras, e outros envolvidos, século após século, em lamentáveis e tenebrosas práticas de dominação e vingança, tortura, perseguição, infligindo sofrimentos atrozes aos infelizes que lhes caem sob o poder maligno e infeliz.
O conceito de Sir James Frazer, de que a magia baseia-se na simpatia, é válido. Em Espiritismo, diríamos que se trata de sintonia vibratória. Não que a magia tenha poderes por si mesma, pois ela não encontra ressonância e, por conseguinte, não alcança êxito junto àqueles que já se redimiram, ou que, pelo menos, acham-se defendidos pela prece, pela vigilância e pela prática da caridade, no serviço ao próximo.
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Por mais de uma vez temos tido experiências com processos de magia, em trabalhos de esclarecimento mediúnico. Magos do passado, que continuando no Além seus estudos e práticas, comparecem, excepcionalmente, aos trabalhos de desobsessão nos quais se acham envolvidos, pois não gostam de descobrir-se. Entre eles encontramos até ex-sacerdotes católicos que, em tempos idos, praticaram a magia e, revertidos ao mundo espiritual, retomaram suas experiências.
À visão espiritual de nossos médiuns apresentavam-se com as vestimentas e os símbolos de sua preferência, ou portando “objetos”, poções, signos, velas, substâncias e até acompanhados de acólitos, para servi-los. Um deles trouxe-nos — certamente para intimidar-nos — um pobre ser espiritual inteiramente dominado, reduzido a uma deplorável Condição subumana de pavor e deformação perispiritual. Nosso médium viu-o atirar esse pobre espírito, de rastros, num círculo magnético infernal, do qual a infeliz vítima não podia livrar-se, por mais que se debatesse. Era um exemplo para nós, a fim de que deixássemos de interferir em sua atividade, disse ele. Outro veio traçar signos e fazer invocações contra um de nós, especificamente. Tinha recebido uma solicitação, selada com sangue, num terreiro. Não podia deixar de atender ao “irmão de sangue”.
Depois de seu ritual, cumprido à nossa vista, declarou que sua vítima “estava amarrada”, e partiu.
Mais tarde manifestou-se outro de sua equipe — ou seria ele mesmo? — com a proposta de “desfazer” o trabalho. E repetia, incessantemente: — Quer que vire, eu viro. Quer que vire, eu viro...
Não; não queríamos que ele virasse, com o que ele ficou muito desapontado, pois obviamente teria sido muito mais fácil, para ele, alcançar seus objetivos ocultos e lamentáveis, se aquele a quem ele visava propusesse um “pacto”, que entregaria a ele sua vítima, de pés e mãos atados, pronta para o “serviço”. Vendo-se recusado, passou para outro médium, no mesmo grupo, e apresentou-se agora com outro nome, embora reclamando que seu “cavalo” não prestava, porque não o obedecia. Tinha diante de si um prato de sangue, com o qual pretendia alcançar-nos.