Capítulo 21
1ª — Fisicamente, modificando a estrutura do ser ou de um ponto qualquer na natureza, pela aplicação exterior de forças físicas, que utiliza o trabalho do homem. A agricultura, em todas as categorias, a indústria, com todas as suas transformações, entram neste quadro. 2ª — Fisiológica ou astralmente, modificando a estrutura de um ser, por meio da aplicação de certos princípios e de certas forças, não à forma exterior, mas aos fluídos que circulam dentro do aludido ser. A Medicina, em todos os seus ramos, é um exemplo desse caso, e haveremos de declarar que a Magia (ele a escreve com letra maiúscula, embora escreva Espiritismo com letra minúscula) admite a possibilidade de influir sobre os fluídos astrais que atuam na natureza e sobre os que atuam nos homens. 3ª — Psiquicamente, atuando diretamente, não sobre os fluídos, mas sobre os princípios que os põem em movimento.” Vamos conferir: “Colaboradores desencarnados — escreve André Luiz18 — extraiam forças de pessoas e coisas da sala, inclusive da Natureza em derredor, que casadas aos elementos de nossa esfera faziam da câmara mediúnica precioso e complicado laboratório”. O resto é aplicação prática desses princípios: se os orientamos para o bem, obteremos resultados positivos; se os dirigirmos para o mal, arcaremos com a responsabilidade correspondente. E é precisamente na aplicação que mais veementes restrições o Espiritismo teria a fazer à magia, ainda que sem tocar os tenebrosos domínios da magia negra. Ao cuidarem dos problemas da obsessão, por exemplo, mesmo os adeptos mais bem informados da magia, revelam um despreparo comovedor, atribuindo a base do fenômeno à formação das chamadas larvas, que se alimentariam da “substância astral” emanada do “imprudente que lhes deu vida”. Para a criação dessas larvas, basta que se tenha medo dos ataques de ódio de outra pessoa, e segundo Papus, a prática mediúnica espírita seria uma dessas causas. 18 NOS DOMÍNIOS DA MEDIUNIDADE, capitulo 28 — “Efeitos Físicos”, edição FEB. Papus oferece dois métodos diferentes para tratamento dessas “obsessões”: um de ação indireta, outro de ação direta. Exemplifica ambos. Num deles, em Londres, optou pelo método indireto, magnetizando uma senhora na presença do obsidiado. A mulher, em transe, via uma faixa fluídica pairando em certo recanto da residência da vítima. Orientado pela descrição da mulher, Papus desenhou a faixa num pedaço de papel branco, “consagrado e perfumado”, e prosseguiu: “Terminado que foi o desenho, uma fórmula e uma prece puseram em comunicação a imagem física com a forma astral e então cortamos o desenho em vários pedaços, com a ajuda de uma grande e afiada lâmina de aço. A mulher adormecida declarou que os cortes influíram, incontinenti, na forma astral, que, igualmente, se desfez em pedaços”. E, com isto, estaria curada a “obsessão”... O segundo método (direto) seria recomendável para “os casos em que a obsessão toma um caráter especialmente grave”. Baseia-se no princípio de que as larvas e os elementais — seres algo animalizados que servem aos magos — alimentam-se da substância astral de que é muito rico o sangue. O método consiste, pois, no seguinte: toma-se uma mecha de cabelos do obsidiado, que deverão ser incensados, consagrando-os segundo o procedimento habitual. Em seguida, o paciente deverá aproximar-se e diante dele se molhará um punhado de seus cabelos no sangue de uma pomba ou de uma cobaia, também consagrados sob a influência de Júpiter ou de Apolo, pronunciando-se o Grande Conjuro de Salomão. Para isto, o oficiante deverá vestir-se de roupas brancas. Em seguida, colocar o cabelo, molhado em sangue, sobre uma pequena prancha, traçar à sua volta um círculo, desenhando-o com uma mistura de carvão e ímã pulverizado. Escrever no interior do círculo, nos quatro pontos cardeais, as quatro letras do tetragrama sagrado. A seguir, com a espada mágica (ou, na sua falta, com uma ponta de aço comum, com cabo de madeira envernizada) investir energicamente contra os cabelos, ordenando à larva que se dissolva. Segundo o autor, o processo raramente falha, pelo menos depois de repetido três vezes, de sete em sete dias. A reprodução destes métodos não tem por objeto aqui ridicularizar o procedimento daqueles que os praticam, pois como seres humanos, e irmãos nossos, merecem respeito e consideração; limitamo-nos a expô-los. Aqueles que lidam com graves problemas obsessivos, sabem muito bem que pouca diferença existe entre esse procedimento e o recurso igualmente inócuo do exorcismo eclesiástico. Num ou noutro caso, podem, no entanto, produzir resultados positivos, inteiramente aleatórios, seja porque o Espírito obsessor ficou algo impressionado com as complexidades do ritual, ou porque resolveu, “sponte sua”, abandonar sua vítima; mas é raro que um obsessor ferrenho e tenaz desista definitivamente da luta, apenas porque alguém o ameaçou com uma espada. Por exemplos como estes, podemos admitir que os verdadeiros segredos da magia perderam-se há muito. Restaram apenas fragmentos de uma técnica que, em tempos idos, foi manipulada com habilidade e competência. Os magos caldeus, persas e egípcios não ignoravam fenômenos elementares como os da obsessão, a ponto de tentarem curá-la com práticas tão ingênuas. Seus recursos e conhecimentos eram muito mais amplos e profundos. Mas, se essa técnica perdeu-se para os encarnados — pelo menos para os que têm escrito os tratados mais conhecidos de magia —, ela se preservou para os Espíritos desencarnados, antigos magos que levaram para a vida póstuma os conhecimentos especializados. A propósito, parece ainda oportuno reproduzir uma das normas coligidas por Papus: “Tratai de não vos servir jamais desta arte contra vosso próximo, a não ser para uma vingança justa. Mesmo assim, porém, aconselho-vos que é melhor imitar a Deus, que perdoa, e que vos tem perdoado a vós mesmos. E não há ocasião mais meritória do que a de perdoar.” A despeito do apelo ao perdão, quem achará que sua vingança é injusta? Buscando novamente André Luiz, encontramos em NOS DOMÍNIOS DA MEDIUNIDADE esta observação preciosa de Aulas: — “Abstenhamo-nos de julgar. Consoante a lição do Mestre que hoje abraçamos, o amor deve ser nossa única atitude para com os adversários. A vingança, Anésia, é a alma da magia negra. Mal por mal, significa o eclipse absoluto da razão. E, sob o império da sombra, que poderemos aguardar senão a cegueira e a morte?” Outro autor bastante conceituado entre os entendidos é Eliphas Levi. O Dr. Gérard Encausse tem-no em elevada conta e, por várias vezes, em suas obras, refere-se a ele com respeito e admiração. Eliphas Levi também viveu no século XIX e sua obra DOGMA E RITUAL DA ALTA 19 MAGIA , por exemplo, foi escrita em 1855, quando o Espiritismo estava ainda na fase preliminar das mesas girantes. Embora sem declarar-se católico, Levi acata os principais dogmas ortodoxos: a divindade de Jesus, a Trindade, a existência do céu e do inferno. A despeito disso, não se furta a algumas criticas veementes, como esta, por exemplo: “A Igreja ignora a magia, porque deve ignorá-la ou perecer, como nós o provaremos mais tarde; ela nem ao menos reconhece que seu misterioso fundador foi saudado no seu berço por três magos, isto é, pelos embaixadores hieráticos das três partes do mundo conhecido, e dos três mundos analógicos da filosofia oculta.” A obra de Papus é bem mais didática e ordenada do que a de Levi, mas os princípios fundamentais identificam-se em vários pontos importantes e ambos consideram o mago como o verdadeiro conhecedor e o feiticeiro como simples imitador. Papus usa uma imagem, dizendo que o mago é o engenheiro da magia, enquanto o feiticeiro é simples obreiro. “Há uma verdadeira e uma falsa ciência — escreve Levi —; uma magia divina e uma magia infernal, isto é, mentirosa e tenebrosa; temos de revelar uma e desvendar outra; temos de distinguir o mago, do feiticeiro; e o adepto, do charlatão.” O estilo de Levi, como, aliás, o de Papus, também, é algo pomposo, às vezes obscuro e nem sempre muito coerente. Ambos concordam, porém, em que o conceito fundamental da magia está na movimentação, em proveito próprio, dos segredos e forças da natureza. Levi defende a tese de que a resistência, num sentido, é indispensável para que a força aplicada, em sentido contrário, se robusteça e a vença. Seus dogmas não são menos surpreendentes, como este, por exemplo: “Assim, para o sábio, imaginar é ver; como, para o mago, falar é criar. Aquele que deseja possuir, não deve dar-se. Só pode dispor do amor dos outros aquele que é dono do seu, ou seja, não o entrega a ninguém.” Quanto ao fenômeno das mesas girantes, diz ele, “outra coisa não são senão correntes magnéticas que começam a formar-se, e solicitações da natureza que nos convida, para a salvação da humanidade, a reconstituir as grandes cadeias simpáticas e religiosas”. Por isso, atribui “todos os fatos estranhos do movimento das mesas ao agente magnético universal, que procura uma cadeia de entusiasmo para formar novas correntes”. Os golpes, raps e os instrumentos que tocam, aparentemente sozinhos, “são ilusões produzidas pelas mesmas causas”. Sua descrição da evocação do Espírito de Apolônio de Tiana, em Londres, é de uma riqueza impressionante de minúcias e começa com um sabor de romance de capa e espada, quando ele recebe, dentro de um envelope, no hotel, um cartão cortado transversalmente, com este recado: “Amanhã, às três horas, diante da abadia de Westminster, vos será apresentada a outra metade deste cartão.” Era uma senhora, e colocou à disposição dele, após os juramentos devidos, arsenal completo, com toda a instrumentação necessária a uma evocação. Ao cabo de complicadíssimo ritual, um Espírito manifestou-se, realmente: — “Chamei três vezes Apolônio, fechando os olhos; e, quando os abri, um homem estava diante de mim, envolto inteiramente por uma espécie de 19 Editora Pensamento, São Paulo.
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Nome do Capítulo Magos e feiticeiros
Parte Segunda