Se tenho o direito de burguesia nos dois mundos, se pertenço não só à vida terrena, mas também à vida espiritual, penso que seja muito perdoável ocupar-me algumas vezes do que me espera nesta última, para a qual um vago ardor me atrai incessantemente... Entretenho-me com muito boa vontade, em lembrança, com os que me foram caros e que a morte mos arrebatou, quanto com os que, neste mundo, me cumulam de alegria por sua presença, porque os primeiros não deixaram de existir, embora privados de um corpo material. A destruição do corpo não leva à destruição do Espírito. Continuo a vos querer, meus amigos ausentes, meus caros defuntos! Posso temer não ser mais o objeto de vossa afeição? Não, certamente; nenhum mortal tem o poder de separar Espíritos unidos por Deus, como nenhum túmulo tem esse poder.
Embora a sorte que me aguarda num outro mundo me seja oculta, penso que me seja permitido meditar algumas vezes sobre este assunto, e procurar adivinhar, pelo que aqui vejo, o que lá me poderia acontecer. Se na Terra nos é recusado ver, devemos procurar alimentar em nós a fé que tudo vivifica. – Jesus-Cristo falou muitas vezes, em alegorias elevadas, do estado da alma depois da morte do corpo, e seus discípulos também gostavam de entreter-se sobre este assunto com os seus confidentes, bem como com os que duvidavam da possibilidade da ressurreição dos mortos.
A doutrina da ressurreição dos corpos era uma das mais antigas da religião judaica. Os fariseus a ensinavam, mas de maneira grosseira e material, pretendendo que todos os corpos sepultados nos túmulos deveriam necessariamente tornar-se, um dia, o invólucro e o instrumento dos Espíritos que os tinham animado durante a vida terrena, – opinião que foi plenamente refutada por outro partido religioso judaico, os saduceus. Exortado um dia a pronunciar-se entre estas duas opiniões contrárias, o Cristo demonstrou que os dois partidos religiosos judeus haviam chegado, à força de aberrações, a erros completamente opostos; que a imortalidade da alma, isto é, a continuação de sua existência no outro mundo, ou a ressurreição dos mortos, poderia se dar e se daria infalivelmente, sem dever ser uma ressurreição grosseiramente material dos corpos, providos de todas as exigências e de todos os sentidos terrestres necessários à sua conservação e à sua reprodução. Os saduceus reconheceram a verdade de suas palavras: “Mestre, respondestes muito bem!”
disseram. (Lucas, 20:27-39.)
O que Jesus não discutia em público senão muito raramente, em detalhe, tornava-se assunto de suas conversas íntimas com os discípulos. Estes tinham as mesmas idéias que ele sobre o estado da alma após a morte e sobre a doutrina judaica concernente à ressurreição. “Insensatos! – diz o apóstolo Paulo – não vedes que o que semeais não nasce, se antes não morrer? E quando semeais, não semeais o corpo da planta que deve nascer, mas o simples grão, como de trigo ou de qualquer outra coisa. O corpo, como uma semente, agora é posto em terra cheio de corrupção e ressuscitará incorruptível. Semeia-se corpo animal, ressuscita-se corpo espiritual. Se há corpo animal, há também corpo espiritual. A carne e o sangue não podem possuir o reino de Deus e a corrupção não possuirá esta herança incorruptível.
(I Coríntios, 15:37 a 50.)
O corpo humano, composto de elementos terrestres, voltará à terra e entrará nos elementos que compõem os corpos das plantas, dos animais e dos homens. Esse corpo é incapaz de uma vida eterna; sendo corruptível, não pode herdar a incorruptibilidade. Um corpo espiritual nascerá da morte, isto é, o eu espiritual se elevará como transfigurado acima das partes do corpo feridas pela morte, numa liberdade maior e provido de um invólucro espiritual.
Esta doutrina do Evangelho, tal como saiu das revelações de Jesus e de seus discípulos, corresponde admiravelmente ao que agora já sabemos da natureza do homem.
É irrecusável que o Espírito ou alma, além de seu corpo terrestre, é, na realidade, revestido de um corpo espiritual, o qual, exatamente como a reprodução da flor de uma semente apodrecida, se liberta pela morte do corpo material.
Muitas vezes se diz, por alegoria, que o sono é irmão da morte; e o é na realidade. O sono não é senão a retirada do Espírito ou da alma, o abandono provisório feito por ela das partes exteriores e mais grosseiras do corpo. Dá-se o mesmo no momento da morte. Durante o sono, nessas partes de nosso corpo, abandonadas por algum tempo por nossa personalidade mais elevada, não reside senão a vida vegetativa. O homem fica num estado de insensibilidade, mas seu sangue circula nas veias, sua respiração continua; todas as funções da vida vegetativa estão em plena atividade, assemelhando-se às da vida inconsciente das plantas.
Essa retirada passageira do elemento espiritual do homem parece necessária, de vez em quando, para o elemento material, porque este último acaba por se destruir, a bem dizer, a si mesmo, por um desgaste muito prolongado, e se enfraquece ao serviço do Espírito.
A vida vegetativa, abandonada a si mesma, e deixada em repouso pela atividade do Espírito, pode então continuar a trabalhar sem entraves na sua restauração, conforme as leis de sua natureza. Eis por que, depois de um sono saudável, sentimos nosso corpo como repousado, com o que se alegra o nosso Espírito; mas, depois da morte, a vida vegetativa também abandona os elementos materiais do corpo, que lhe deviam sua ligação, e eles se desagregam.
O corpo abandonado pelo Espírito ou alma pode, em certos casos, nos parecer com vida, mesmo quando a morte verdadeira já está consumada, isto é, quando o elemento espiritual já o deixou. O cadáver abandonado por seu Espírito continua a respirar, seu pulso a bater; diz-se: “Ele ainda vive.” Por outro lado, por vezes pode acontecer que a força vital, tendo positivamente abandonado algumas partes do corpo, estas estão verdadeiramente mortas, enquanto o Espírito e o corpo ficam unidos nas outras partes do corpo onde ainda reside a força vital.
O sono, um dos maiores segredos da existência humana, merece as nossas observações mais constantes e mais atentas; mas a dificuldade que apresentam essas observações tornam-se tanto maior quanto, para as fazer, o Espírito observador é forçado a submeter-se às leis da natureza material e de a deixar agir, para lhe dar a faculdade de se prestar mais facilmente ao seu uso e às suas experiências. Todo sono é o alimento da força vital.
O Espírito aí em nada participa, porque o sono é também completamente independente do Espírito, como a digestão, a transformação dos alimentos em sangue, o crescimento dos cabelos, ou a separação do corpo dos líquidos inúteis. O estado de vigília é um consumo da força vital, sua expansão fora do corpo e sua ação exterior; o sono é uma assimilação, uma atração dessa mesma força de fora. Eis por que achamos o sono, não só nos homens e nos animais, mas também nas plantas que, à aproximação da noite, fecham as corolas de suas flores ou deixam pender suas folhas, depois de as haver plissado.
Qual é, pois, o estado de nosso elemento espiritual, durante a sua retirada de nossos sentidos exteriores? Ele não é mais apto a receber as impressões de fora, pelo uso dos olhos, dos ouvidos, pelo paladar, pelo olfato e pelo tato; mas, poder-se-ia dizer que durante esses momentos o nosso nós se aniquilasse? Se assim fosse, nosso corpo receberia todas as manhãs um outro Espírito, uma outra alma, em lugar daquela que estaria destruída. Tendo-se o Espírito retirado de seus sentidos, continua a viver e agir, embora não podendo manifestar-se senão imperfeitamente, tendo renunciado por algum tempo aos instrumentos de que tem o hábito de se servir ordinariamente.
Os sonhos são outras tantas provas da continuação da atividade do Espírito. O homem desperto lembra-se de ter sonhado, mas essas lembranças geralmente se tornam vagas ou obscuras pelas vivas impressões que se precipitam subitamente para o Espírito ao despertar, por intermédio dos sentidos. Se mesmo nesse momento ignora de que visões se havia ocupado durante o sono, conserva, não obstante, no momento de um despertar súbito, a consciência de que sua atenção se destacou de alguma coisa que o tinha preocupado, até então dentro de si mesmo.
O sono se compõe sempre de visões, de desejos e de sentimentos, mas que se formam de maneira independente dos objetos exteriores, já que os sentidos exteriores do homem ficam inativos; é por isso que raramente deixam uma impressão viva e durável na memória. Então o Espírito devia estar ocupado, embora não possamos, depois do sono, recordar dos resultados de sua atividade. Mas qual o homem que está em condição de se recordar dos milhares dessas rápidas visões que se apresentam ao seu Espírito, mesmo em estado de vigília, em tal ou qual hora do dia?
Tem, por isso, o direito de pretender que seu Espírito não teve visões, justo no momento em que, antes de tudo, estava ativo e refletindo?
Durante o sono, o Espírito conserva o sentimento de sua existência, tão bem quanto em vigília. Mesmo durante o sono, sabe distinguir-se perfeitamente dos objetos de suas visões. Cada vez que nos lembramos de um sonho, achamos que era o nosso próprio eu que, com um sentimento muito imperfeito de sua individualidade, flutuava entre as imagens de sua própria fantasia.