O nascimento e a morte são ambos cercados de trevas impenetráveis. Ninguém sabe de onde veio, quando Deus o chamou; ninguém sabe aonde irá, quando Deus o chamará. Quem poderia dizer-me se eu já não existi, antes de tomar o meu corpo atual? O que é esse corpo, que pertence tão pouco ao meu eu, que, durante uma existência de cinqüenta anos, eu o teria mudado várias vezes como uma roupa? Eu não tenho mais a mesma carne e o mesmo sangue que tinha quando era amamentado, nos anos de minha juventude e na maturidade; as partes de meu corpo, que me pertenceram durante a primeira idade, já estão, desde muito tempo, dissolvidas e evaporadas. Só o Espírito permanece o mesmo durante todas as variações que sofre o seu invólucro terreno. Por que necessitaria eu, para a minha existência, do corpo que possuía quando era pequenino? Se existi antes dele, onde estava eu? E quando me desembaraçar de minha roupa atual, onde estarei?
Ninguém me responde. Vim aqui como que por milagre e é por milagre que desaparecerei. O nascimento e a morte lembram ao homem esta verdade tantas vezes esquecida, a de que ele se encontra sob o poder de Deus.
Mas essa verdade é, ao mesmo tempo, uma consolação.
O poder de Deus é o poder da sabedoria, o encanto do amor. Se o começo e o fim de minha vida são envoltos em trevas, devo pensar que deve ser um benefício para mim, como tudo o que vem de Deus é benefício e graça. Quando tudo ao meu redor proclama sua sabedoria suprema e sua bondade infinita, posso crer que as trevas que cercam o berço e o ataúde são as únicas exceções? É possível que eu já tenha existido uma vez, mesmo várias vezes? Quem conhece os mistérios da natureza dos Espíritos?48 Minha presença não seria talvez uma fraca imagem da existência eterna? Já não vejo aqui a minha passagem da eternidade à eternidade, como num espelho opaco?
Eu ousaria embalar-me em estranhos pressentimentos?
Esta vida seria realmente uma imagem em miniatura da existência eterna? Que seria se eu já tivesse tido várias existências, se cada uma delas fosse uma hora de vigília da infância de meu Espírito e cada mudança de seu envoltório, de suas relações ou o que se chama morte, uma letargia para um despertar com forças novas? É verdade que me é impossível saber quantas vezes e como existi, antes que Deus me tivesse chamado à existência atual; mas a criança de peito sabe mais do que eu de suas primeiras horas?
Então perdeu tanto que não possa lembrar-se de seu primeiro sorriso e de suas primeiras lágrimas? Quando tiver mais idade não se recordará mais, muito certamente, mas saberá o que foi nos seus primeiros anos; saberá que sorriu, chorou, velou, dormiu, sonhou, absolutamente como os outros. Se aqui é possível, por que seria impossível que um dia, depois de uma viagem mais elevada de meu Espírito imortal, pudesse este lembrar-se e analisar a carreira percorrida, as diversas circunstâncias em que se encontrou durante sua viagem e os mundos em que habitou? Em que degrau de idade estou agora colocado? Assemelho-me ainda à criança que, uma hora depois, já esqueceu os acontecimentos da hora precedente e não está em condição de guardar a lembrança de um sonho que, tendo-a transportado à vida exterior, a separou da vigília precedente; mas me pareço com uma criança que, todavia, já sabe reconhecer os seus pais. Esquece os prazeres e os desgostos do momento decorrido; mas, a cada despertar, reconhece novamente suas feições queridas. Assim se dá comigo: também reconheço meu Pai, meu Deus no Todo-Eterno. Eu o teria procurado com os olhos, tê-lo-ia chamado, mesmo que ninguém me tivesse falado dEle; porque a lembrança do Pai celeste é, ao que se diz, inata em cada homem. Todos os povos guardam essa lembrança, mesmo os mais selvagens, cujas ilhas solitárias, banhadas pelo oceano, jamais foram abordadas por viajantes civilizados. Dizem inata; talvez se devesse dizer herdada, transportada de uma vida anterior, exatamente como a criancinha, de um sonho anterior a outro posterior, se refere à lembrança de sua mãe.
Mas eu caio nos sonhos! Quem está em condições de aprová-los ou rejeitá-los? Eles se assemelham às primeiras lembranças, muito vagas e muito fracas que uma criança tem de algo que lhe parece ter ocorrido em seus momentos de passadas vigílias. Nossas mais audaciosas suposições, mesmo quando as julgamos verdadeiras, não passam do reflexo fugidio e confuso de nossos sentimentos que datam de um passado esquecido. Aliás, eu não me censuro por isso. Mesmo supondo-as quiméricas, elas levantam o meu Espírito, porquanto, encarando a nossa vida terrena como uma hora de uma criança de peito, que vasta e incomensurável perspectiva da eternidade se desdobra à minha frente! Qual será, então, a juventude mais avançada, a plena maturidade de meu Espírito imortal, quando, ainda muitas vezes, eu tiver velado, dormido e subido um maior número de degraus da escada espiritual?
O dia da morte terrena tornar-se-á, então, meu novo dia de nascimento para uma vida mais elevada e mais perfeita, o começo de um sono que será seguido de um agradável despertar. A graça divina me sorrirá com um amor maior que a afeição com que uma mãe terrena sorri ao filhinho ao despertar, no momento em que este abre os olhos.