143a Meditação – Da transfiguração após a morte
Podemos esquecer os acessórios dos sonhos que não produzem entre nós senão uma fraca impressão, e durante os quais o nosso Espírito não reagiu fortemente por seus desejos e sentimentos. Por conseguinte, poderíamos também esquecer que então tínhamos o sentimento de nossa existência, mas isto não é uma razão para supor que este último tenha sido suspenso um só instante, pelo fato de dele não mais nos lembrarmos! Há homens que, preocupados com graves reflexões, não sabem, mesmo em estado de vigília, o que se passa em torno deles. Seu Espírito, tendo-se retirado das partes exteriores do corpo e dos órgãos dos sentidos, concentra-se e não se ocupa senão consigo mesmo e, exteriormente, parecem sonhar ou dormir com os olhos abertos. Mas quem poderá negar que hajam guardado plenamente o sentimento de sua existência, durante esses momentos de profunda meditação, embora não vejam com os olhos e não escutem com os ouvidos? Uma outra prova da continuação incessante do sentimento de nossa existência e de nossa identidade, é o poder que possui o homem de despertar por si mesmo, numa hora por ele fixada previamente. Conseqüentemente, não se pode dizer que um homem mergulhado num sono mais ou menos profundo tenha perdido a consciência de si mesmo, quando, ao contrário, traz em si o sentimento de sua existência, mas sem poder no-lo manifestar. É justamente o caso dos desfalecimentos, quando o elemento espiritual do homem se retira em si mesmo, por efeito de uma perturbação passageira e parcial de sua vida vegetativa, porque o Espírito foge a tudo o que é morto, e não se prende senão à força vital, àquilo que, por si mesmo, não passa de matéria inerte. O homem desmaiado não dá nenhum sinal exterior de vida, mas desta não está privado, como não o está durante o sono. Muitas pessoas desmaiadas, assim como os adormecidos, muitas vezes conservam a lembrança de algumas das visões que tiveram durante este estado, que tanto se avizinha do da morte; outras não as esquecem. Há desmaios durante os quis o corpo fica lívido, frio, privado de respiração e de movimento e parece inteiramente um cadáver, enquanto o Espírito, achando-se ainda em comunicação com alguns sentidos, compreende tudo o que se passa à sua volta, sem poder, como nos casos de catalepsia, dar qualquer sinal exterior de vida e de conhecimento. Quantas pessoas foram enterradas vivas desta maneira, com plena consciência de tudo quanto ordenavam para o seu enterro, por parentes ou amigos enganados por uma aparência fatal!49 Um outro estado deveras notável do homem nos dá a prova da atividade ininterrupta do Espírito e do conhecimento de si mesmo, que jamais se perde, mesmo quando, depois, não mais se recorda. É o estado de sonambulismo. O homem adormece em seu sono ordinário. Não ouve, não vê e nada sente; mas, subitamente, tem o ar de despertar, não de seu sono, mas em si mesmo. Ouve, mas não com os ouvidos; vê, mas não com os olhos; sente, mas não pela epiderme. Anda, fala, faz muitas coisas e exerce várias funções, para o espanto geral dos assistentes, com a maior circunspeção e com mais perfeição do que em vigília. Nesse estado lembra-se, muito distintamente, dos acontecimentos passados quando em vigília, mesmo dos que esquece quando está acordado, ocasião em que está de posse de todos os sentidos. Depois de haver ficado nesse estado durante algum tempo, o sonâmbulo cai de novo no sono ordinário e quando é tirado deste, não se recorda absolutamente de nada do que se passou. Esqueceu tudo quanto disse e fez e muitas vezes se nega em acreditar o que dele contam os espectadores. Poder-se-ia, entretanto, negar a seu Espírito o conhecimento de si mesmo, assim como sua admirável atividade durante o sono sonambúlico? Quem o ousaria? O sonâmbulo, caindo novamente no sono que constitui seu despertar interior, lembra-se perfeitamente, nesse estado incompreensível para si próprio, de tudo o que fez e pensou antes num estado semelhante, e do qual havia perdido completamente a lembrança durante o estado de vigília de seus sentidos exteriores. Como explicar este fenômeno? Como é que um homem que dorme não apenas pode ver e ouvir com os seus sentidos exteriores inativos, mas isto mais positivamente, mais perfeitamente do que em vigília? Porque sabemos que o corpo não é senão o vaso ou o envoltório exterior da alma; porque, sem esta, nada pode experimentar, e porque o olho de um cadáver vê tanto quanto o olho de uma estátua. É, pois, a alma e unicamente a alma que sente, vê e ouve o que se passa fora dela. O olho, o ouvido, etc., não passam de instrumentos e dispositivos favoráveis do envoltório exterior, para proporcionar à alma as impressões de fora. Mas há circunstâncias nas quais esse envoltório grosseiro, achando-se partido ou estragado, a alma, por assim dizer, o atravessa e continua sua ação, sem por isto necessitar de seus sentidos exteriores. Então ela reage com um acréscimo de vigor, mas completamente diverso de quando em seu estado ordinário ou de vigília, contra o que não está morto no homem. É, pois, mesmo a alma que é o ser que sente, e não o corpo; conseqüentemente, é ela quem forma o verdadeiro corpo do Espírito, e o corpo material não é senão o seu arcabouço exterior, sua cobertura, seu envoltório. A experiência e inumeráveis exemplos nos provam suficientemente que o Espírito nunca perde a sua atividade e a consciência de seu eu, mesmo quando não pode lembrar-se minuciosamente de cada momento particular de sua existência. Sabendo que o Espírito, absorvido em profundas reflexões, perde de vista seu próprio corpo e tudo o que o cerca; que, em certas doenças, pode achar-se na absoluta impossibilidade de agir sobre as partes exteriores de seu corpo e, algumas vezes, delas prescindir completamente (como no estado de sonambulismo), para a execução de seus desígnios, devemos compreender claramente como o Espírito imortal, tendo deixado o seu invólucro material e perecível, conserva, depois de sua morte terrestre, a consciência e o sentimento de sua existência, embora se achando fora do estado de poder manifestá-lo aos vivos, por meio do cadáver, já que este não lhe pertence mais. Ao mesmo tempo, compreendemos o que é o corpo espiritual, de que fala o apóstolo Paulo; o que devemos entender por corpo imperecível, que deve renascer do corpo perecível (I Cor., 15:4); como a fraqueza se abate e é semeada no túmulo, e como a força se eleva e se lança para o céu, madura para uma vida melhor (I Cor., 15:43). Eis a verdadeira ressurreição da morte, a ressurreição espiritual. O que em nós é pó deve voltar ao pó e às cinzas; mas o Espírito, vestido num corpo transfigurado, leva daí em diante a imagem do céu, exatamente como até agora tinha levado a imagem da Terra (I Cor., 15:49). O corpo terrestre, apodrecendo no túmulo, nada mais sente, mas também jamais sentiu por si mesmo. Era, pois, o corpo espiritual, a alma, que percebia e sentia tudo. Assim ela continuará a fazê-lo, livre de seu vaso partido, mas apenas de uma maneira infinitamente mais delicada e mais pronta. Tendo o Espírito consciência de si mesmo em seu envoltório espiritual, poderia perfeitamente e infinitamente melhor ainda, admirar a glória de Deus em suas criações, e ao mesmo tempo possuir as faculdades de ver e amar os que lhes são caros; mas não mais experimentará necessidades materiais e sensuais, não terá mais lágrimas. Tornar-se-á a imagem do céu, que é a sua verdadeira pátria. Que sentirei no momento em que me chamares a ti, meu Criador, meu Pai! no momento de minha transfiguração, quando, cercado de meus bem-amados, chorando em volta de mim e vendo meus bem-amados que me precederam aproximar-se de mim, eu os bendirei a todos com igual amor! E quando, santificado por Jesus-Cristo, participando de seu reino, eu me apresentar diante de ti, ó meu Deus! adorando-te com o mais vivo reconhecimento, com a mais profunda veneração, com a admiração sem limites! Que meu Espírito imortal esteja então bastante maduro para gozar esta felicidade suprema! Amém.
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Mês Outubro
Ano 1868