Não será possível combater a Religião em nome da Ciência, porque a Religião não será mais o dogma acanhado e exclusivo, o culto material que houvermos conhecido; será o remate triunfal de todas as conquistas, de todas as aspirações do espírito humano; será o surto do pensamento que se apóia na certeza experimental, na comprovada evidência do mundo invisível, na cognitiva apreensão de suas leis, e, firme nessa base sólida, se eleva para a Causa das causas, para a soberana Inteligência que preside à ordem do Universo, para abençoá-la, por lhe haver concedido a possibilidade de penetrar suas obras e associar-se a elas.
Então, cada qual compreenderá que ciência e religião não eram mais que palavras, necessárias para designar as flutuações do pensamento em seus primeiros ensaios infantis, estado transitório do Espírito em sua evolução para a verdade. E esse estado terá desaparecido com as sombras da ignorância e da superstição, para ceder o lugar ao Conhecimento, ao conhecimento real da alma e do seu futuro, do Universo e de suas leis; com esse conhecimento, virão a luz e as energias que permitirão, finalmente, à alma humana ocupar o lugar que lhe pertence e desempenhar o seu verdadeiro papel na obra da Criação.
Sempre a Ciência se desvaneceu com as suas conquistas e o seu orgulho é bem legítimo. Incompleta e variável, entretanto, a Ciência não é mais que o conjunto das concepções de um século, que a Ciência do século seguinte ultrapassa e submerge. A despeito das suas cegas negações e acanhada obstinação, dia a dia são as opiniões dos sábios desmentidas nalgum ponto. Desmoronam-se teorias penosamente arquitetadas, para cederem o lugar a outras teorias. Através da sucessão dos tempos, o pensamento se desdobra e avança, mas, em sua marcha, quantas hesitações, quantos períodos de eclipse e mesmo de recuo!
Considerando os preconceitos e a rotina da Ciência foi que se levantaram veementes, contra ela, certos escritores e a acusaram de incapacidade e de falência. Era uma acusação injusta. Como o demonstramos, a “bancarrota” não atingiu senão os sistemas materialistas e positivistas. No sentido oposto, a teologia e a escolástica, impelindo os espíritos para o misticismo, haviam provocado inevitável reação.
O misticismo e o materialismo fizeram sua época. O futuro pertence à nova ciência, à ciência psíquica, que estuda todos os fenômenos e lhes pesquisa as causas, reconhece a existência de um mundo invisível e, com todas as análises que possui, formulará uma síntese magnífica da vida e do Universo, para difundir o seu conhecimento por toda a Humanidade.
Ela destruirá a noção do sobrenatural, mas franqueará às investigações humanas ignorados domínios da Natureza, que encerram inesgotáveis riquezas.
É sob a influência do Espiritismo experimental que essa evolução científica já se vai efetuando. É a ele, digam o que disserem, que a nova ciência deve a vida, porque, sem o impulso que ele imprimiu ao pensamento, essa ciência estaria ainda por nascer.
O Espiritismo traz a cada ciência os elementos de uma verdadeira renovação. Pela comprovação dos fenômenos, conduz a Física à descoberta das formas sutilíssimas da Matéria.
Esclarece todos os problemas da Fisiologia pelo conhecimento do corpo fluídico. Sem a existência deste, seria impossível explicar a aglomeração, na forma orgânica e sobre um plano determinado, das inúmeras moléculas que constituem o nosso invólucro terrestre, do mesmo modo que a conservação da individualidade e da memória, através das constantes mutações do corpo humano.
Graças ao Espiritismo, a Psicologia já se não sente embaraçada por tantas questões obscuras e, particularmente, pela das personalidades múltiplas, que se sucedem sem se conhecerem, no mesmo indivíduo. As experiências espíritas fornecem à Patologia os meios de curar a obsessão e os inúmeros casos de loucura e alucinação que com ela se relacionam. A prática do magnetismo, a utilização dos fluidos curativos, revolucionam e transformam a Terapêutica.
O espiritualismo integral nos faz melhor compreender a evolução da vida, mostrando-nos o seu princípio nos progressos psíquicos do ser, que constrói e aperfeiçoa, por si mesmo, as suas formas através dos tempos.
Essa evolução, em que as nossas vidas terrestres não representam mais que uma fase transitória, simples paradas em nossa grande jornada ascensional através dos mundos, vem confirmar os testemunhos da Astronomia, que mostra a exígua importância do nosso planeta no conjunto do Universo, e conclui pela habitabilidade das outras terras do espaço.
É assim que o Espiritismo vem enriquecer e fecundar os mais diversos domínios do pensamento e da Ciência. Esta se havia limitado ao estudo do mundo sensível, do mundo inferior da matéria. O Espiritismo, demonstrando a existência de um mundo fluídico que é o complemento, o prolongamento daquele, lhe descerra ilimitados horizontes, facultando-lhe maior impulso e desenvolvimento. E, como esses dois mundos se ligam e reagem constantemente um sobre o outro, sendo incompleto o conhecimento de um sem o conhecimento do outro, o Espiritismo, aproximando-os, unindo-os, vem tornar possíveis a explicação dos fenômenos da vida e a solução dos múltiplos problemas em cuja presença permanecera a Ciência impotente e muda até agora. Vem finalmente libertar a Humanidade dos sistemas restritivos, da rotina obstinada, para fazê-la participar da vida ampla, infinita.
A obra é imponente e grandiosa. O novo espiritualismo convida a se lhe associarem todas as inteligências, todas as almas generosas, todos os espíritos ávidos de luz e de ideal. O campo de ação que lhes faculta, as riquezas que lhes oferece, não têm limites. Sábios, poetas, pensadores e artistas, todos quantos se sentem apaixonados de ciência profunda, beleza ideal, harmonia divina, hão de nele encontrar uma fonte inesgotável de inspirações.
A doutrina das transmigrações, a magnífica epopéia da vida imortal que se desdobra na superfície dos mundos, oferecerá tema à produção de obras-primas, que excederão em magnitude as geniais concepções de outrora.
Essa ação renovadora far-se-á igualmente sentir nas religiões, posto que muito mais lenta e dificilmente. Dentre todas as instituições humanas, são estas, com efeito, as mais refratárias a qualquer reforma, a qualquer impulso para frente; todavia, estão, como todas as coisas, sujeitas à lei divina do progresso.
No plano superior de evolução, cada símbolo, cada forma religiosa deve ceder o lugar a concepções mais altas e mais puras. O Cristianismo não pode desaparecer, porque os seus princípios contêm o germe de renascimentos infinitos; deve, porém, despir as diferentes formas revestidas no curso das idades, regenerar-se nas fontes da nova revelação, apoiar-se na ciência dos fatos e voltar a ser um manancial de fé viva.
Nenhuma concepção religiosa, nenhuma forma cultural é imutável. Dia virá em que os dogmas e cultos atuais irão reunir-se aos destroços dos antigos cultos; o ideal religioso, porém, não há de perecer; os preceitos do Evangelho dominarão sempre as consciências, como a grande figura do Crucificado dominará o fluxo dos séculos.
As crenças, as diferentes religiões, tomadas em sua ordem sucessiva, poderiam, numa certa medida, ser consideradas os degraus que o pensamento galga em ascensão para concepções cada vez mais vastas da vida futura e do ideal divino. Sob este prisma, têm sua razão de ser; mas chega sempre um tempo em que as mais perfeitas se tornam insuficientes, um momento em que o espírito humano, em suas aspirações e impulsos, eleva-se acima do círculo das crenças usuais, para buscar mais completa forma do conhecimento.
Então ele percebe o encadeamento que prende todas essas religiões. Compreende que todas se ligam por uma base de princípios comuns, que são as imperecíveis verdades, ao passo que todo o resto – formas, ritos e símbolos, são coisas transitórias, passageiros acidentes da história humana.
Sua atenção, desviando-se dessas formas, dessas expressões religiosas, volta-se para o futuro. Aí vê elevar-se acima de todos os templos, de todas as religiões exclusivistas, uma religião mais vasta que a todos abrangerá, que já não terá ritos nem dogmas, nem barreiras, mas dará testemunho dos fatos e das verdades universais – uma Igreja que, por sobre todas as seitas e todas as igrejas, estenderá as vigorosas mãos para proteger e abençoar. Vê erigir-se um templo em que toda a Humanidade, recolhida e prosternada, unirá os pensamentos e as crenças numa idêntica comunhão de fé, que se resumirá nestas palavras: Pai nosso que estais nos céus!
Tal será a religião do futuro, a religião universal. Não será uma instituição fechada, uma ortodoxia regida por estreitas normas, senão uma fusão dos corações e dos espíritos.
O moderno espiritualismo, com o movimento de idéias que provoca, prepara o seu advento. Sua ação crescente arrancará as atuais igrejas à imobilidade que as detém e as obrigará a voltarem-se para a luz que se espraia no horizonte.
É verdade que, em presença dessa luz, à vista das profundezas que vem iluminar, muitas almas aferradas ao passado tremem ainda e sentem-se tomadas de vertigem. Temem pela sua fé, pelo seu ideal envelhecido e vacilante; deslumbra-as essa luz demasiado viva. Não é Satanás, dizem elas, quem faz brilhar aos olhos dos homens uma enganadora miragem? Não será isso obra do Espírito do mal?
Tranqüilizai-vos, pobres almas, não há outro Espírito do mal senão a ignorância. Essa radiação é o chamamento de Deus que quer dele vos aproximeis, que abandoneis as obscuras regiões, a fim de pairardes nas esferas luminosas.
As igrejas cristãs não têm razão de se alarmarem com esse movimento. A nova revelação não as vem destruir, mas esclarecê-las, regenerá-las, fecundá-las. Se a souberem compreender e aceitar, nela encontrarão inesperado auxílio contra o materialismo que incessantemente lhes açoita as bases com suas ondas rugidoras; nela hão de encontrar um novo potencial de vida.