O mesmo acontecia do lado do céu, porque os Espíritos elevados, em virtude da natureza sutil do seu invólucro, dos seus fluidos etéreos pouco em harmonia com os dos Espíritos inferiores, encontram muito mais dificuldade do que os homens em comunicar com eles, em razão da diferença de afinidade. Todas as pobres almas errantes, torturadas pela angústia, assaltadas pelas recordações pungentes do passado, achavam-se abandonadas a si próprias, sem que um pensamento amigo, como um raio de sol, pudesse iluminar as suas trevas. Imbuídas, na maior parte, de inveterados prejuízos, convencidas muitas vezes, por falsa educação, da realidade das penas eternas que supunham estar sofrendo, a situação se lhes tornava horrível e suscitava, muitas vezes, pensamentos de raiva e de furor, uma necessidade de vingança que procuravam saciar nos homens fracos ou propensos ao mal.
A ação maléfica desses Espíritos aumentava, por esse mesmo fato, o abandono em que jaziam.
Retidos por seus fluidos grosseiros, na atmosfera terrestre, em permanente contacto com os homens acessíveis à sua influência e podendo fazer-lhes sentir a sua própria, eles não visavam senão um fim: fazer os homens compartilharem das torturas que acreditavam sofrer.
Foi por isso que, durante toda a Idade Média, época em que foram interditas as relações com o mundo invisível, consideradas criminosas e passíveis da pena do fogo, viram-se multiplicar, durante longos séculos, os casos de obsessão, de possessão, e dilatar-se a perniciosa influência dos Espíritos do mal. Em lugar de procurar congraçá-los por meio de preces e benévolas exortações, a Igreja não teve para eles senão anátemas e maldições; ela não procede senão por exorcismos, recurso além do mais impotente, cujo único resultado é irritar os maus Espíritos, provocar-lhes réplicas ímpias ou cínicas, e os atos indecentes ou odiosos, que sugerem às suas vítimas.
Perdendo de vista as puras tradições cristãs, sufocando as vozes do mundo invisível com a ameaça da fogueira e das torturas, a Igreja repudiou a grande lei de solidariedade que une todas as criaturas de Deus em sua ascensão comum, impondo às mais adiantadas a obrigação de trabalhar por instruir e regenerar suas irmãs inferiores. Durante séculos ela privou o homem dos socorros, dos esclarecimentos, dos inestimáveis recursos que proporciona a comunhão dos Espíritos elevados. Privou as gerações dessas permutas de ternura com os amados entes que nos antecederam na outra vida, permutas que são a alegria, a consolação suprema dos aflitos, dos isolados na Terra, de todos os que padecem as angústias da separação. Privou a Humanidade desse fluxo de vida espiritual que desce dos espaços, retempera as almas e reanima os tristes corações desfalecidos.
Assim se fez, pouco a pouco, a obscuridade nas doutrinas e nos cérebros, velaram-se as mais cintilantes verdades, surgiram pueris ou odiosas concepções, à míngua de toda crítica e exame. E a dúvida se espalhou, o espírito de cepticismo e negação invadiu o mundo.(cxxvi)
O Espiritismo vem restabelecer essa comunhão das almas, que é fonte de energia e luz. Fazendo-nos conhecer a vida futura sob aspectos verdadeiros, nos liga a todas as potências do infinito e nos torna aptos para receber as suas inspirações. Os ensinos dos Espíritos superiores, os conselhos de nossos amigos do além-túmulo, exercem em nós mais profunda impressão do que todas as exortações lançadas do púlpito, ou as lições da mais elevada filosofia.
Fazendo-nos ver nos maus Espíritos almas extraviadas, suscetíveis de retorno ao bem, fornecendo-nos os meios de sobre eles agir, de suavizar-lhes a sorte, de preparar-lhes a reabilitação, o Espiritismo estanca um antagonismo deplorável; torna impossível a reprodução das cenas de possessão de que o passado está repleto. Inspira ao homem a única atitude conveniente para com os Espíritos elevados, que são seus mestres e guias e para com os Espíritos inferiores, que são seus irmãos.
Prepara-o para preencher dignamente a tarefa que lhe impõe a lei de solidariedade e caridade que liga todos os seres. O Espiritismo, como se vê, exerce em todos os meios benéfica influência.
No espaço, melhora o estado dos Espíritos inferiores, permitindo aos homens esclarecidos colaborar em sua reabilitação. Na Terra introduz, na ordem social, poderosos elementos de moralização, conciliação e progresso. Esclarecendo os obscuros problemas da existência, oferece remédio eficaz contra as utopias perigosas, contra as imoderadas ambições e as teorias dissolventes. Aplaca os ódios, acalma as paixões violentas e restabelece a disciplina moral, sem a qual não pode haver entre os homens nem paz, nem harmonia.
Aos brados ameaçadores, às reivindicações tumultuosas, que das turbas às vezes se levantam, aos pregões à violência, às imprecações contra a sorte, vêm responder a voz dos Espíritos: Homens, recolhei-vos em vosso íntimo, aprendei a conhecer-vos, conhecendo as leis que regem as sociedades e os mundos. Falais constantemente dos vossos direitos; aprendei que possuís unicamente os que vos conferem o vosso valor moral, o vosso grau de adiantamento. Não invejeis a riqueza: ela impõe grandes deveres e onerosas responsabilidades. Não aspireis à vida de ociosidade e luxo; o trabalho e a simplicidade são os melhores instrumentos do vosso progresso e felicidade porvindoura. Sabei que tudo é regulado com eqüidade, que nada é entregue às contingências do acaso. A situação do homem, neste mundo, é a que para si próprio preparou. Suportai, pois, com paciência os sofrimentos necessários, escolhidos por vós mesmos. A dor é um meio de elevação; o sofrimento do presente repara os erros de outrora e engendra as felicidades do futuro.
A existência terrestre não é mais que uma página do grande livro da vida, uma breve passagem que liga duas imensidades – a do passado e a do futuro. O globo que habitais é apenas um ponto no espaço, uma estância inferior, um lugar de educação, de preparação para mais altos destinos. Não julgueis, pois; não meçais a obra divina com o exíguo estalão e no círculo restrito do presente. Compreendei que a justiça eterna não é a justiça dos homens; ela não pode ser apreciada senão em suas relações no conjunto das nossas existências e a universalidade dos mundos. Confiai-vos à Suprema Sabedoria; desempenhai a tarefa que ela vos distribui e que, livremente, antes de nascerdes, haveis aceitado. Trabalhai com intrepidez e consciência em melhorar a vossa sorte e a dos vossos semelhantes; esclarecei a inteligência, desenvolvei a razão. Quanto mais árdua vos for a tarefa, mais rápido será o vosso adiantamento. A fortuna e o prazer não são mais que embaraços para quem deseja elevar-se. Deste mundo não se levam bens nem honras, mas, unicamente, as aptidões adquiridas e os aperfeiçoamentos realizados; nisso consistem as riquezas imperecíveis, contra as quais a morte nada pode.
Erguei o olhar acima da Terra. Com a proteção dos invisíveis, dos vossos guias espirituais cujos socorros não vos faltarão se os invocardes com fervor, avançai resolutamente no caminho da vida. Amai vossos irmãos; praticai com todos a caridade e a justiça. Lembrai-vos de que constituís, todos, uma grande família oriunda de Deus, e que vos sonegar a vossos irmãos é sonegar a eterna bondade de Deus, que é pai comum; é vos sonegardes a vós mesmos, que não fazeis com eles mais que um só, no pensamento criador d'Aquele a quem tudo devemos.
Porque a única felicidade, a única harmonia possível neste mundo não é realizável senão pela união com os nossos semelhantes, união pelo pensamento e pelo coração, enquanto da divisão procedem todos os males: a desordem, a confusão, a perda de tudo o que constitui a força e a grandeza das sociedades.
Suscita-se freqüentemente esta questão: o moderno espiritualismo é uma ciência, ou uma religião?
Até agora esses dois sulcos traçados pelo espírito humano em sua secular pesquisa da verdade conduziram a opostos resultados, indício manifesto do estado de inferioridade do pensamento, comprimido, escravizado, limitado em seu campo de ação. Prosseguindo, porém, a sua marcha, um dia forçosamente chegará – e esse dia vem próximo – em que o espírito humano atingirá um domínio comum a essas duas formas da idéia; aí se hão de elas fusionar, unificar-se em uma síntese, em uma concepção da vida e do Universo que há de abranger o presente e o futuro e fixar as leis eternas do destino.
O moderno espiritualismo, ou espiritualismo integral, será o terreno em que se há de efetuar essa aproximação. Nenhuma outra doutrina pode fornecer à Humanidade essa concepção geral que, do mais íntimo da vida inferior, eleva o pensamento às culminâncias da Criação, até Deus, e liga todos os seres numa intermita cadeia.
Quando essa concepção tiver penetrado nas almas, quando se houver constituído o princípio de educação, o alimento intelectual, o pão de vida de todos os filhos dos homens, já não haverá possibilidade de separar a Ciência da Religião e, ainda menos, de combater uma em nome da outra, porque a Ciência, até agora encerrada no círculo da vida terrestre e do mundo material, terá reconhecido o invisível e levantado o véu que oculta a vida fluídica; terá sondado o Além, para lhe determinar as formas e precisar as leis. E a existência futura, a ascensão da alma em seus inumeráveis domicílios, já não será uma hipótese, uma especulação destituída de provas, senão a realidade viva e palpitante.