1ª Parte - Cap. 8: A morte de Estevão
Atravessando os grupos que o saudavam com fre néticas aclamações, o moço tarsense parecia alheado de si mesmo. Conduzia Abigail pelo braço, delicadamente, mas não lhe dirigia palavra. A surpresa emudecera -o. E se Estevão fosse, de fato, aquele Jeziel que aguarda vam com tamanha ansiedade? Absorvidos em angustio sas reflexões, penetraram na câmara solitária. O jovem doutor ordenou a retirada dos auxiliares, fechou cuida dosamente a porta. Abigail aproximou-se do irmão ensangüentado, com infinita ternura. E, como se sentisse chamado à vida por uma força poderosa e invencível, ambos notaram que a vítima movia a cabeça sangrenta. Evidenciando o penoso esforço da derradeira agonia, Estevão mur murou: — Abigail!... Aquela voz era quase um sopro, mas o olhar estava calmo, límp ido. Ouvindo-lhe a expressão vacilante e arrastada, o jovem tarsense recuou tomado de espanto. Que significava tudo aquilo? Não poderia duvidar. A vítima de sua perseguição implacável era o irmão bem -amado da mulher escolhida. Que mecanismo do destino enge ndrara semelhante situação, que lhe havia de amargurar toda a vida? Onde estava Deus, que não o inspi rara no dédalo de circunstâncias que o levaram até àquele irremediável, cruel desfecho? Sentiu se possuído de um pesar sem limites. Ele, que elegera Abig ail o anjo tutelar da existência, seria obrigado a renunciar a esse amor para sempre. O orgulho de homem não lhe permitiria desposar a irmã do suposto inimigo, confes sado e julgado reles criminoso. Aturdido, deixou -se ali ficar, como se força incoercível o chumbasse ao solo, transformando -o em objeto de insuportáveis ironias. — Jeziel! — exclamou Abigail osculando e regando de lágrimas a fronte do moribundo — como te vejo eu!... Parece que o suplício te durou desde o dia em que nos separamos!... E soluçava ... — Estou bem... — disse o discípulo de Jesus, fa zendo o possível por mover a destra quebrada e deixando perceber o desejo de acariciar -lhe os cabelos, como nos dias da meninice e da primeira juventude. — Não chores!... Eu estou com o Cristo!... — Quem é o Cristo? — murmurou a jovem — Por que te chamam Estevão? Como te modificaram assim? — Jesus... é o nosso Salvador... — explicava o agonizante, no propósito de não perder os minutos que se escoavam céleres. — E, agora, chamam-me Estevão... porque um rom ano generoso me libertou... mas pediu... absoluto segredo. Perdoa-me... Foi por gratidão que obedeci ao conselho. Ninguém será reconhecido a Deus se não mostrar agradecimento aos homens... Vendo que a irmã prosseguia em soluços, continuou: — Sei que vou morrer... mas a alma é imortal.. Sinto deixar -te... quando mal torno a ver-te, mas hei de ajudar-te do lugar em que estiver. — Ouve, Jeziel — exclamou a irmã num desabafo —, que te ensinou esse Jesus para te levar a um fim tão doloroso? Quem assim abandona u m servo leal, não será antes um senhor cruel? O moribundo pareceu admoestá -la com o olhar. — Não penses dessa maneira — prosseguiu com dificuldade. — Jesus é justo e misericordioso... pro meteu estar conosco até à consumação dos séculos... mais tarde compr eenderás; a mim, ensinou -me amar os próprios verdugos... Ela abraçava-o, carinhosa, desfeita em lágrimas abundantes. Depois de uma pausa em que a vítima se revelava nos derradeiros instantes da vida material, viu-se que Estevão se agitava em esforços supre mos. — Com quem te deixarei? — Este é meu noivo — esclareceu a jovem apon tando o moço de Tarso, que parecia petrificado. O moribundo contemplou-o sem ódio e acentuou: — Cristo os abençoe... Não tenho no teu noivo um inimigo, tenho um irmão... Saulo deve ser bom e generoso; defendeu Moisés até ao fim... Quando conhecer a Jesus, servi-lo-á com o mesmo fervor... Sê para ele a companheira amorosa e fiel... Mas a voz do pregador do “Caminho” estava agora rouca e quase imperceptível. Nas vascas da morte, con templava Abigail fraternalmente enternecido. Ouvindo-lhe as últimas frases, o doutor de Tarso fizera -se lívido. Queria ser odiado, maldito. A compaixão de Estevão, fruto de uma paz que ele, Saulo, jamais conhecera no fastígio das posições mundanas, impressio nava-o fundamente. Entretanto, sem saber por quê, a resignação e a doçura do agonizante assaltavam -lhe o coração enrijecido. Trabalhava, porém, intimamente, para não se comover com a cena dolorosa. Não se dobraria por uma questão de sentimentalismo. Abomi naria aquele Cristo, que parecia requisitá-lo em toda parte, a ponto de colocar -se entre ele e a mulher adorada. O cérebro atormentado do futuro rabino suportava a pressão de mil fogos. Desprezara o orgulho de família e elegera Abigail para companheira de lutas, embora lhe não conhecesse os ascendentes familiares. Amava -a pelos laços da alma, descobrira no seu delicado coração feminino tudo quanto havia sonhado nas cogitações de ordem tem poral. Ela sintetizava as suas esperanças de moço; era o penhor do s eu destino, representava a resposta de Deus aos apelos da sua juventude idealista. Agora, abrira -se entre ambos um abismo profundo. Irmã de Estevão! Ninguém ousara afrontar -lhe a autoridade na vida, a não ser aquele ardoroso pregador do “Caminho”, cujas id éias jamais se poderiam casar com as suas. De testava aquele rapaz apaixonado pelo ideal exótico de um carpinteiro, e tinha culminado nos propósitos de vin gança. Se desposasse Abigail, jamais seriam felizes. Ele seria o verdugo, ela a vítima. Além disso, sua família, aferrada ao rigorismo das velhas tradições, não poderia tolerar a união, depois de conhecidas as circunstâncias. Levou as mãos ao peito, dominado por angustioso desalento. Em pranto, Abigail acompanhava a agonia dolorosa do irmão, cujos derradeiros minutos se escoavam len tamente. Penosa emoção apossara -se de todas as suas energias. Na dor que a dilacerava nas fibras mais sensíveis, parecia não ver o noivo que lhe seguia os me nores movimentos, entre surpreso e estarrecido. Com muito cuidado, a jovem sustinha a fronte do moribundo, depois de haver sentado para conchegá -lo carinhosamente. Observando que o irmão lhe lançava o último olhar, exclamou angustiada: — Jeziel, não te vás... Fica conosco! Nunca mais nos separaremos!... Ele, quase a expirar, ciciava: — A morte não separa... os que se amam... E, como se houvera lembrado algo de muito grato ao coração, arregalou os olhos desmesuradamente. numa expressão de imenso júbilo: — Como no Salmo... de David... — dizia arrastadamente — podemos... dizer... que o amor.. e a misericórdia... seguiram... todos os dias... de nossa vida... (1) A jovem escutava-lhe as derradeiras palavras, como vidíssima. Enxugavalhe o suor sanguinolento do rosto, que se iluminava de uma serenidade superior. — Abigail... — murmurava ainda como num so pro —, vou-me em paz... Quisera ouvir-te na prece... dos aflitos e agonizantes... Ela recordou os últimos momentos do suplício do genitor, no dia inesquecível da separação nos calabouços de Corinto. De relance, compreendeu que, ali, outras forças se encontravam em jogo. Não mais Licínio Minúcio e os sequazes cruéis, mas o próprio noivo transfor mado em verdugo, por um terrível engano. Afagou com mais carinho a cabeça sangrenta. Conchegou o moribundo ao coração como se fosse uma adorável criança. Então, embora rígido e inquebrantável na aparência, Saulo de Tarso observou, mais nitidamente, o quadro que nunca mais lhe sairia da imaginação. Guardando o moribundo no regaço fraterno, a jovem elevou o olhar para o alto, mostrando as lágrimas que lhe caíam pun gentes. Não cantava, mas a oração lhe saía dos lábios como a súplica natural do seu espírito a um pai amoroso que estivesse invisível: Senhor Deus, pai dos que chorara, Dos tristes, dos oprimidos, Fortaleza dos vencidos, Consolo de toda a dor, Embora a miséria amarga Dos prantos de nosso erro, Deste mundo de desterro, Clamamos por vosso amor! Nas aflições do caminho, Na noite mais tormentosa, Vossa fonte generosa É o bem que não secará... Sois, em tudo, a luz eterna Da alegria e da bonança Nossa porta de esperança Que nunca se fechará. Quando tudo nos despreza No mundo da iniqüidade Quando vem a tempestade Sobre as flores da ilusão! Ó Pai, sois a luz divina, O cântico da certeza, Vencendo toda aspereza, Vencendo toda aflição. No dia da nossa morte, No abandono ou no tormento, Trazei-nos o esquecimento Da sombra, da dor, do mal... Que nos últimos instantes, Sintamos a luz da vida Renovada e redimida Na paz ditosa e imortal. (1) Salmo 23º, de David. Terminada a prece, Abigail tin ha o rosto orvalhado de pranto. Sob a carícia suave de suas mãos, Jeziel aquietara -se. Palidez de neve caracterizava -lhe a face cadavérica, aliada à profunda serenidade fisionômica. Saulo compreendeu que ele estava morto. E enquanto a jovem de Corinto se l evantava, cuidadosamente, como se o cadáver do irmão requisitasse toda a ternura do seu espírito bondoso, o moço tarsense aproximou -se de cenho carregado e falou com austeridade: — Abigail, tudo está consumado e tudo terminou, também, entre nós. A pobre criatura voltou-se com assombro. Então não lhe bastavam os golpes recebidos? Seria possível que o noivo amado não tivesse uma palavra de conciliação generosa naquela hora difícil da sua vida? Receberia a humilhação mais fria com a morte de Jeziel e ainda p or cima o abandono? Consternada por tudo que viera encontrar em Jerusalém, entendeu que precisava utilizar todas as energias, para não cair nas provas ríspidas que lhe haviam sido reservadas. E viu logo que, no orgulho de Saulo, não encontraria consolação. Num momento, chegou às mais latas conclusões, quanto ao papel que lhe competia em tão embaraçosas conjunturas. Sem recorrer à sensibilidade feminina, cobrou ânimo e falou com dignidade e nobreza: — Tudo terminado entre nós, por quê? O sofrimento não dev eria escorraçar o amor sincero. — Não me compreendes? — replicou o orgulhoso rapaz... — Nossa união tornou-se inexeqüível. Não poderei desposar a irmã de um inimigo de maldita memória, para mim.
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Capítulo 8
Nome do Capítulo A morte de Estevão
Parte Primeira Parte