1ª Parte - Cap. 7: As primeiras perseguições
Acredito que, se encararmos o movimento com tolerância, teremos o prestígio do judaísmo abalado por nossas próprias mãos. — Entretanto, Saulo — replicou o velho mestre com profunda bondade —, devo invocar o ascendente que tenho em tua formação espiritual, para defender estes homens da pena de morte. O moço caprichoso fez-se lívido. Não se habituara a transigir nos seus conceitos e decisões. Sua vontade era sempre tirânica e inflexível. Mas Gamaliel fora de todos os tempos o seu melhor amigo. Aquelas mãos rugosas lhe haviam ministrado os exemplos mais sant os. Delas recebera vasto potencial de socorro em todos os dias da vida. Compreendeu que defrontava um obstáculo poderoso na consecução integral de seus desejos. O vene rando rabino percebeu a perplexidade e logo insistiu: — Ninguém mais do que eu conhece a generosidade do teu coração e sou o primeiro a reconhecer que tuas resoluções obedecem ao zelo inexcedível na defesa de nossos princípios milenários; mas o “Caminho”, Saulo, parece ter uma grande finalidade na renovação dos nossos valores humanos e religi osos. Quem, entre nós, se havia lembrado de amparar os infortunados com o provimento de um lar afetuoso e fraterno? Antes da tua diligência corretiva, visitei essa instituição singela e pude confor tar-me na observação do seu excelente programa. O jovem doutor estava pálido, ouvindo tais conceitos, que, a seu ver, eram positivo sinal de fraqueza. Mas será possível — disse admirado — que também vós tenhais lido o Evangelho dos galileus? — Estou a lê-lo — confirmou Gamaliel sem titu bear — e pretendo meditar mais demoradamente os fenômenos que ocorrem em nosso tempo. Pressinto grandes transformações em toda parte. Tenciono retirar -me da vida pública em breves dias, a fim de tomar o caminho do deserto. É claro, porém, que estas minhas palavras devem ser guard adas por ti, em penhor de mútua con fiança. Sumamente impressionado, o moço de Tarso não sabia o que responder. Presumia o mestre respeitável mentalmente prejudicado por excesso de lucubrações. O mestre, porém, como se lhe adivinhasse o pensamento, acrescentou: — Não me suponhas mentalmente debilitado. A ve lhice no corpo não me apagou a capacidade de pensar e discernir por mim mesmo. Compreendo o escândalo que se levantaria em Jerusalém se um rabino do Siné drio modificasse publicamente as convicções mais íntimas. Mas é preciso convir que estou falando a um filho espiritual. E expondo, sinceramente, o meu ponto de vista, faço-o tão-só para defender homens generosos e justos de uma sentença iníqua e indevida. — Vossa revelação — exclamou Saulo de roldão — decepciona-me profundamente! — Conheces-me de menino e sabes que o homem sincero não se poderá preocupar com os que o elogiem ou o lamentem no cumprimento de um sagrado dever. E, imprimindo carinhoso acento à voz, acentuava solícito: — Não me faças ir contigo, nesta assembléia, aos debates públicos escandalosos e atentatórios da feição amorosa que toda verdade deve trazer consigo. Libertarás estes homens em atenção ao nosso passado de mútuo entendimento. É só o que te peço. Deixa -os em paz, por amor aos nos sos laços afetivos. Daqui a alguns dias não precisarás conceder mais coisa alguma ao velho mestre. Serás meu substituto neste cenáculo, porqüanto tenciono abandonar a cidade em breves dias. E como Saulo hesitasse, continuou: — Não precisarás refletir muito tempo. O sumo-sacerdote está ciente de que eu pediria tua demência para os prisioneiros. — Mas... e a minha autoridade? — interrogou o rapaz com orgulho. — Como conciliar a indulgência com a necessidade de reprimir o mal? — Toda a autoridade é de Deus. Nó s somos simples instrumentos, meu filho. Ninguém se diminuirá por ser bom e tolerante. Quanto à providência mais digna, cabível no caso, é conceder liberdade a todos eles. — Todos? — perguntou Saulo num gesto de grande admiração. — Como não? — confirmou o venerável doutor da Lei. — Pedro é um homem generoso, Filipe é um pai de família extremamente dedicado ao cumprimento de seus deveres, João é um moço simples, Estevão se consagrou aos pobres. — Sim, sim — interrompeu o moço tarsense. —Concordo com a libertação dos três primeiros, com uma condição. Por serem casados, Pedro e Filipe poderão continuar em Jerusalém, restringindo suas atividades ao socorro dos doentes e necessitados; João será banido; mas Estevão deverá sofrer a sentença decisiva. Já propus, pu blicamente, a lapidação, e não vejo motivos para transigir, mesmo porque, para escarmento, pelo menos um dos discípulos do carpinteiro deve morrer. Gamaliel compreendeu a força daquela resolução pela veemência das palavras que a traduziam. Saulo deixara be m claro que não transigiria, quanto ao taumaturgo. O velho rabino não insistiu. Para evitar um escândalo, entendeu que Estévão pagaria com o sacrifício. Aliás, considerando o temperamento voluntarioso do ex-discípulo, a quem a cidade havia conferido atrib uições tão vastas, já não era pouco obter demência para os três homens justos, consagrados ao bem comum. Compreendendo a situação, acentuou o respeitável rabino. — Pois bem, seja assim! E, com um sorriso de bondade, deixou o moço algo preocupado e perplexo . Daí a instantes, com surpresa geral da assembléia, Saulo de Tarso, da tribuna, propunha a libertação de Pedro e Filipe, o banimento de João, e reiterava o pedido de apedrejamento para Estevão, por considerá -lo o mais perigoso dos elementos do “Caminho”. As autoridades do Sinédrio apreciando os alvitres, com satisfação, por saberem que a medida agradaria à turba numerosa, afirmaram seu unânime consentimento e a morte de Estevão foi aprazada para uma semana depois, convidando Saulo os amigos para a triste cerimônia pública a que ele pró prio haveria de presidir.
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Capítulo 7
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