O filho de Alfeu, íntimamente satisfeito com o re sultado de sua iniciativa, acreditava agora que a Lei de Moises estava tocada de graças vivas e permanentes. A seu ver, fora o código do judaísmo o talismã que o con servara em liberdade. Desde esse dia, o irmão de Levi ia consolidar, para sempre, suas tendências supersticiosas. O fanatismo que os historiadores do Cristianismo encontraram na sua personalidade enigmática teve aí sua origem. Afastando-se do aposento de Tiago, Saulo prepa rava-se para sair, quando, de regresso à portaria para ordenar a partida dos prisionei ros, esbarrou com a cena que mais o haveria de impressionar. Todos os doentes que se podiam arrastar, todos os abrigados capazes de se moverem, cercavam a pessoa de Pedro, chorando comovidamente. Algumas crianças lhe chamavam “pai”; anciães trêmulos oscula vam-lhe as mãos... — Quem se compadecerá de nós, agora? — perguntava uma velhinha debulhada em pranto. — Meu “pai”, aonde vão levar -vos? — dizia um órfão afetuoso, abraçando se ao prisioneiro. — Vou ao monte, filho — respondia o Apóstolo. — E se vos matarem? — tornava o pequenino com uma grande interrogação nos olhos azuis. — Encontrar-me-ei com o Mestre e voltarei com ele — esclarecia Pedro bondosamente. Nesse instante, surgiu a figura de Saulo, que re gressava. Contemplando a multidão de aleijados, cegos , leprosos e crianças que entupiam a sala, exclamou irritado: — Afastem-se, abram caminho! Alguns recuaram, espavoridos, vendo os soldados que se aproximavam, enquanto que os mais resolutos não arredavam passo. Um leproso, que mal se punha em pé, adiantou-se. O velho Samônio, recordando -se do tempo em que podia mandar e ser obedecido, aproxi mou-se de Saulo com desassombro. — Nós precisamos saber para onde vão estes prisioneiros disse com gravidade. — Para trás! — exclamou o moço tarsense, esboçando um ges to de repugnância. Será possível que um homem da Lei tenha de dar satisfações a um velho imundo? Os guardas armados tentaram adiantar -se, para castigar o atrevido; no entanto, a lepra defendia Samônio dos seus ataques. Prevalecendo -se da situação, o antigo proprietário de Cesaréia revidou com firmeza: — O homem da Lei não precisa prestar contas senão a Deus, quando no exato cumprimento dos seus deveres; mas, nesta casa, falam os códigos de humanidade. Para vós eu sou imundo, mas para Simão Pedro sou um ir mão. Prendeis os bons e libertais os maus! Onde a vossa justiça? Credes somente no Deus dos exércitos? Ë indispensável saberdes que se o Eterno é o fator supremo da ordem, o Evangelho nos ensina a buscar em sua providência o carinho de um Pai. Em ouvindo aquela voz digna, que fluia da miséria e do sofrimento como um apelo de desesperação, Saulo quedara -se admirado. O mendigo, entretanto, depois de longa pausa, prosseguia resoluto: — Onde estão vossas casas de arrimo aos oprimi dos da sorte? Quando vos lembrastes de um asilo para os mais infelizes? Enganais -vos se supondes inércia em nossa atitude. Os fariseus levaram Jesus ao Calvário da crucificação, privando os necessitados de sua pre sença inefável. Por haver praticado o bem, Estevão foi metido no cárcere . Agora, o Sinédrio requisita os Apóstolos do “Caminho”, retribuindo -lhes a bondade com a es curidão do calabouço. Mas estais equivocados. Nós, os miseráveis de Jerusalém, haveremos de lutar convosco. De Simão Pedro nós disputaremos a própria sombra. Se vos negardes a atender nossas súplicas, importa lem brardes que somos leprosos. Envenenaremos vossos poços. Pagareis a perversidade com a saúde e com a vida. Nesse ínterim, não pôde continuar. Ante a expectação angustiosa de todos, Saulo de Tarso sentenciou ríspido: — Cala-te miserável! Onde estou que te pude ouvir até agora? Nem mais uma palavra E designando-o a um dos soldados, murmurou com desprezo: — Sinésio, dá-lhe dez bastonadas. É indispensável castigar -lhe a língua insolente e viperina. Ali mesmo, à vista de todos os companheiros que se retraíam amedrontados, Samônio recebeu o castigo sem balbuciar uma queixa. Pedro e João tinham os olhos úmidos. Os demais doentes encolhiam -se estarrecidos. Terminada a tarefa, um grande silêncio dominava os corações ansiosos e doloridos. O doutor de Tarso rompeu a expectativa com a ordem de partida, a caminho do cárcere. Duas crianças pálidas acercaram -se, então, do ex-pescador de Cafarnaum e perguntaram chorosas: — “Pai”, com quem ficaremos nós? Pedro voltou-se, acabrunhado, e respondeu com ter nura: — As filhas de Filipe ficarão convosco... Se Jesus permitir, meus filhos, não me demorarei. O próprio Saulo, intimamente, estava comovido; en tretanto, não desejava trair-se a si mesmo, deixando -se vencer pela emoção que o quadro lhe provocava. Pedro compreendeu que as lágrimas silenciosas de todos os tutelados humildes do “Caminho” traduziam desvelado amor, naquele momento de angustiantes despedidas. Em seguida a esse feito, o jovem tarsense desdobrou as energias na primeira perseguição experimentada pelas expressões individuais e coletivas do Cristianismo nascente. Mais do que se poderia supor, Jerusalém regur gitava de criaturas que se interessavam pelas idéias do Messias Nazareno. Saulo prevaleceu-se dessa circunstância para fazer sentir, mais uma vez, o perigo ideológico que o Evangelho representava. Numerosas prisões foram efetuadas. Na cidade, iniciara-se um êxodo de grandes proporções. Os amigos do “Caminho”, com possibilidades financeiras, preferiam encetar vid a nova na Iduméia ou na Arábia, na Cilícia ou na Síria. Os que podiam. escapavam ao rigor dos inquéritos violentos, iniciados com retumbâncias de escândalo público. As personalidades mais eminentes eram metidas na prisão, incomunicáveis, mas os anônimos e humildes, os da plebe, sofriam grandes vexames nas dependências do tribunal onde se faziam os interrogatórios. Os guardas assalariados por Saulo. para a execução do nefando trabalho, excediam-se nos abusos. — És do “Caminho” de Cristo Jesus? — perguntava um deles a uma desventurada mulher, com risinhos de ironia. — Eu... eu... — gaguejava a infeliz, compreen dendo a delicadeza da situação. — Depressa, dize depressa! — tornava o beleguim desrespeitoso. A mísera criatura empalidecia a tremer, refletindo nos pesados castigos que lhe seriam impostos e retru cava com profundo temor: — Eu... não... — E que foste fazer nas suas assembléias sedi ciosas? — Fui buscar remédio para um filhinho doente. Em face da negativa, o preposto do Sinédrio pa recia acalmar-se, mas logo exclamava para um dos auxiliares: — Muito bem! A interrogada pode ir em paz; antes, porém, de retirar -se, manda o regulamento se lhe aplique alguns golpes de chanfalho. E era inútil resistir. Naquele tribunal singular, por longos dias seguidos, verificaram-se punições de toda espécie. Das respostas do querelado dependiam o encarceramento, os açoites, o chanfalho. as bastonadas. as macerações e os apupos. Saulo tornara-se a mola central do movimento ter rível e execrado por todos os simpatizantes do “Caminho”. Multiplicando energias, visitava diariamente os núcleos do serviço a que costumava chamar “expurgo de Jerusalém”, desenvolvendo atividade pasmosa, dentro da qual mantinha a vigilância constante das autoridades administrativas, encorajava os au xiliares e prepostos, instigava outros perseguidores dos princípios de Jesus, sem deixar arrefecer-se o zelo religioso do Sinédrio. Dentro de uma semana, após as prisões efetuadas na igreja modesta, realizava-se a memorável sessão em que Pedro, João e Fili pe deveriam ser julgados. A assembléia excepcional despertara a maior curiosidade. Lá se congregavam todas as personalidades eminentes do fari saísmo dominante. Gamaliel compareceu, dando mostras de profundo abatimento. De modo geral, comentava -se a atitude dos mendigos que, não obtendo permissão de ingresso, aglomera vam-se em longas filas na grande praça e protestavam em atroante vozerio. Debalde aplicavam-lhes bastonadas a torto e a direito, porque a turba de miseráveis assumira proporções nunca vista s, O quadro era curioso e alarmante. Tomar providências para correr com a massa, parecia tarefa impossível, Os peregrinos e os doentes contavam -se por centenas numerosas. Era inútil reprimir nos pontos isolados, o que somente vinha agravar a revolta e desesperação de muitos. Em altos brados re clamavam a liberdade de Simão Pedro. Exigiam em tumulto a sua libertação, como se exigissem um legado de seu legítimo direito. No salão nobre, não só os assistentes comentavam o fato, mas, também os juizes não dissimulavam profunda impressão. O próprio Anás contava o assédio de que vinha sendo objeto, por parte dos favorecidos de Je rusalém. Alexandre alegava que à sua residência afluíram centenas de aflitos a solicitar lhe os bons ofícios a favor dos prisioneiros. S aulo, de vez em quando, respondia a um que outro, com rápidos monossílabos. Sua fisionomia carregada traduzia propósitos inferiores relativamente ao destino dos Apóstolos da Boa Nova, que lá estavam à sua frente, no fundo da sala, humildes, serenos, no banco dos criminosos comuns. Viu-se, então, que Gamaliel se detinha com o sumo -sacerdote em conversação íntima, que durou alguns mi nutos e despertava grande curiosidade entre os colegas. Em seguida, o venerando doutor da Lei chamou o ex-discípulo para um entendimento particular, antes de inicia rem os trabalhos. Os colegas perceberam que o rabino tolerante e generoso ia advogar a causa dos continuado res do Nazareno. — Qual a sentença a ser proposta para os prisio neiros? — interrogou o velhinho com bondoso interesse, logo que se viram distanciados dos grupos rumorosos. — Sendo eles galileus — disse Saulo enfático da sua autoridade —, não lhes será conferido o direito da palavra no recinto; de maneira que já deliberei a punição que lhes cabe. Vou propor a morte dos três, com a de Estevão, pelo apedrejamento. — Que dizes? — exclamou Gamaliel, surpreso. — Não vejo outro recurso — disse o moço tarsense —, precisamos extirpar pela raiz os males que começam.