A “Bibliografia Católica” Contra o Espiritismo
Este começo permite julgar a amenidade do resto. Os nossos leitores que quiserem edificar-se nessa fonte de caridade evangélica poderão permitir-se o prazer de ler a Bibliographie Catholique, no 3, de setembro de 1860, Rua de Sèvres, no 31. Ainda uma vez, por que tanta cólera, tanto fel contra uma doutrina que, como dizem, se é obra de Satã, não poderá prevalecer contra a obra de Deus, a menos que se suponha seja Deus menos poderoso que Satã, o que seria um tanto ímpio? Duvidamos muito que essa irrupção de injúrias, essa febre, essa profusão de epítetos de que o Cristo jamais se serviu contra os seus maiores inimigos, sobre os quais clamava a misericórdia de Deus e não a sua vingança, ao dizer: “Perdoai-lhes, Senhor, pois não sabem o que fazem”; duvidamos – insistimos – que uma tal linguagem seja persuasiva. A verdade é calma e não necessita de exaltação; e, com tal raiva, faríeis crer na vossa própria fraqueza. Confessamos não compreender bem esta singular política de Satã, que glorifica o Cristianismo para o aviltar, que o espalha para o suprimir. Em nossa opinião isto revelaria muita falta de habilidade e se assemelharia a um hortelão que, não querendo batatas, as semeasse em profusão em seu horto, a fim de lhes destruir a espécie. Quando acusamos os outros de pecar por falta de raciocínio, devemos, para ser lógicos, começar por nós mesmos. Não sabemos muito bem por que o Sr. Georges Gandy acusa mortalmente o Espiritismo por se apoiar no Evangelho e no Cristianismo. Que diria então se se apoiasse em Maomé? Certamente muito menos, porquanto é fato digno de nota que o Islamismo, o Judaísmo, o próprio Budismo são objeto de ataques menos virulentos que as seitas dissidentes do Cristianismo. Com certa gente, é preciso ser tudo ou nada. Há, sobretudo, um ponto que o Sr. Gandy não perdoa ao Espiritismo: é o de não haver proclamado esta máxima absoluta: “Fora da Igreja não há salvação”, e admitir que aquele que faz o bem possa ser salvo das chamas eternas, seja qual for a sua crença. Evidentemente, uma tal doutrina só poderia sair do inferno. Mas ele se trai principalmente nesta passagem: “Que quer o Espiritismo? É uma importação americana, inicialmente protestante, e que já havia triunfado – permitam-nos dizê-lo – sobre todas as plagas da idolatria e da heresia; tais são os seus títulos em relação ao mundo. Seria, pois, das terras clássicas da superstição e das loucuras religiosas que nos viriam a verdade e a sabedoria!” Eis aqui, por certo, uma grande ofensa. Se ele houvesse nascido em Roma seria a voz de Deus; como, porém, nasceu num país protestante, é a voz do diabo. Mas o que direis quando tivermos provado, o que faremos um dia, que ele estava na Roma cristã muito antes de estar na América protestante? Que respondereis ao fato, hoje constatado, de que há mais espíritas católicos do que espíritas protestantes? O número das pessoas que em nada crêem, que de tudo duvidam, do próprio Deus, é considerável e cresce numa proporção assustadora. Será por vossas violências, vossos anátemas, vossas ameaças do inferno, vossas declamações furibundas que as reconduzireis? Não, porque são as vossas próprias violências que as afastam. Serão culpados por haverem levado a sério a caridade, a mansuetude do Cristo e a bondade infinita de Deus? Ora, quando elas ouvem os que pretendem falar em seu nome, proferindo ameaças e injúrias, põem-se a duvidar do Cristo, de Deus, de tudo, enfim. O Espiritismo as faz compreender palavras de paz e de esperança e, como lhes pesa a dúvida e sentem necessidade de consolações, atiram-se aos braços do Espiritismo, porque preferem aquilo que sorri às coisas que apavoram. Então crêem em Deus, na missão do Cristo e na sua divina moral. Numa palavra, de incrédulos e indiferentes, tornam-se crentes. Foi isto que ultimamente levou um padre respeitável a responder a uma de suas penitentes que o consultava sobre o Espiritismo: “Nada acontece sem a permissão de Deus; ora, Deus permite essas coisas para reavivar a fé que se extingue”. Se houvera empregado outra linguagem, talvez a tivesse afastado para sempre. Quereis a todo custo que o Espiritismo seja uma seita, quando ele não aspira senão ao título de ciência moral e filosófica, respeitando todas as crenças sinceras. Por que, então, dar uma idéia de separação àqueles que não pensam nisso? Se repelirdes os que ele reconduz à crença em Deus, se só lhes derdes o inferno como perspectiva, sereis responsáveis por uma cisão que vós mesmos tereis provocado. São Luís nos dizia um dia: “Zombaram das mesas girantes; jamais zombarão da filosofia, da sabedoria e da caridade que brilham nas comunicações sérias”. Enganou-se, porque não contou com o Sr. Georges Gandy. Muitas vezes os escritores se divertiram à custa dos Espíritos e de suas manifestações, sem pensar que um dia eles mesmos poderiam ser alvo das piadas de seus sucessores; porém, sempre respeitaram a parte moral da ciência. No entanto, foi reservado a um escritor católico, o que lamentamos sinceramente, expor ao ridículo as máximas admitidas pelo mais elementar bom-senso. Cita grande número de passagens de O Livro dos Espíritos; não aludiremos senão a algumas delas, que darão uma idéia perfeita de sua apreciação. – “Deus prefere os que o adoram do fundo do coração aos que o adoram exteriormente”. O texto de O Livro dos Espíritos diz: “Deus prefere os que o adoram do fundo do coração, com sinceridade, fazendo o bem e evitando o mal, aos que julgam honrá-lo com cerimônias que não os tornam melhores para com os seus semelhantes”2; O Sr. Gandy admite o inverso; mas, como homem de boa-fé, deveria ter citado a passagem textualmente, em vez de truncá-la de maneira a lhe desnaturar o sentido. – “Toda destruição de animais que excede os limites das necessidades é uma violação da lei de Deus”3; o que quer dizer que o princípio moral que rege os prazeres se aplica igualmente ao exercício da caça e da matança. Precisamente; mas parece que o Sr. Gandy é caçador e pensa que Deus fez a caça, não para alimento do homem, mas para lhe proporcionar o prazer de, sem necessidade, promover a matança de animais inofensivos. – “Os prazeres têm limites traçados pela Natureza: o limite do necessário; pelos excessos, chegamos à saciedade”. É a moral do virtuoso Horácio, um dos pais do Espiritismo. Visto que o autor critica esta máxima, parece não admitir limites aos prazeres, o que não é muito religioso. – “Para ser legítima, a propriedade deve ser adquirida sem prejuízo da lei de amor e de justiça; assim, aquele que possuir, sem preencher os deveres de caridade que ordena a consciência ou a razão individual, é um usurpador do bem alheio; espiriticamente estamos em pleno socialismo.” O texto diz assim: “Só é legítima a propriedade adquirida sem prejuízo de outrem. A lei de amor e de justiça proíbe fazer a outrem o que não gostaríamos que nos fosse feito; condena, por isso mesmo, todo meio de aquisição que lhe seja contrário”. Lá não se encontra: que ordena a razão individual; é uma pérfida adição. Não julgamos que se possa, em sã consciência, possuir à custa de justiça; o Sr. Gandy deveria dizer-nos em que casos a espoliação é legítima. Felizmente, os tribunais não são de sua opinião. – “A indulgência aguarda, fora desta vida, o suicida que se vê a braços com a necessidade, que quis impedir caísse a vergonha sobre os seus filhos, ou sobre a sua família. Aliás, São Luís, de cujas funções espíritas falaremos em breve, se digna revelar-nos que há escusas para os suicídios por amor. Quanto às penas do suicida, elas não são determinadas; o que é certo é que ele não escapa ao desapontamento; em outras palavras, é pego na armadilha, como se diz vulgarmente neste mundo”. Esta passagem está inteiramente desnaturada pelas exigências da crítica do Sr. Gandy; seria preciso mencionar sete páginas para restabelecer o seu texto. Com tal sistema seria fácil tornar ridículas as mais belas páginas dos nossos melhores escritores. Parece que o Sr. Gandy não admite gradação nem nas faltas, nem nas penalidades de além-túmulo. Acreditamos num Deus mais justo e desejamos que o Sr. Gandy jamais tenha que reclamar em seu favor o benefício das circunstâncias atenuantes. – “A pena de morte e a escravidão foram, são e serão contrárias à lei da Natureza. O homem e a mulher, sendo iguais perante Deus, devem ser iguais perante os homens”. Terá sido a alma errante de algum saint-simonista4 apavorado, à procura da mulher livre, que presenteou essa maliciosa revelação ao Espiritismo?” Assim a pena de morte, a escravidão e a submissão da mulher, que a civilização tende a abolir, são instituições que o Espiritismo não tem direito de condenar. Ó tempos felizes da Idade Média, por que passastes sem retorno? Onde estais, fogueiras, que nos teríeis livrado dos Espíritos? Citemos uma última passagem, das mais benignas: “O Espiritismo não pode negar uma tal salada de contradições, de absurdos e de loucuras, que não pertencem a nenhuma filosofia, nem a nenhuma língua. Se Deus permite essas manifestações ímpias, é que deixa aos demônios, conforme ensina a Igreja, o poder de enganar os que os chamam, violando a sua lei.” Então o demônio é bonzinho, porque, sem o querer, nos faz amar a Deus.
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Mês Janeiro
Ano 1861