“Quanto à verdade, a Igreja no-la dá a conhecer; ela nos diz, com os Livros Sagrados, que o anjo das trevas se transforma em anjo da luz, e que seria necessário recusar até mesmo o testemunho de um arcanjo, caso fosse contrário à doutrina do Cristo, de cuja infalível autoridade é depositária; aliás ela tem meios seguros e evidentes para distinguir as seduções diabólicas das manifestações divinas.”
De fato é uma grande verdade que se deveria recusar até mesmo o testemunho de um arcanjo, caso fosse contrário à doutrina do Cristo. Ora, que diz essa doutrina, que o Cristo pregou pela palavra e pelo exemplo?
“Bem-aventurados os que são misericordiosos, porque alcançarão misericórdia”.
“Bem-aventurados os pacíficos, porque serão chamados filhos de Deus”.
“Aquele que se encolerizar contra seu irmão será réu de juízo; quem disser a seu irmão: Raca, será condenado pelo conselho; e qualquer que lhe disser: Louco, será condenado ao fogo do inferno.”
“Amai os vossos inimigos, fazei o bem aos que vos odeiam, e orai pelos que vos perseguem e caluniam, a fim de que sejais filhos do vosso Pai que está nos céus, que faz se levante o sol sobre bons e maus, e chover sobre justos e injustos; porquanto, se não amardes senão os que vos amam, que recompensa tereis? Não fazem os publicanos o mesmo?”
“Sede, pois, perfeitos, como perfeito é o vosso Pai que está nos céus”.
“Não façais aos outros o que não gostaríeis que eles vos fizessem”.
Sendo, pois, a caridade o princípio fundamental da doutrina do Cristo, concluímos que toda palavra e toda ação contrárias à caridade não podem ser, como dizeis com muita propriedade, senão inspiradas por Satã, ainda mesmo que este se revestisse da forma de um arcanjo. É por essa razão que diz o Espiritismo: Fora da caridade não há salvação.
Sobre o mesmo assunto, remetemos o leitor às nossas respostas ao jornal Univers, números de maio e julho de 1859, bem como à Gazette de Lyon, de outubro de 1860. Recomendamos igualmente aos nossos leitores, como refutação ao Sr. Gandy, a Lettre d’un catholique sur le Spiritisme, pelo Dr. Grand. Se o autor dessa brochura1 está condenado ao inferno, haverá muitos outros e ali veríamos – coisa estranha – os que pregam a caridade para todos, enquanto o Céu seria reservado àqueles que lançam anátemas e maldição. Estaríamos singularmente equivocados quanto ao sentido das palavras do Cristo.
A falta de espaço obriga-nos a deixar para o próximo número algumas palavras em resposta ao Sr. Deschanel, do Journal des Débats.