Até este momento o Espiritismo não havia sido atacado seriamente. Quando certos escritores da imprensa periódica, em seus momentos de lazer, se dignaram ocupar-se dele, foi apenas para o ridicularizar. Trata-se de encher um rodapé, de fornecer um artigo a tanto por linha, não importa sobre que assunto, desde que a contagem dê certo. De que matéria tratar?
Tratarei de tal coisa? pergunta a si mesmo o redator encarregado da parte recreativa do jornal. Não; é muito séria. E daquela outra? É assunto por demais repetido. Inventarei uma autêntica aventura da alta sociedade, ou da gente do povo? Nada me vem à mente neste quarto de hora e a crônica escandalosa da semana ainda está por fazer. Ah! tive uma idéia! Achei o meu assunto! Vi em algum lugar o título de um livro que fala de Espíritos; e há em toda parte gente bastante tola para levar isto a sério. Que são os Espíritos? Nada sei sobre o assunto, mas pouco me importa! Deve ser divertido. Para falar a verdade, eu não acredito absolutamente em Espíritos, porque jamais os vi e mesmo que visse também não acreditaria, porque isso é impossível. Assim, nenhum homem de bom-senso pode crer neles. Ou isto é lógico, ou não me conheço. Falemos, pois, dos Espíritos, uma vez que estão na ordem do dia. Tanto esse assunto, como qualquer outro, divertirá nossos caros leitores. O tema é muito simples: “Não há Espíritos; não pode nem deve havê-los.
Assim, todos que neles crêem são loucos. Mãos à obra e fantasiemos a coisa. Ó meu bom gênio! eu te agradeço por esta inspiração! Tu me tiras de um grande embaraço, pois nada há a dizer e preciso de meu artigo para amanhã, e dele não fazia a menor idéia”.
Mas eis um homem sério que diz: É um erro brincar com essas coisas; isto é mais sério do que se pensa; não acrediteis que se trate de moda passageira: essa crença é inerente à fraqueza da Humanidade, que em todas as épocas acreditou no maravilhoso, no sobrenatural, no fantástico. Quem imaginaria que em pleno século XIX, num século de luzes e de progresso, depois que Voltaire demonstrou tão bem que só o nada nos espera, depois de tantos sábios que procuraram a alma e não a encontraram, ainda se possa acreditar em Espíritos, em mesas girantes, em feiticeiros, em magos, no poder de Merlin o encantador, na varinha mágica, na Senhorita Lenormand? Ó Humanidade! Humanidade! aonde irás se eu não vier em teu auxílio para tirar-te do lamaçal da superstição?
Quiseram matar os Espíritos pelo ridículo, e não o conseguiram; longe disso, o mal contagioso faz incessantes progressos; a zombaria parece fazer-lhe recrudescer e, se não for posto um freio, em breve a Humanidade inteira estará infestada. Considerando-se que esse meio, habitualmente tão eficaz, tornou-se impotente, é tempo que os sábios interfiram, a fim de acabar com isso de uma vez por todas. As zombarias não são argumentos; falemos em nome da Ciência; demonstremos que em todas as épocas os homens foram imbecis por acreditarem que houvesse um poder superior ao deles; que não tivessem em si mesmos todo o poder sobre a Natureza. Provemos-lhes que tudo quanto atribuem às forças sobrenaturais se explica por simples leis da fisiologia; que a sobrevivência da alma e o seu poder de comunicar-se com os vivos é uma quimera, e que é loucura acreditar no futuro. Se, depois de ter digerido quatro volumes de boas razões, eles não se convenceram, não nos restará senão lamentar a sorte da Humanidade que, em vez de progredir, retrograda a largos passos para a barbárie da Idade Média e corre para a sua perda.
Que o Sr. Figuier possa revelar suas verdadeiras intenções, porquanto seu livro, tão pomposamente anunciado, tão elogiado pelos campeões do materialismo, produziu um resultado diametralmente oposto ao que esperava.
Mas eis que surge um novo campeão, que pretende esmagar o Espiritismo por outro meio: trata-se do Sr. Georges Gandy, redator da Bibliographie Catholique, atirando-se num corpo-a-corpo em nome da religião ameaçada. E vejam só! a religião ameaçada por aquilo a que chamais de utopia! Tendes, pois, bem pouca fé em sua força; acreditais, assim, na sua vulnerabilidade, desde que temeis que as idéias de alguns sonhadores possam abalar os seus fundamentos; assim, considerais esse inimigo deveras temível, para o atacar com tanta raiva e furor. Obtereis resultado melhor que os outros? Duvidamo-lo, já que a cólera é má conselheira. Se conseguirdes amedrontar algumas almas timoratas, não receais acender a curiosidade num maior número de outras?
Julgai-o pelo fato seguinte. Numa cidade que conta com certo número de espíritas e com alguns grupos íntimos que se ocupam das manifestações, um pregador fez certo dia um sermão virulento contra o que chamava a obra do demônio, pretendendo que só este vinha falar nessas reuniões satânicas, cujos membros estavam todos notoriamente votados à danação eterna. Que aconteceu? Desde o dia seguinte bom número de ouvintes se pôs em busca das reuniões espíritas, pedindo para ouvir os diabos falarem, curiosos de saber o que lhes diriam; porque tanto se tem falado que a gente se familiarizou com um nome que já não incute medo. Ora, nessas reuniões eles viram pessoas sérias, honradas, instruídas, orando a Deus, coisa que não faziam desde a primeira comunhão; pessoas que acreditavam em sua alma, em sua imortalidade, nas penas e recompensas futuras, trabalhando para se tornarem melhores, esforçando-se por praticar a moral do Cristo, não falando mal de ninguém, nem mesmo dos que lhes lançavam anátemas. Então aquelas criaturas compreenderam que se o diabo ensinava tais coisas é que se havia convertido. Quando os viram tratar respeitosa e piamente com os seus parentes e amigos mortos, que lhes prodigalizava consolação e sábios conselhos, não puderam admitir que tais reuniões fossem sucursais do sabbat, considerando-se que não viam caldeiras, nem vassouras, nem corujas, nem gatos pretos, nem crocodilos, nem livros de magia, nem trípode, nem varinhas mágicas ou quaisquer outras acessórios de feitiçaria, nem mesmo a velha de queixo e nariz aduncos. Também quiseram conversar, um com sua mãe, outro com o filho querido, parecendo-lhes difícil, ao reconhecê-los, que essa mãe e esse filho fossem demônios. Felizes por terem a prova de sua existência e a certeza de se reencontrarem num mundo melhor, perguntaram-se com que objetivo haviam querido amedrontá-los, suscitando-lhes reflexões que jamais tinham imaginado. O resultado é que gostaram mais de ir ali onde encontravam consolações, do que aos locais em que eram amedrontados.
Como vimos, esse pregador enveredou por caminho errado, sendo o caso de se dizer: Mais vale um inimigo que um amigo incompetente. O Sr. Georges Gandy espera ser mais feliz?
Nós o citamos textualmente, para edificação dos nossos leitores: “Em todas as épocas das grandes provas da Igreja e de seus próximos triunfos houve contra ela conspirações infernais, nas quais a ação dos demônios era visível e tangível. Jamais a teurgia e a magia tiveram mais voga no seio do paganismo e da filosofia, do que no momento em que o Cristianismo se espalhava no mundo, para o subjugar. No século XVI, Lutero teve colóquios com Satã, e um redobramento de feitiçarias, de comunicações diabólicas se fez notar na Europa, enquanto na Igreja se operava a grande reforma católica que iria triplicar suas forças, quando um novo mundo lhe abria destinos gloriosos sobre um espaço imenso. No século XVIII, na véspera do dia em que o machado dos carrascos deveria retemperar a Igreja no sangue de novos mártires, a demonolatria florescia no cemitério de Saint-Médard, ao redor das tinas de Mesmer e dos espelhos de Cagliostro. Hoje, na grande luta do catolicismo contra todas as potências do inferno, a conspiração de Satã veio visivelmente em auxílio do filosofismo; o inferno quis dar, em nome do naturalismo, uma consagração à obra de violência e de astúcia que continua promovendo já há quatro séculos e que se apresta para coroar com uma suprema impostura. Aí reside todo o segredo da pretensa doutrina espírita, amontoado de absurdos, de contradições, de hipocrisia e de blasfêmias, como veremos a seguir, e que tenta, como a última das perfídias, glorificar o Cristianismo para o aviltar, espalhá-lo para o suprimir, afetando respeito pelo divino Salvador, a fim de arrancar na Terra tudo que Ele fecundou com seu sangue e substituir o seu reino imortal pelo despotismo dos ímpios devaneios.
“Abordando o exame dessas estranhas pretensões, que julgamos ainda não suficientemente desvendadas e condenadas, pedimos aos nossos leitores a gentileza de acompanharem nossa caminhada, um tanto longa, nessa encruzilhada diabólica, de onde a seita espera sair vitoriosa depois de haver abolido para sempre o nome divino, ante o qual a vemos dobrar os joelhos. A despeito de seus ridículos, de suas profanações revoltantes, de suas contradições sem fim, o Espiritismo constitui para nós precioso ensinamento. Jamais as loucuras do inferno haviam rendido à nossa santa religião mais deslumbrante homenagem. Jamais o havia Deus condenado com mais soberano poder, a confirmar-se pelo testemunho destas palavras do divino Mestre: Vos ex patre diabolo estis”.