“Estou convencido de que se achará no Platonismo muitas coisas que não repugnam aos nossos dogmas... A voz de Platão, a mais pura e brilhante que tem havido na filosofia, está inteiramente reproduzida em Platino e lhe é tão semelhante que parecem contemporâneos; entretanto, há um intervalo de tempo tão grande entre os dois, que o primeiro parece até estar ressuscitado no segundo.” (lxix)
São Clemente de Alexandria (lxx) e São Gregório de Nice exprimem-se no mesmo sentido. Este último expõe que “a alma imortal deve ser melhorada e purificada; se ela não o foi na existência terrestre, o aperfeiçoamento se opera nas vidas futuras e subseqüentes”.(lxxi)
Tais revelações tinham-se tornado outros tantos embaraços à Igreja oficial. Nelas iam os heréticos basear seus argumentos e sua força; abalada se achava a autoridade do sacerdócio. Com a reencarnação, com o resgate das faltas cometidas, pela prova e pelo trabalho na sucessão das vidas, a morte deixava de ser um motivo de terror; cada qual a si mesmo se libertava do purgatório terrestre por seus esforços e progressos, e o sacerdote perdia a razão de ser. Já não podendo a Igreja abrir à vontade as portas do paraíso e do inferno, via diminuir o seu poder e prestígio.
Julgou, portanto, necessário impor silêncio aos partidários da doutrina secreta, renunciar a toda comunicação com os Espíritos e condenar os ensinos destes como inspirados pelo demônio.
Desde esse dia Satanás foi ganhando cada vez mais importância na religião católica. Tudo o que a esta embaraçava foi-lhe atribuído. A Igreja declarou-se a única profecia viva e permanente, a única intérprete de Deus. Orígenes e os gnósticos foram condenados pelo Concílio de Constantinopla (553); a doutrina secreta desapareceu com os profetas e a Igreja pôde executar à vontade a sua obra de absolutismo e de imobilização.
Viu-se então os sacerdotes romanos perderem de vista a luz que Jesus tinha trazido a este mundo e recaírem na obscuridade. A noite que quiseram para os outros fez-se neles mesmos. O templo deixou de ser, como nos tempos antigos, o asilo da verdade. E esta abandonou os altares para buscar um refúgio oculto. Desceu às classes pobres; foi inspirar humildes missionários, apóstolos obscuros que sob o nome do Evangelho de São João procuravam restabelecer, em diferentes pontos da Europa, a simples e pura religião de Jesus, a religião da igualdade e do amor. Porém estas doutrinas foram asfixiadas pela fumaça das fogueiras, ou afogadas em lagos de sangue.
Toda a história da Idade Média está cheia dessas tentativas do pensamento, desse despertar imponente, vindo depois as reações do despotismo religioso e monárquico, e períodos de triste silêncio.
A ciência sagrada, porém, estava guardada sob diferentes aspectos por diversas ordens secretas. Os Alquimistas, Templários, Rosa-Cruzes e outros lhe conservavam os princípios. Os Templários foram encarniçadamente perseguidos pela Igreja oficial. Esta temia extraordinariamente as escolas secretas e o império que elas exerciam sobre as inteligências. Sob o pretexto de feitiçaria e de pactos com o diabo, as destruía quase todas a ferro e fogo.
O Protestantismo é superior ao Catolicismo porque repousa sobre o princípio do livre exame. Sua moral é mais perfeita e tem o mérito de se aproximar bastante da simplicidade evangélica. Mas a ortodoxia protestante não pode ser considerada como a última palavra da renovação religiosa, pois se apega exclusivamente à “letra que mata” e à bagagem dogmática que em parte conservou.
Apesar dos esforços da teocracia, não se perdeu a doutrina secreta. Por muito tempo ficou velada a todos. Os Concílios e os esbirros do Santo Ofício acreditaram tê-las sepultado para sempre, mas, debaixo da pedra que lhe haviam colocado em cima, ela vivia ainda, semelhante à lâmpada sepulcral que arde, solitária, durante a noite.
Mesmo no selo do clero, sempre houve partidários dessas magníficas idéias de reabilitação pelas provas, da sucessão das vidas e da comunicação com o mundo invisível. Alguns têm até ousado elevar as suas vozes. Há meio século (1843), o Sr. de Montal, arcebispo de Chartres, falava nestes termos sobre a preexistência da alma e sobre as reencarnações:
“Visto não ser proibido acreditar na preexistência das almas, quem saberá o que em épocas vindouras virá a suceder entre as inteligências?”
O Cardeal Bona (o Fénelon da Itália), na sua obra sobre o discernimento dos espíritos, assim se exprime:
“É muito para estranhar que se encontrem homens de bom senso que tenham ousado negar as aparições e as comunicações das almas com os vivos, ou atribuí-las à imaginação transviada, ou ainda às artes do diabo.”