Como o oceano, o pensamento tem seu fluxo e refluxo. Quando a Humanidade entra, sob qualquer ponto de vista, no domínio das exagerações, produz-se, cedo ou tarde, uma reação vigorosa. Os excessos provocam excessos contrários. Depois dos séculos de submissão e de fé cega, a Humanidade, cansada do sombrio ideal de Roma, atirou-se às teorias do nada. As afirmações temerárias trouxeram negações furiosas. Empenhou-se o combate, e o alvião do materialismo fez brecha no edifício católico.
As idéias materialistas ganham terreno. Repelindo os dogmas da Igreja como inacessíveis, grande número de espíritos cultivados desertaram da crença espiritualista e, ao mesmo tempo, da crença em Deus. Afastando as concepções metafísicas, procuraram a verdade na observação direta dos fenômenos, no que se convencionou chamar o método experimental.
Podem-se resumir assim as doutrinas materialistas:
“Tudo é matéria. Cada molécula tem suas propriedades inerentes em virtude das quais se formou o Universo com os seres que em si contém. É uma hipótese a idéia de um princípio espiritual governando a matéria, pois esta se governa a si própria por leis fatais, mecânicas. A matéria é eterna, e só ela é eterna. Saídos do pó, voltaremos ao pó. O que chamamos alma, o conjunto das nossas faculdades intelectuais, a consciência, mais não é que uma função do organismo e esvai-se com a morte.”
“O pensamento é uma secreção do cérebro”, disse Carl Vogt, e o mesmo autor acrescenta: “As leis da Natureza são inflexíveis; não conhecem moral nem benevolência.”
Se a matéria é tudo, que é pois a matéria? Os próprios materialistas não poderiam dizê-lo porque a matéria, desde que é analisada em sua essência íntima, subtrai-se, escapa e foge como enganadora miragem.
Os sólidos transformam-se em líquidos, os líquidos em gases; após o estado gasoso vem o estado radiante; depois, por depurações inumeráveis, cada vez mais sutis, a matéria passa ao estado imponderável. Torna-se então essa substância etérea que enche o espaço, e de tal sorte tênue que se tomaria pelo vácuo absoluto, se a luz, atravessando-a, não a fizesse vibrar. Os mundos banham-se em suas ondas, como nas de um mar fluídico.
Assim, de grau em grau, a matéria se dissipa em poeira invisível. Tudo se resume em força e movimento.
Os corpos, orgânicos ou inorgânicos – diz-nos a Ciência –, minerais, vegetais, animais, homens, mundos, astros, mais não são que agregações de moléculas, as quais são a seu turno compostas de átomos, separados uns dos outros, em estado de movimento constante e de renovamento perpétuo.
O átomo é invisível, mesmo com o auxílio dos mais poderosos microscópios. Apenas pode ser concebido pelo pensamento, de tal sorte é sua extrema pequenez.(lxxii) E essas moléculas, esses átomos, agitam-se, movem-se, circulam, evolucionam em turbilhões incessantes, no meio dos quais a forma dos corpos só se mantém em virtude da lei de atração.
Pode-se, pois, dizer que o mundo é composto de átomos invisíveis, regidos por forças imateriais. A matéria, examinada de perto, esvai-se como fumaça; não tem mais que uma realidade aparente, e base alguma de certeza nos pode oferecer. Realidade permanente, certeza, só há no espírito. Unicamente a este é que o mundo se revela em sua unidade viva, em seu eterno esplendor. Somente este é que pode apreciar e compreender a sua harmonia. É no espírito que o Universo se conhece, se reflete, se possui.
O espírito é mais ainda. É a força oculta, a vontade que governa e dirige a matéria – Mens agitat molem – e lhe dá a vida. Todas as moléculas, todos os átomos, dissemos, agitam-se, renovam-se incessantemente. No corpo humano há uma torrente vital comparável ao curso das águas. Cada partícula retirada da circulação é substituída por outras partículas. O próprio cérebro está submetido a estas mudanças e o nosso corpo inteiro renova-se em alguns meses.
É portanto inexato dizer que o cérebro produz o pensamento, pois ele não passa de um instrumento deste. Através das modificações perpétuas da carne, mantém-se a nossa personalidade e com ela a nossa memória e a nossa vontade. Há no ser humano uma força inteligente e consciente que regula o movimento harmônico dos átomos materiais de acordo com as necessidades da existência; há um princípio que domina a matéria e lhe sobrevive.
O mesmo sucede com o conjunto das coisas. O mundo material não é senão o aspecto exterior, a aparência móbil, a manifestação de uma realidade substancial e espiritual que nele existe. Assim como o eu humano não está na matéria variável, e sim no espírito, assim o eu do Universo não está no conjunto dos globos e dos astros que o compõem, mas sim na Vontade oculta, na Potência invisível e imaterial que dirige as suas molas secretas e regula a sua evolução.
A ciência materialista só vê um lado das coisas. Em sua impotência para determinar as leis do Universo e da vida, depois de haver proscrito a hipótese, é obrigada, ela também, a sair da sensação, da experiência, e recorrer à hipótese para dar uma explicação das leis naturais. É o que ela faz tomando por base do mundo físico o átomo, que os sentidos não alcançam.
Jules Soury, um dos mais autorizados escritores materialistas, na análise que fez dos trabalhos de Haeckel, não hesita em confessar esta contradição: “Nada podemos conhecer, diz ele, da constituição da matéria.”
Se o mundo fosse somente um composto de matéria, governado pela força cega, isto é, pelo acaso, não se veria essa sucessão regular, contínua, dos mesmos fenômenos, produzindo-se segundo uma ordem estabelecida; não se veria essa adaptação inteligente dos meios aos fins, essa harmonia de leis, forças e proporções, que se manifesta em toda a Natureza. A vida seria um acidente, um fato de exceção e não de ordem geral. Não se poderia explicar essa tendência, esse impulso, que, em todas as idades do mundo, desde a aparição dos seres elementares, dirige a corrente vital, em progressos sucessivos, para formas cada vez mais perfeitas. Cega, inconsciente, sem fito, como poderia a matéria se diversificar, se desenvolver sob o plano grandioso, cujas linhas aparecem a qualquer observador atento? Como poderia coordenar seus elementos, suas moléculas, de maneira a formar todas as maravilhas da Natureza, desde as esferas que povoam o espaço infinito até os órgãos do corpo humano; o cérebro, os olhos, o ouvido, até os insetos, até os pássaros, até as flores?
Os progressos da Geologia e da Antropologia pré-histórica lançaram vivas luzes sobre a história do mundo primitivo. Mas foi erradamente que os materialistas acreditaram achar na lei da evolução dos seres um ponto de apoio, um socorro para as suas teorias. Uma coisa essencial se deduz destes estudos. É a certeza de que a força cega em parte nenhuma domina de modo absoluto. Ao contrário, o que triunfa e reina é a inteligência, a vontade, a razão. A força brutal não tem bastado para assegurar a conservação e o desenvolvimento das espécies. Os seres que tomaram posse do globo e avassalaram a Natureza não foram os mais fortes, os mais bem armados fisicamente, mas sim os mais bem dotados do ponto de vista intelectual.
Desde a sua origem, o mundo encaminha-se para um estado de coisas cada vez mais elevado. Através dos tempos afirma-se a lei do progresso nas transformações sucessivas do globo e das quadras da Humanidade. Um alvo se revela no Universo, alvo para o qual tudo tende, tudo evoluciona, seres e coisas; esse alvo é o Bem, é o Melhor. A história da Terra é o mais eloqüente testemunho desta verdade.
Sem dúvida nos objetarão que a luta, o sofrimento e a morte estão no fundo de tudo. Mas o esforço e a luta são as próprias condições do progresso e, quanto à morte, ela não é o nada, como provaremos mais adiante, porém a entrada do ser em uma fase nova de evolução. Do estudo da Natureza e dos anais da história do mundo, um fato capital se destaca; é que em tudo quanto existe há uma Causa e para conhecer-se essa Causa é preciso avançar além da matéria, até essa Lei viva e consciente que nos explica a ordem do Universo, assim como as experiências da Psicologia moderna nos demonstram o problema da vida.
Julga-se principalmente uma doutrina filosófica por suas conseqüências morais, pelos efeitos que produz sobre a vida social. Consideradas sob este ponto de vista, as teorias materialistas, baseadas no fatalismo, são incapazes de servir de incentivo à vida moral, de sanção às leis da consciência. A idéia, inteiramente mecânica, que dão do mundo e da vida, destrói a noção de liberdade e, por conseguinte, a de responsabilidade.(lxxiii) Fazem da luta pela vida uma lei inexorável, pela qual os fracos devem sucumbir aos golpes dos fortes, uma lei que bane para sempre da Terra o reinado da paz, da solidariedade e da fraternidade humana. Penetrando os espíritos, tais teorias só podem acarretar, aos infelizes, a indiferença e o egoísmo; aos deserdados, o desespero e a violência, a todos a desmoralização.
Sem dúvida, há materialistas honestos e ateus virtuosos, mas não se dá isto em virtude da aplicação rigorosa das suas doutrinas. Se são assim é apesar de suas opiniões e não por causa delas; é por um impulso secreto de sua natureza, é porque sua consciência soube resistir a todos os sofismas. Não menos logicamente daí se depreende também que o materialismo, suprimindo o livre-arbítrio, fazendo das faculdades intelectuais e das qualidades morais a resultante de combinações químicas, de secreções da substância parda do cérebro, considerando o Gênio como uma nevrose, degrada a dignidade humana, e rouba à existência todo o caráter elevado.
Com a convicção de que nada mais há além da vida presente e que não existe outra justiça superior à dos homens, cada qual pode dizer: Para que lutar e sofrer? Para que a piedade, a coragem, a retidão? Por que nos constrangermos e domarmos nossos apetites e desejos?