Por outro lado, sensivelmente se enfraqueceu o sentimento religioso. O dogma não exerce atualmente influência alguma sobre a vida das sociedades. Fatigada dos embaraços em que a tinham envolvido, a alma humana atirou-se para a luz; despedaçou esses frouxos laços para unir-se aos grandes espíritos, que não pertencem a uma seita nem a uma raça determinada, mas cujo pensamento alumia e aquece a Humanidade inteira. Livre de qualquer tutela sacerdotal, ela quer, para o futuro, pensar, proceder e viver por si mesma.
Só queremos falar do Catolicismo com moderação. Essa religião, não o esqueçamos, foi a de nossos pais; embalou inumeráveis gerações. A moderação, porém, não exclui o exame. Ora, duma análise séria resulta isto: a Igreja infalível enganou-se, tanto na sua concepção física do Universo, como na sua idéia moral da vida humana. A Terra não é o corpo central mais importante do Universo, nem a vida presente é o único teatro das nossas lutas e do nosso progresso. O trabalho não é um castigo, mas sim um meio regenerador pelo qual se fortifica e eleva a Humanidade. O Catolicismo, pela sua falsa idéia da vida, foi conduzido ao ódio do progresso e da civilização, e este sentimento está, sem nenhuma reserva, expresso no último artigo do Syflabus:
“Anátema sobre esses que pretendem que o pontífice romano deve reconciliar-se com o progresso, o liberalismo e a civilização moderna.”
O Catolicismo atribui ao Ser Supremo fraquezas iguais às nossas. Faz dele uma espécie de carrasco que vota aos últimos suplícios os seres débeis, obra das suas mãos. Os homens, criados para a felicidade, sucumbem em multidão às tentações do mal e vão povoar os infernos. Assim, sua impotência iguala sua imprevidência, e Satanás é mais hábil que Deus.
Será esse o Pai que Jesus nos faz conhecer, quando nos recomenda, em seu nome, o esquecimento das ofensas; quando nos aconselha dar o bem pelo mal e nos prega a piedade, o amor, o perdão? O homem compassivo e bom será, portanto, superior a Deus?
É verdade que, para intentar a salvação do mundo, Deus sacrifica o seu próprio filho, membro da Trindade e parte de si mesmo, o que é cair ainda num erro monstruoso e justificar a alusão de Diderot: “Deus matou Deus para apaziguar Deus.”
O Catolicismo, nos tempos de perseguição, escavou bastantes cárceres, ateou muitas fogueiras, inventou torturas inauditas. Porém tudo isso é pouco ao lado da influência perniciosa que derramou sobre as almas. Não só torturou os corpos, mas também obscureceu as consciências pela superstição, turvou as inteligências pela idéia terrível e sombria de um Deus vingador. Ensinou a abafar as dúvidas, a aniquilar a razão e as mais belas faculdades, a fugir, como de animais ferozes, de todos os que livre e sinceramente procuravam a verdade e a estimular somente aqueles que suportavam o mesmo jugo. As cruzadas do Oriente e do Ocidente, os autos-de-fé e a Inquisição são males menores do que essa tirania secular e do que esse espírito de seita, carolice e intolerância, em cujo meio se velou a inteligência e se falseou o discernimento de centenas de milhões de homens.
Depois, ao lado do ensino errôneo, os abusos sem-número, as preces e as cerimônias tarifadas, a tabela dos pecados, a confissão, as relíquias, o purgatório, o resgate das almas, enfim, os dogmas da infalibilidade do papa e da Imaculada Conceição, o poder temporal, violação flagrante deste preceito do Deuteronômio (capítulo 18º, versículos 1 e 2): que proíbe aos sacerdotes “possuírem bens da Terra e co-participarem de qualquer herança, porque o Senhor é que é a sua herança”; tudo isto mostra a distância que separa as concepções católicas dos verdadeiros ensinos do Evangelho.
Contudo, a Igreja fez obra útil. Teve suas épocas de grandeza. Opôs diques à barbaria, cobriu o mundo com instituições de beneficência. Mas, como que petrificada em seus dogmas, ela se imobiliza, enquanto em torno de si tudo caminha e avança; de dia em dia, a Ciência avulta e a razão humana se enriquece.
Nada escapa à lei do progresso, e as religiões são como tudo o mais. Puderam corresponder às necessidades de uma época e de um estado social atrasados, porém chega o tempo em que, encerradas nas suas fórmulas como num círculo de ferro, devem resignar-se a morrer. É a situação do Catolicismo. Tendo dado à História tudo o que lhe podia oferecer e tornando-se impotente para fecundar o Espírito humano, este o abandona e, em sua marcha incessante, adianta-se para concepções mais vastas e elevadas. Mas, nem por isso perecerá a idéia cristã; esta somente se transformará para reaparecer sob forma nova e mais depurada. Chegará a ocasião em que o Catolicismo, seus dogmas e práticas mais não serão que vagas reminiscências quase apagadas da memória dos homens, como o são para nós os paganismos romano e escandinavo. A grande figura do Crucificado dominará os séculos e três coisas subsistirão do seu ensino, por serem a expressão da verdade eterna: a unidade de Deus, a imortalidade da alma e a fraternidade humana.
Apesar das perseguições religiosas, a doutrina secreta perpetuou-se através dos séculos e o seu vestígio é encontrado em toda a Idade Média.
Já os iniciados judaicos, em época remota, a tinham registrado em duas obras célebres: o Zohar e o Sepher-Yetzirah. O seu conjunto forma a Cabala, uma das obras capitais da ciência esotérica.(lvii)
No Cristianismo primitivo sente-se perfeitamente acentuado o seu cunho. Os primeiros cristãos acreditavam, com efeito, na preexistência e na sobrevivência da alma em outros corpos, como já vimos a propósito das perguntas feitas a Jesus sobre João Batista e Elias, e também da que os apóstolos fizeram relativamente ao cego de nascença, que parecia “ter atraído esta punição por pecados cometidos antes de nascer”.(lviii) A idéia da reencarnação estava espalhada de tal forma entre o povo judeu, que o historiador Josefo censurou os fariseus do seu tempo, por não admitirem a transmigração das almas senão entre as pessoas de bem.(lix) Os cristãos entregavam-se às evocações e comunicavam-se com os Espíritos dos mortos. Encontram-se nos Atos dos Apóstolos numerosas indicações sobre este ponto;(lx) São Paulo, em sua primeira Epístola aos Coríntios, descreve, sob o nome de dons espirituais, todas as espécies de mediunidade.(lxi) Ele se declara instruído diretamente pelo Espírito de Jesus na verdade evangélica.
Atribuíam-se algumas vezes essas inspirações aos maus Espíritos, aos quais certas pessoas chamavam espírito de Píton:
“Meus bem-amados, dizia João Evangelista, não acrediteis em qualquer espírito, mas vede se os espíritos são de Deus.” (lxii)
Durante vários séculos, estiveram em uso as práticas espíritas.
Quase todos os filósofos de Alexandria, Fílon, Amônio Sakas, Plotino, Porfírio, Arnóbio, se dizem inspirados por gênios superiores; São Gregório, taumaturgo, recebe os símbolos da fé do Espírito de São João.
A escola de Alexandria resplandecia então com a mais viva claridade, pois todas as grandes correntes do pensamento pareciam aí convergir e se confundir. Essa célebre escola havia produzido uma plêiade de espíritos brilhantes que se esforçavam por fundir a filosofia de Pitágoras e de Platão com as tradições da Cabala judaica e com os princípios do Cristianismo. Esperavam assim formar uma doutrina definitiva de largas e poderosas perspectivas, uma religião universal e imorredoura. Era esse o sonho de Fílon. Como Sócrates, esse grande pensador teve um Espírito familiar que o assistia, inspirava e fazia escrever durante o sono.(lxiii) Também sucedia o mesmo com Amônius e Plotino, os quais, diz Porfiro, eram inspirados por Gênios, “não os que são chamados demônios, mas sim os que são designados como deuses”.(lxiv) Plotino escreveu um livro sobre os Espíritos familiares.
Como esses filósofos, Jâmblico também era versado na teurgia e comunicava-se com o mundo invisível. De todos os campeões do Cristianismo esotérico, Orígenes é o mais conhecido. Esse homem de gênio, que se tornou um grande filósofo e um santo, estabeleceu nas suas obras (lxv) que a desigualdade dos seres é conseqüência dos seus méritos diversos. As únicas penas, conformes à bondade e à justiça divinas, são, diz ele, as penas medicinais, as que têm por efeito a purificação progressiva das almas nas séries das existências, antes de merecerem admissão no céu. Entre os padres da Igreja, muitos participavam dessas opiniões (lxvi) e apoiavam-se nas revelações dos Espíritos aos profetas ou médiuns.(lxvii)
Tertuliano assim se exprime num trecho da sua Apologética:
“Se é permitido aos mágicos fazer aparecer fantasmas, evocar as almas dos mortos, obrigar os lábios duma criança a proferir oráculos... se eles têm às suas ordens espíritos mensageiros, pela virtude dos quais as mesas profetizam, quanto maior zelo e solicitude não empregarão esses espíritos poderosos para operarem por conta própria o que executam com auxílio de outrem.”
Santo Agostinho, o grande bispo da Hipona, no seu tratado De Cura pra Mortais, fala das manifestações ocultas e ajunta:
“Por que não atribuir esses fatos aos espíritos dos finados e deixar de acreditar que a divina Providência faz de tudo um uso acertado, para instruir os homens, consolá-los e induzi-los ao bem?”
Na sua obra Cidade de Deus,(lxviii) tratando do corpo fluídico, etéreo, suave, que é o invólucro da alma e que conserva a imagem do corpo material, esse padre da Igreja fala das operações teúrgicas, conhecidas sob o nome de Télêtes, que o punham em condições de se comunicar com os Espíritos e os anjos, e de ter visões admiráveis.
Quanto à pluralidade das vidas, afirmada por Orígenes e que Santo Agostinho parece em certos casos combater, pode-se até dizer que ela está estabelecida no seguinte trecho da obra deste: