Um Novo Nabucodonosor
O que há de singular é que esse fato tão extraordinário é muito pouco conhecido; jamais foi publicado por qualquer jornal e, no entanto, se passa bem perto de Kazan, cidade onde há uma universidade, cientistas e médicos. É verdade que no começo fizeram pesquisas, mas parece que desanimaram muito depressa. Contudo, que vasto campo para a observação da Ciência, sem falar do lado psicológico! É um fato atual, que cada um pode constatar. O Espiritismo, que explica tanta coisa, poderia dar a solução desse estranho fenômeno? Não ouso pedir-vos uma resposta por escrito, já que o vosso tempo é muito precioso; apenas espero que se considerardes o fato digno do vosso exame, possais dar a vossa opinião na Revista Espírita, que aqui recebemos. Aceitai, etc. Uma coisa ressalta evidentemente desse relato: esse jovem não é louco, na acepção científica do termo; goza da plenitude da razão, quando quer. Mas qual pode ser a causa de semelhante excentricidade, nessa idade? Acreditamos que ainda se passará muito tempo antes que a Ciência a encontre, com seus recursos puramente materiais. Entretanto, existe algo mais além de simples mania: é a assimilação da voz e dos gestos dos animais. Tem-se visto, é verdade, criaturas abandonadas nas florestas, desde tenra idade, vivendo com as feras, adotando seus gritos e costumes por imitação; mas aqui não é o caso. O jovem fez estudos sérios, vivem em suas terras, no meio de um vilarejo; está em contato diário com seres humanos; não se trata, pois, de uma questão de hábito e de isolamento. É, disse o sonâmbulo de Londres, a doença de Nabucodonosor. Mas que doença é esta? A história desse rei não é uma lenda? É possível que um homem se transforme em fera? Entretanto, se se confrontar o relato bíblico com o fato atual de Alexandre R..., notar-se-á entre eles mais de um ponto de semelhança. Compreende-se que o que se passa hoje pode ter-se passado em outros tempos, e que o rei da Babilônia tenha sido atingido por um mal semelhante. Se, pois, aquele rei, dominado por uma influência análoga, deixou seu palácio, como Alexandre R... o seu castelo; se viveu e gritou como ele, à maneira das feras, poder-se-ia dizer, na linguagem alegórica da época, que se tinha transmudado em fera. É verdade que isto destrói o milagre; mas quantos milagres caem hoje ante as leis da Natureza, que se descobrem todos os dias! A religião só tem a ganhar se aceitar como natural um fato que era repelido como maravilhoso. Quando os adversários do Espiritismo dizem que ele ressuscita o sobrenatural e a superstição, provam que lhe ignoram as primeiras palavras, já que ele vem, ao contrário, provar que certos fatos, reputados misteriosos, não passam de efeitos naturais. Lido esse relato na Sociedade de Paris, como tema de estudo, pediu-se a um médium que evocasse os Espíritos que pudessem dar sua explicação. Foram obtidas as três comunicações seguintes: uma do irmão morto, Voldemar; a segunda do Espírito protetor dos dois irmãos; a terceira, do guia espiritual de outro médium. (Sociedade Espírita de Paris, 13 de outubro de 1865 – Médium: Sr. Desliens) I Eis-me aqui!... Que quereis?... Com que direito vos imiscuis em negócios de família e todos íntimos!... Sabei que ninguém jamais me ofendeu em vão, e temei incorrer em minha cólera, se buscardes penetrar um segredo que não vos pertence! Quereis ter a chave das razões que levam meu irmão a fazer semelhantes tolices?... Sabei que toda a causa reside em mim, que o puni desta maneira pela falta de fé, com que se tornou culpado a meu respeito. Um elo nos unia, elo terrível, elo da morte!... Que sofra, pois, a pena por uma falta que não poderia encontrar graça em mim!... Meu cúmplice na ação, devia seguir-me no suplício. Por que hesitou?... Hoje sofre a pena de suas hesitações. Não podendo constrangê-lo a seguir-me, pelo menos imediatamente, empreguei a força magnética, que possuo em grau extremo, para obrigá-lo a abandonar a sua vontade e o seu ser ao meu livre-arbítrio. Ele sofre nessa posição!... tanto melhor! cada um de seus gemidos interiores me causa uma agitação de sombria satisfação. Estais contentes com a minha urbanidade? achais suficientes as minhas explicações?... Não; quereríeis moralizar-me... Mas quem sois vós para me fazer pregações? sois padre? não. Pois bem! a que título quereis que vos escute? Nada quero ouvir e volto ao lugar que não devia ter deixado. Ele compreende seus males neste momento; talvez sua vontade reaja sobre a matéria! Infelizes de vós se o fizerdes escapar ao meu domínio! Voldemar R... II Não tenteis, pelo menos agora, obrigar esse pobre insensato a vos ouvir; não poderia fazê-lo e vossas palavras apenas excitariam sua raiva brutal. Venho em seu lugar dar-vos algumas explicações que lançarão um pouco de luz sobre o drama sombrio de que esses dois seres foram os atores em outra existência. Neste momento o expiam, sofrendo as conseqüências das ações criminosas, em cujos detalhes eu não poderia entrar hoje. Sabei apenas que, dessas duas individualidades, Alexandre foi, sob outro nome e noutra época, subordinado de Voldemar, numa condição social que podereis presumir por algumas palavras do relato que lestes. Meditai a passagem em que se diz que Alexandre exigia que tocassem o sino no começo de suas refeições, e estareis no caminho. Subordinado, como vos disse, a Voldemar, sob a instigação deste cometeu diversas ações, cuja responsabilidade ambos carregam hoje, e que são a fonte de seus sofrimentos. Alexandre era e é ainda um caráter fraco e vacilante, quando uma causa qualquer dava a alguém o domínio sobre ele; para os outros era altivo, déspota, brutal. Em suma, estava sob o domínio do irmão. O que os dois fizeram é o que o futuro vos dirá na seqüência deste estudo. Passemos aos resultados. Prometeram jamais se trair nem se abandonar. Além disso, Voldemar se reservou tripudiar, com toda a sua vontade poderosa, sobre o infeliz cúmplice. Vistes que ele o tinha tomado como alvo de suas zombarias, na fase de existência que percorreram juntos. Dotados de inteligência pouco comum, esses dois seres haviam formado anteriormente, pela associação de suas inclinações más, uma temível liga contra a sociedade. Voldemar foi levado por um desígnio da Providência, que assim preparava o caminho da renovação desses dois seres. Dominado por sua promessa, Alexandre queria seguir o irmão no túmulo, mas sua afeição por uma pessoa, da qual se falou no relato, e a fadiga de um jugo que suportava a duras penas, fez tomasse a resolução de lutar. O irmão não o podia matar materialmente, mas o matou moralmente, envolvendo-o num emaranhado de influências que determinaram a cruel obsessão, cujas conseqüências conheceis. O sonâmbulo que designou essa afecção sob o nome de doença de Nabucodonosor não estava tão longe da verdade quanto se podia crer, porque Nabucodonosor não passava de um obsedado, convencido de se ter transformado em fera. É, pois, uma obsessão que, como sabeis, não exclui a ação da inteligência e não a aniquila de maneira fatal. É um dos casos mais notáveis, cujo estudo só poderá ser proveitoso a todos. Nesta noite ele nos arrastaria muito longe, pelos desenvolvimentos que reclama. Limitar-me-ei a esta exposição, pedindo-vos ao mesmo tempo reunir vossas forças espirituais para evocar Voldemar. Como o teme com razão, em sua ausência o irmão recobra a energia e pode libertar-se. Eis por que lhe repugna deixá-lo e sobre ele exerce uma ação magnética contínua. O guia de ambos, Paulowitch III (Médium: Sra. Delanne) Meus irmãos bem-amados, certos fatos referidos nas Escrituras são olhados, por muita gente, como fábulas para crianças. Desdenharam-nos, porque não os compreenderam e recusaram-lhes dar fé. No entanto, liberto da forma alegórica, o fundo é verdadeiro e só o Espiritismo poderia dar-lhe a chave. Vai produzir-se de diversas naturezas, não só nos espíritas, mas em todo o mundo e por toda a Terra, forçando os cientistas a estudar, e é então que poderão convencer-se, a despeito do que digam alguns, que o Espiritismo ensina o novo, porque é por ele que se terá a explicação do que ficou inexplicado até hoje. Não se vos disse que a obsessão ia se ornar de novas formas? Este é um exemplo. A punição de Nabucodonosor não é uma fábula. Ele não foi, como dissestes muito judiciosamente, transmudado em fera; mas estava, como no caso que vos ocupa neste momento, privado por algum tempo do livre exercício de suas faculdades intelectuais, e isto em condições que o assemelhavam à fera, fazendo do poderoso déspota objeto de piedade para todos. Deus o tinha ferido no seu orgulho. Todas estas questões se ligam às do fluido e do magnetismo. Nesse rapaz há obsessão e subjugação; tem grande lucidez no estado de Espírito, e seu irmão exerce sobre ele uma influência magnética irresistível; atrai-o facilmente fora do corpo, quando uma pessoa amiga e simpática lá não está para o reter; sofre quando desprendido; para ele também é uma punição, e é então que solta rugidos ferozes. Não vos apresseis, pois, em condenar o que está escrito nos livros sagrados, como faz a maioria dos que só vêem a letra e não o espírito. Diariamente vos esclareceis mais e novas verdades se desdobrarão aos vossos olhos, pois estais longe de ter esgotado todas as aplicações do que sabeis em Espiritismo.
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Mês Novembro
Ano 1865