Escrevem-nos de Charkow (Rússia): Escrevendo-vos, Sr. presidente, ouso esperar que o Espiritismo talvez venha lançar alguma luz sobre um fato, até hoje inexplicável, e que me parece oferecer um poderoso interesse.
Colhi-o de testemunha ocular, parente próximo da pessoa em questão. Eis o que me contou.
Todos os membros da família R... se faziam notados pela originalidade do caráter e por suas inclinações. Mas aqui falarei apenas dos dois irmãos Alexandre e Voldemar. O que impressionava neste último eram os olhos, cuja impressão é impossível descrever. Criança brincávamos juntos; longe de ser poltrão, eu não podia, entretanto, suportar o seu olhar. Fiz a observação a meu pai, que me confessou experimentar, olhando-o, o mesmo sentimento de perturbação, e me aconselhou que o evitasse. Parece que Voldemar não era o favorito da família.
Quando chegou à idade dos estudos sérios, os dois irmãos foram estudar na universidade de Kazan. Voldemar não tardou em deixar estupefatos mestres e colegas pelas atitudes fora do comum; muitas vezes se vangloriava em presença do irmão, que tinha escolhido para alvo de suas zombarias. Mas seus sucessos não duraram muito.
Aos dezesseis anos, morreu nos braços do irmão. É deste último que vamos nos ocupar.
Embora em menor grau, Alexandre também possuía, em seus olhos negros, esse magnetismo fascinante, que tanto chocava em seu irmão; também não tinha suas brilhantes qualidades; mas isto não o impedia de ter muito espírito e de aprender com facilidade. A morte do irmão causou-lhe tal impressão que se tornou outro homem. Seis semanas depois, ficou sem abrir os olhos, deixou de se pentear, de se lavar, e não quis, sob nenhum pretexto, mudar de roupa, de modo que a roupa branca e o costume apodreciam-lhe no corpo e caíam em frangalhos.
Então sua mãe o levou para o campo. Um tio que não morava longe conseguiu que ela lhe confiasse o sobrinho por algum tempo, prometendo fazê-lo esquecer todas as suas fantasias.
Com efeito, disse-lhe com muita severidade que se ele se atrevesse a manter semelhante atitude em sua casa, não teria escrúpulos quanto aos meios de o corrigir. Alexandre logo se tornou perfeitamente razoável; não ofereceu qualquer resistência às ordens do tio, mas escreveu secretamente à mãe, suplicando-lhe viesse livrá-lo de seu carrasco. A mãe atendeu logo ao seu desejo. Mas, uma vez longe do tio, as bizarrices recomeçaram cada vez mais.
Entre outras coisas, exigia que tocassem os sinos da Igreja, quando se sentava à mesa. Pensaram num distúrbio do cérebro e o puseram numa casa de saúde de Kazan. Coisa estranha! Ainda desta vez mudou completamente. Nada em sua conduta, em suas palavras, denotava um cérebro doente. Os médicos pensaram numa intriga familiar e não o observaram mais de perto.
Certa noite, vendo que todos dormiam, pôs o barrete e vestiu o avental de um dos médicos, saiu do quarto, passou perto do porteiro sem ser reconhecido, ganhou a rua e andou cerca de 30 quilômetros29 a pé, até sua fazenda. Entrou numa espécie de choupana, que servia de galinheiro, tirou toda a roupa e, pondo-se no meio da peça, declarou que dois metros quadrados30 de terreno eram suficientes para a vida de um homem, e que de nada precisava. Sua mãe, de joelhos, em vão suplicou que mudasse de idéia; em vão tentaram persuadi-lo de que ao menos permitisse fazer um teto na sua choupana, mas ele permaneceu inflexível; quis ao seu lado apenas uma velha criada, que jamais o deixara e que tinha por ele uma fidelidade e um apego de cão. Seu pai, vendo que nada dava resultado, ordenou a todos os seus camponeses que deixassem o lugar e fossem estabelecer-se a 7 quilômetros dali. Ele próprio partiu, apelidando o vilarejo de “Aldeia Perdida.” Então quiseram pôr a propriedade sob tutela. Nomearam comissões, mas Alexandre era sempre prevenido a tempo e se vestia, embora sem usar as roupas de baixo; depois vinha encontrar as pessoas. A todas as perguntas respondia com bom-senso, com uma justeza que nada deixava a desejar, e o fazia tão bem que a comissão, imaginando ao chegar que se tratava de um louco, retirava-se desapontada.
Isto se passava em 1842 e, até agora, Alexandre está sempre no mesmo estado. Mantém-se de pé, completamente despido, num casebre sem portas nem janelas, exposto a todos os ventos e onde, no inverno, o frio chega a 30o abaixo de zero.
Alimenta-se de um pouco de geléia de uva, que lhe trazem uma vez por dia, numa tigela de barro; atiram-na com uma colher e ele a apanha no ar, à maneira dos animais, dos quais adotou o rugido, pois não mais se serve da palavra humana. À força de manter a cabeça inclinada, não pode mais erguê-la; seus pés atingiram uma largura desmesurada e não pode mais andar. Algumas vezes, à noite, cai prostrado, permitindo que o cubram com uma pele de carneiro. Seu aspecto, aliás, nada apresenta de extraordinário, exceto os olhos. Nem é gordo nem magro; sua fisionomia estampa sofrimento. Uma vez lhe perguntaram a razão de sua conduta bizarra. Respondeu: “Não me faleis nisto, é uma falta de vontade.”
Não conseguiram mais. Que entendia ele por falta de vontade? Era um voto?... Às vezes pronuncia o nome do irmão morto; outras vezes exclama: “Quando isto terminará?” Não segue nenhuma das regras impostas por sua religião. Tinham mandado seus cabelos a um célebre sonâmbulo de Londres; foi respondido que “era a doença de Nabucodonosor.”
E, contudo, ele não é louco! O que há de mais extraordinário é que ao lado dessa existência puramente bestial, há nele uma vida intelectual, pois se interessa por tudo o que se passa no mundo; manda trazer muitos jornais e, como sua casa é escura, permitiu construíssem uma espécie de barraca ao lado do seu casebre.
Era aí que outrora, durante horas inteiras, sua mãe lia para ele. Agora que ela está morta, foi substituída por uma leitora contratada.
A comissão encarregada de investigar o caso obteve os seguintes detalhes que, no fundo, apenas o embrulharam. D***, colega de Alexandre R... na universidade, depôs que, quando estavam juntos, pôde observar que ele estava muito apaixonado pela mulher de um farmacêutico; era uma criatura de rara beleza e, além disso, muito virtuosa. Diariamente Alexandre montava a cavalo, para ter o prazer de passar em frente às suas janelas e vê-la, às vezes, de longe, limitando-se a isto os seus amores. Contudo, vinham trazer-lhe todos os dias e à mesma hora, uma carta lacrada; e se houvesse alguém em seu quarto, ele se apressava em escondê-la numa gaveta. Persuadido de que fossem bilhetes amorosos, D*** não se interessava muito em lhes conhecer o conteúdo. Mais tarde, quando começaram as pesquisas, só encontraram duas cartas (havia queimado as demais), supondo-se que eram do número das que recebia na universidade. A primeira era mais ou menos vazada nestes termos: “Ontem me aconteceu uma coisa estranha. Eu voltava de nossa Suíça Russa (nome de um passeio nos arredores de Kazan) e atravessava o campo de Ars, quando ouvi gritar: Socorro! Também gritei e, precipitando-me para o lado de onde vinham os gritos, cheguei perto de um cemitério cercado. Vi aparecer em cima da cerca um rapaz que me agradecia vivamente a minha intervenção, dizendo que tinha sido atacado por ladrões; mas, ouvindo uma voz, fugiram. (Uma fábrica de tecidos estava situada no campo de Ars; como o trabalho tinha sido suspenso por algum tempo e os operários não encontrassem meios para ganhar o pão, entregaram-se ao roubo). Tomamos juntos o caminho da cidade, estabelecendo-se entre nós uma conversa muito interessante e animada. Não posso dizer-te aqui do que se tratava, mas direi quando nos encontrarmos.
“Enfim chegamos à casa do meu desconhecido e aí passei toda a tarde. Ao dizer adeus agradeceu-me ainda uma vez, sem, contudo, convidar-me a vir vê-lo em casa; apenas indicou-me um lugar onde passeava todos os dias a uma hora certa e onde, se eu quisesse, poderia vê-lo. O que há de estranho é que, de volta à minha casa, não me foi possível lembrar nem a rua, nem a casa que acabara de deixar e, no entanto, conheço perfeitamente a cidade onde moro há quatro anos. Proponho-me ir ver o meu desconhecido no lugar indicado; tentarei introduzir-me em sua casa e, por certo, dessa vez me lembrarei.” Não havia assinatura.
Eis a segunda carta, que dá seqüência à precedente.
Apenas é muito mais curta: “Vi o meu desconhecido no lugar indicado; convidou-me a vir à sua casa; passamos juntos a tarde inteira, mas, de volta à minha casa, esqueci por completo, mais uma vez, a rua e a casa.” Nada de assinatura. Examinando a letra atentamente, julgaram encontrar grande semelhança com a de um de seus camaradas. Mas quando as leram a este último, ele se pôs a rir, declarando que jamais havia escrito semelhantes coisas.
Aqui param todas as pesquisas. Supõe-se que haja nisto um grande mistério, e apenas três pessoas o podem saber. Primeiro sua mãe, depois a velha criada que não o deixava nunca e, finalmente, sua irmã. As duas primeiras estão mortas, a terceira mora com o marido no mesmo vilarejo que Alexandre. Vai vê-lo diariamente e ali passa três ou quatro horas seguidas. De que podem falar? Seu irmão esquece os rugidos para falar uma linguagem humana, voltando a ser racional? é o que ninguém sabe.